Imagem por Free Pik

A verdade sob ataques: Jornalismo versus a Opinião Pública

Em meio à ascensão de influenciadores digitais, desinformação e discursos negacionistas, jornalistas analisam os desafios de produzir informação confiável e preservar a credibilidade da imprensa.

Por Osvaldo Mané

Ao ser questionado sobre o que estuda, um jovem estudante de jornalismo ouviu do “motorista de caminhão”, uma resposta carregada de descrença: ´Esse é um curso de mentirosos, jornalistas trabalham apenas a favor dos políticos´. A frase, dita sem hesitação, revela a distância crescente entre as redações e as ruas.

A desconfiança na profissão está em alta entre aqueles que vivem de produzir notícias. De acordo com os dados do Digital News Report 2025, o índice de confiança no jornalismo brasileiro é de 42%. O número acende um alerta para as redações: mais da metade da população (58%) mantém algum nível de ceticismo, indiferença ou desconfiança direta em relação às notícias veiculadas pela imprensa nacional.

Se o jornalismo é uma atividade de comunicação social que visa analisar e divulgar acontecimentos do interesse público, por que o público desacreditou nele? 

Um texto opinativo da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (Abinter),  afirma que “a confiança na imprensa sempre foi um dos pilares das sociedades democráticas. No entanto, nos últimos anos, esse vínculo vem sendo fragilizado. A chamada crise da credibilidade no jornalismo não surge de um único fator, mas de uma combinação complexa de mudanças tecnológicas, comportamentais e institucionais. Entender por que o público desconfia da imprensa é essencial para reconstruir essa relação — e garantir o papel do jornalismo como agente de informação confiável”.

Em um passado recente, a maioria das pessoas acreditava no jornalismo, mas essa confiança vem sendo debilitada nos últimos anos por causa do excesso da desinformação, polarização política e a velocidade das redes sociais que tem sido verificado ao longo dos últimos anos.

O relatório do Digital News Report 2025 aponta ainda que o consumo de notícias nas redes sociais também ganhou força: “55% dos brasileiros dizem acessar notícias por plataformas como YouTube, WhatsApp, Instagram e TikTok”.

“Esses canais, apesar de populares, aumentam a fragmentação da informação e dificultam a checagem de fontes. Isso reforça um cenário em que o jornalista precisa disputar atenção com influenciadores, criadores de conteúdo e algoritmos”, lê-se no relatório.

O fardo é pesado, mas necessário

O trabalho de um jornalista é apurar, investigar e verificar fatos. Se o público hesita em acreditar, cabe questionar: essa desconfiança nasce da percepção de que jornalistas inventam fatos, ou de um desconhecimento sobre o processo técnico de apuração?

O professor Clóvis Reis, do curso de jornalismo da Universidade Regional de Blumenau (Furb), esclarece que “um bom jornalista não iria inventar o que escreve, antes pelo contrário, ele apura, cruza os dados, busca a veracidade da notícia e só depois a escreve”.

Clóvis, que pertence a um grupo formado por jornalistas mais experientes, com larga passagem pela redação de um jornal diário, explicou que, às vezes, as fontes oficiais negam a veracidade de um assunto, mesmo ela sendo verdadeira, Mas se o “bom Jornalista” apurar bem os fatos, pode publicá-la, isso não significa que o jornalista tenha divulgado algo sem conhecimento ou responsabilidade.

O motorista do caminhão disse para o jovem estudante de jornalismo que jornalistas trabalham para agradar políticos. Talvez ele tenha razão, talvez não.

O repórter da Digital NSC Total, Jean Laurindo, apontou a radicalização política como um dos fatores da descrença na imprensa. “A mídia em geral acabou envolvida neste momento político delicado. Acho que a radicalização política que estamos assistindo, está instrumentalizando essa descrença na imprensa e no jornalismo profissional, como parte de seu projeto de sustentação de poderes”, afirmou o repórter.

Imagem por Jean Laurindo

Laurindo disse ainda que a boa parte do radicalismo político se alicerça numa propensão à interesse conspiratório, ou seja, as pessoas não querem que o lado podre deles seja publicado pela mídia ou instituições jornalísticas, portanto, o jornalismo acabou enrolado em tudo isso, e isso é menos a ver com o trabalho diário do jornalismo profissional. Além disso, ela acaba colocando todos os profissionais numa cilada de como sair disso.

Imagem por Clóvis Reis

Para o professor Clóvis Reis, a descrença não escapou do algoritmo e da polarização. “As contingências da vida de um jornalista não são fáceis. Nesse mundo em que o algoritmo só entrega a informação que já sabe que a pessoa vai gostar, o leitor passa a se acostumar um único tipo de informação. Quando encontra uma informação da qual discorda, ele a acaba tratando como “fake News”, embora eventualmente não seja. Isso é resultado da polarização e da algoritimização que existe e que se aproveita disso”, argumentou Reis.

Se a política corrompeu as instituições jornalísticas, em quem o público deve confiar, num jornalista que trabalha para uma empresa ou num jornalista independente (influenciador de redes sociais)?

Mayck ainda argumenta, dizendo que, para ele, “o ideal é ser um jornalista independente, porque assim você vai falar toda a verdade sem se preocupar que a tua instituição vai impedir você de publicar notícia que vai contra a vontade do político. O essencial é falar a verdade não importa se vai ou não agradar alguém”.

O repórter Jean Laurindo sinaliza também que hoje em dia, as pessoas confiam mais nas informações vindas dos amigos ou próximos do que nas das empresas. “As notícias vindas das instituições, geram mais desconfianças na primícia de que aquilo possa estar equivocado.” esclareceu Jean.

A pergunta que fica é sobre o rigor e a qualidade de apuração de influencers ou produtores independentes de conteúdo. “Afinal, em qual balança pesa mais a notícia: na do interesse de quem paga o salário ou do direito de quem consome a informação? Rigor da apuração é a linha que separa o jornalista que informa do jornalista que agrada. Quando o compromisso com o público é trocado pela conveniência política, a profissão perde sua função social e entrega ao cidadão o pretexto ideal para o ceticismo”, questiona Jean.

Outra questão que se coloca é se o jornalismo é uma prática de comunicação que visa informar o público sobre eventos, questões e temas relevantes da sociedade, que nome daremos àquele que o faz para agradar um político?  Jean respondeu esta pergunta com uma frase do político brasileiro Antônio Carlos Magalhães: “Há jornalistas do dinheiro e jornalistas de notícias”.

No meio político, a credibilidade também sofre questionamento por parte do público em geral. “Há jornalistas que ideologicamente se identificam mais com uma cor política, de esquerda ou de direita e acabam enviesando um pouco a sua atuação. Eu tenho impressão de que este tipo de jornalismo está muito evidente, mas, não acho que isso se seja feito exclusivamente por dinheiro ou má intenção. Outros o fazem por acharem que aquele político é mais correto ou possui as melhores condições para a sociedade. Há aqueles também que o fazem de uma forma rasteira, por interesses financeiros, comerciais, verba pública etc”, esclarece Laurindo.

Desinformação se combate com informação

No diálogo entre o jovem estudante e o caminhoneiro, o estudante não ficou calado após ter ouvido a resposta carregada de descrença por parte do motorista. Ao contrário, ele respondeu com uma interrogação:

– Quando vão ser realizadas as eleições aqui no Brasil?

O motorista lhe respondeu

– Em outubro.

O jovem estudante lhe perguntou:

– E como você teve esta informação?

O motorista então disse:

– Assisti na TV, ouvi também pelos rádios.

– Essas notícias foram apuradas, escritas e divulgadas por jornalistas, portanto o senhor não pode deixar de acreditar no jornalismo só porque já viu alguém exercendo a sua profissão da forma errada.

O fato de produtores de conteúdo agirem de forma não profissional não significa que o curso é de mentirosos ou das pessoas que trabalham ao agrado dos políticos, como lembram o professor Clóvis Reis e o repórter Jean Laurindo, sobre a frase de que todos os jornalistas são mentirosos.

“É lamentável quando tem essa afirmação de que todos os jornalistas são mentirosos. Alguns na verdade são, mas um jornalista com rigor, que faz um trabalho sério, não mente. Ele apura e tenta trabalhar com a informação do modo mais objetiva possível”, rebateu Clóvis Reis.  

“Lamento que muito que essa pecha tenha colado da nossa classe. Incomoda-me saber que uma parcela da nossa cidade enxergue a nossa categoria dessa maneira. Mas, é uma coisa que acho que temos que descontruir pouco a pouco. Mas, as pessoas não devem deixar também de dar valor ao que fazemos”, frisou Jean Laurindo.  

O jornalista apura e informa a verdade ao público

Embora a credibilidade tenha se degradado um pouco, mas o jornalismo brasileiro tem desempenhado um papel crucial em várias situações que impactaram a população, o que se verificou especialmente durante a pandemia de Covid-19. O repórter Jean Laurindo sinaliza que o período da pandemia de Covid-19 foi um momento muito importante para imprensa brasileira.

“A pandemia de Covid foi um momento muito importante. Nos primeiros dias da pandemia criamos os primeiros conteúdos de saúde que depois durou anos e passamos anos publicando 80% a 90% de conteúdos de saúde”, explicou Laurindo.

Jean esclarece ainda que corriam atrás dos especialistas da área da saúde para obterem melhor as informações a fim de poderem informar o público. Para aumentar a cobertura e a audiência, por exemplo, a Rede Globo aumentou o seu noticiário e criou um programa denominado ´Combate ao Coronavírus´.

Pode-se ler na reportagem do Portal G1 sobre a Covid-19. “Na contramão dos outros setores de produção de conteúdo da Globo, o jornalismo precisou se preparar rapidamente para aumentar o volume de trabalho, calculando riscos e criando protocolos rígidos para levar a informação, mais necessária do que nunca, à população. Em vez de tirar programas do ar, o que se viu foi uma grade maior dedicada ao noticiário, chegando a 11 horas seguidas de jornalismo na TV Globo — inclusive com a criação e exibição, nos primeiros meses, de um novo programa diário sobre a pandemia, chamado ‘Combate ao Coronavírus’ — além das 24 horas na GloboNews e no g1. Isso refletiu em uma explosão na audiência, tanto na TV aberta quanto no streaming e nos canais pagos.”

Estes momentos históricos mostram que o jornalismo é uma ciência como outras. Ela tem o compromisso de manter o público sempre informado.

É verdade que a imprensa brasileira tem trabalhado tanto para manter o público informado, mas embora também seja fato que ela vacilou um pouco e semeou a falta de no coração de uma boa parte do público. Para que isto acabe é necessário que seja feito algo.

O que deve ser feito e quem o deve fazer?

 Para Jean Laurindo, repórter da Digital NSC Total, a responsabilidade é de todos os jornalistas e dos que estão na academia se formando na área.

“O período da pandemia é um dos momentos que o jornalismo conseguiu se destacar. Esses momentos históricos que tivemos, alimentam um pouco de esperança de que podemos desconstruir um pouco essa descredibilidade e mostrar que o jornalismo é um trabalho feito com seriedade e de princípios de pesquisas e que podemos reverter essa imagem que às vezes escutamos nas ruas. É um momento delicado e depende de todos nós jornalistas e aqueles que estão também na academia”, argumenta.

Jean ainda reforça que é necessário que os jornalistas redobrem a atenção a fim de descontruírem esta visão que acabou cristalizando uma parcela da sociedade e que façam os seus trabalhos com mais imparcialidade e responsabilidade, longe das cores partidárias.

Para além da postura individual do repórter, a reconstrução desse pilar de confiança passa pela transparência radical dos processos. Se uma parte do público, como o motorista de camião citado no início desta reportagem, desconfia das intenções por trás de uma notícia, a resposta pode estar sob ombros das redações. Mostrar os critérios de noticiabilidade e explicar abertamente por que determinada informação é relevante não é um sinal de fraqueza, mas um exercício de humildade e pedagogia. O jornalismo contemporâneo precisa, mais do que nunca, provar que sua fidelidade não é aos gabinetes, mas aos fatos.

A educação midiática também surge como uma peça fundamental nesse tabuleiro. Não basta apenas produzir boa informação; é preciso instrumentalizar o cidadão para que ele saiba distinguir um conteúdo verificado de uma narrativa enviesada ou de uma corrente de rede social. Essa é uma tarefa coletiva, que transborda as redações e deve ocupar as salas de aula e as conversas cotidianas, como diz Jean. Quando o consumidor de notícias entende o valor da apuração, ele deixa de ser um alvo passivo de desinformação e passa a ser um defensor do jornalismo profissional.

Ao fim da jornada, o jovem estudante de jornalismo compreende que a frase ouvida na rua não é uma sentença de morte da profissão, mas um desafio de renovação. O “pinguinho preto na camisa branca”, sempre será notado por quem observa com rigor, mas é a brancura da camisa (a busca incessante pela integridade) que permite que o erro seja identificado e corrigido. O jornalismo não existe para ser amado ou para agradar governos ou um determinado político, mas sim para ser necessário (analisar e divulgar acontecimentos do interesse público). Se a verdade está sob ataque, o silêncio não é uma opção; a resposta está na resistência do repórter que, apesar da descrença alheia, acorda todos os dias com a missão de iluminar os cantos escuros da opinião pública.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *