Dados revelam sobrecarga, desigualdade salarial e barreiras culturais que limitam as mulheres nos avanços profissionais.
Por Bárbara de Brito
Diariamente, após horas dedicadas ao mercado de trabalho, milhares de mulheres assumem uma segunda rotina exaustiva com os cuidados da casa e da família. Essa sobrecarga, historicamente naturalizada como uma obrigação feminina, reflete diretamente na desigualdade do mundo corporativo. De acordo com o IBGE, as mulheres gastam em média 21 horas semanais em tarefas domésticas e cuidados, contra apenas 11 horas dos homens. Essa disparidade não apenas diminui a presença feminina no mercado de trabalho — onde a taxa de participação é de 54%, ante 73% da masculina —, mas também se reflete nos salários, que chegam a ser 20% menores para elas em cargos semelhantes.
A realidade estatística ganha rosto na dura rotina de Neli Nunes, moradora de Blumenau e mãe de quatro filhos. Trabalhando como cuidadora de idosos, ela praticamente mora no emprego durante a semana e, nos raros dias de folga, precisa se desdobrar para organizar a própria casa, adiantar as refeições e tentar aproveitar o tempo com a família. O relato de Neli ilustra a realidade apontada pelo Infojobs: 45% das mulheres que enfrentam a dupla jornada não contam com nenhuma rede de apoio ou ajuda de parceiros para dividir a carga.
Segundo o professor de sociologia Isaías Sczuk, esse cenário persiste porque o machismo enraizado na sociedade idealizou o cuidado como um “instinto materno” e não como uma prática que exige tempo e competência. Essa visão arcaica invisibiliza o esforço feminino e cria barreiras culturais que prejudicam a ascensão profissional, gerando episódios de assédio e a falsa percepção de “indisponibilidade” da mulher, especialmente após a maternidade.
O fenômeno da dupla jornada permanece como uma barreira estrutural que limita o potencial feminino. O texto conclui que, enquanto o cuidado continuar sendo visto como responsabilidade exclusiva da mulher e não houver políticas públicas eficazes — como creches acessíveis e a conscientização sobre a redistribuição de tarefas —, o ciclo de desigualdade se manterá, comprometendo tanto as trajetórias individuais quanto o desenvolvimento social do país.




