A visão dos povos originários sobre a colonização de Blumenau
Por Eric Baumgartner e Maria Eduarda
A narrativa tradicional sobre a fundação de Blumenau exalta a chegada de imigrantes europeus em 1850, sustentando o mito de uma terra vazia. No entanto, o Vale do Itajaí já era o lar dos povos Laklãnõ-Xokleng e Kaingang. Para eles, o atual centro da cidade era conhecido como Covilã. O Rio Itajaí-Açu não era apenas um recurso, mas uma força vital e espiritual que guiava o sustento, a organização territorial e a própria visão de mundo dessas comunidades.
O processo de colonização, no entanto, foi construído sobre a violência e o apagamento. Desde os primeiros registros de conflitos em 1852, a história oficial documentou a perda dos colonos, mas invisibilizou as incontáveis mortes indígenas. No final do século XIX, essa perseguição se tornou estruturada com a ação dos “bugreiros” — homens contratados especificamente para caçar e exterminar as populações nativas que “atrapalhavam” o avanço colonial. As cicatrizes desse extermínio sobrevivem nas memórias e no choro dos anciãos, transmitidas pela tradição oral.
Além da violência física, o silenciamento se estendeu às decisões territoriais. Na década de 1970, a construção da Barragem Norte, em José Boiteux, inundou cerca de 900 hectares da Terra Indígena Laklãnõ-Xokleng sem que a comunidade fosse consultada, gerando impactos e conflitos que perduram até os dias de hoje. Ironicamente, o conhecimento ancestral sobre a natureza sempre esteve à frente: relatos contam que os indígenas riram ao observar os colonos construindo suas casas às margens do rio, pois, conhecendo o ciclo das águas, sabiam que as enchentes inevitavelmente tomariam aquelas terras.
Apesar de a identidade de Blumenau privilegiar quase que exclusivamente a herança germânica em seus cartões-postais e festividades, a resistência originária permanece inabalável. Através de ações de retomada territorial, como a Angoy Konã, e da ocupação de espaços urbanos, políticos e universitários, os povos indígenas provam que não são apenas uma nota de rodapé no passado. Eles seguem presentes, mantendo viva a memória de Covilã e reivindicando seu merecido espaço na história e no presente do Vale do Itajaí.






