Aos 34 anos, estrela da Seleção Brasileira disputa sua última Copa do Mundo em meio a debates sobre condição física e desempenho técnico
Por Henrique Bona Peters
A menos de cinco dias da Copa do Mundo de 2026, a Seleção Brasileira de Futebol realiza os últimos ajustes para entrar em campo e o nome de Neymar segue no centro das atenções. Convocado por Carlo Ancelotti para disputar sua última Copa do Mundo, o camisa 10 chega cercado por dúvidas sobre a condição física e o desempenho recente dentro de campo. Após um período marcado por lesões e atuações irregulares, o atacante segue dividindo opiniões entre torcedores, comentaristas e nomes históricos do futebol brasileiro.
Nos bastidores da Seleção Brasileira de Futebol, a presença de Neymar na lista final para a Copa do Mundo foi construída nas últimas semanas. Segundo informações publicadas inicialmente pelo GE e confirmadas pela ESPN, a convocação ganhou força após uma conversa entre o atacante, o técnico Carlo Ancelotti e o diretor de seleções Rodrigo Caetano, realizada poucos dias antes do anúncio oficial da lista. Na conversa, o camisa dez foi informado sobre o novo momento da Seleção e ouviu da comissão técnica que chegaria ao grupo em um papel diferente de outros ciclos, sem a responsabilidade de ser a principal referência da equipe.
O cenário mudou após a evolução física apresentada pelo jogador nas últimas semanas e pelo esforço demonstrado para voltar à Seleção antes da Copa. Em entrevistas anteriores, Ancelotti já havia destacado a qualidade técnica do craque afirmado que a condição física seria determinante para uma possível volta ao grupo, cenário que acabou se confirmando na convocação final para o Mundial.
A condição física de Neymar também esteve no centro de uma das principais polêmicas envolvendo sua convocação. Antes da apresentação à Seleção, o Santos FC sustentava que o atacante apresentava apenas um edema na panturrilha e que estaria apto para retornar em curto prazo. No entanto, nos primeiros dias de trabalho com a Seleção Brasileira de Futebol, exames realizados pela equipe médica da CBF identificaram uma lesão muscular de grau 2 na região, considerada mais séria do que o diagnóstico inicialmente divulgado pelo clube. A divergência gerou repercussão nacional e levantou questionamentos sobre as reais condições físicas do camisa 10 às vésperas da Copa. Em resposta, o Santos afirmou que todos os exames realizados no jogador haviam sido compartilhados com a CBF antes da convocação e manteve a confiança de que Neymar estaria recuperado a tempo do Mundial.
Dentro de campo, os números ainda pesam a favor de Neymar. Mesmo com menos participações recentes, o atacante tem marcas expressivas: são 79 gols em 128 jogos pela Seleção, além de 59 assistências. Os números colocam o camisa 10 como o maior artilheiro da história da equipe e também líder em passes para gol. Por outro lado, o time ainda não se firmou sem o jogador. A equipe vem de atuações irregulares, alternando bons e maus momentos, o que mantém em aberto a discussão sobre a necessidade de uma referência como Neymar.
Falta de consenso na imprensa esportiva
Fora das análises técnicas, a convocação de Neymar também segue dividindo opiniões entre comentaristas esportivos. Entre os analistas, está Márcio Selhorst, dono e comentarista do podcast esportivo “Central Sport”, de Indaial. Para ele, a discussão vai além do talento já conhecido do jogador e passa diretamente pela capacidade de se manter competitivo durante a Copa do Mundo. “O Neymar ainda é um jogador diferente, que pode decidir em um lance, mas hoje a convocação passa muito mais pela condição física do que pela qualidade técnica, tendo o longo prazo como um fator decisivo”, afirma.
Na avaliação do comentarista, o histórico recente de lesões e a falta de sequência em alto nível colocam o camisa 10 em uma situação diferente de outros ciclos, nos quais chegava ao Mundial como principal referência técnica da equipe. Ainda assim, Márcio ressalta que a capacidade de decisão do atacante segue sendo um diferencial difícil de encontrar no elenco atual.
Para o jornalista esportivo Emerson Luis, da NDTV, a convocação de Neymar não encerra as dúvidas em torno do atacante às vésperas da Copa do Mundo. Na avaliação do comentarista, embora o jogador tenha apresentado evolução física nas últimas semanas, ainda não conseguiu demonstrar dentro de campo o desempenho técnico esperado. “Fisicamente ele melhorou, mas tecnicamente não consegue render”, analisou.
Segundo Emerson, o contexto atual do Santos FC também interfere diretamente nesse cenário, já que o momento coletivo da equipe acaba limitando o crescimento individual do camisa 10. Outro ponto destacado pelo jornalista é o aspecto psicológico. Para ele, a ausência do status de protagonista absoluto da Seleção representa uma situação diferente das outras Copas disputadas por Neymar, principalmente pela presença de um treinador estrangeiro no comando da equipe.
Mesmo com as dúvidas, Emerson acredita que o peso do nome do atacante ainda influencia o ambiente da Seleção e a relação com o torcedor. “Ele pode acabar sendo convocado para compor o grupo, mas é difícil imaginar o Neymar aceitando um papel de reserva”, afirmou.
Na visão do jornalista, a principal discussão agora não gira mais em torno da convocação, mas sim do papel que Neymar terá dentro de uma equipe que ainda busca equilíbrio técnico e identidade para a disputa do Mundial.
O comentarista esportivo Marciano Régis adota uma posição mais contundente mesmo após a convocação de Neymar para a Copa do Mundo. Para ele, o momento atual do atacante não justifica a presença na lista final da Seleção Brasileira de Futebol.
“Sou totalmente contra a convocação. Hoje, ele não apresenta condições físicas ideais e, tecnicamente, também está abaixo do que já mostrou em outros momentos. Pensando no nível de uma Copa do Mundo, não vejo como ele pode contribuir da forma que a Seleção precisa”, avaliou.
Na visão do comentarista, a Seleção deveria priorizar atletas com maior regularidade e sequência de jogos, levando em conta o alto nível da competição e a necessidade de desempenho imediato. Para ele, a escolha por um jogador ainda em processo de recuperação representa um risco desnecessário em um torneio curto como o Mundial.
Torcedores têm esperanças, mas estão desconfiados
Entre torcedores, as opiniões também seguem divididas após a convocação de Neymar para a Copa do Mundo. Para alguns, a experiência do camisa 10 ainda faz diferença em uma competição de alto nível. “Mesmo não estando no auge, ele decide jogo”, afirmou Arthur José Lara Jardim, jovem de 20 anos ouvido pela reportagem. Outros torcedores, em sua maioria mais jovens, também defenderam a presença do atacante, destacando a importância do jogador em partidas decisivas e o peso da experiência em um torneio como o Mundial.
A avaliação sobre o momento do atacante também passa pelo nível de dedicação nos bastidores. Amigo de longa data de Neymar e presidente da equipe “Fúria” na Kings League, Cris Guedes destacou o comprometimento do jogador durante o período de recuperação e preparação para a Copa do Mundo. Segundo ele, mesmo em meio ao tratamento de lesões, Neymar manteve uma rotina intensa de treinos e acompanhamento profissional, conciliando também compromissos fora de campo.
“O Ney, pela agenda dele, até me surpreende bastante. Ele ajuda muito na performance, no mental, acompanha treinos e está sempre presente”, afirmou.
Cris também rebateu críticas recentes sobre a postura do jogador, ressaltando que muitas avaliações não consideram o trabalho realizado longe dos holofotes. De acordo com ele, o retorno ao Santos FC faz parte de um planejamento focado na recuperação física e no desempenho a longo prazo. Após a confirmação da convocação, Cris esteve ao lado do atacante e comemorou a presença do amigo na lista final da Seleção Brasileira, afirmando que Neymar “merecia esse momento” depois do esforço feito nos últimos meses.
Além disso, o empresário revelou que o atacante tem buscado evoluir em diferentes aspectos, inclusive com mudanças na preparação e no acompanhamento profissional, inspirado em atletas de alto rendimento. “O objetivo dele sempre foi voltar 100% para a Seleção e disputar a Copa”, completou.
Outro nome próximo ao atacante é Gilmar Araújo, mais conhecido como Gil Cebola, amigo de longa data de Neymar e presença constante ao lado do jogador, junto do empresário Cris Guedes. Nos últimos meses, Gil passou a se manifestar publicamente nas redes sociais em defesa do camisa 10, afirmando que, em boas condições físicas, Neymar continua sendo importante para a Seleção Brasileira de Futebol.
Em 2026, Gil também criticou publicamente a Confederação Brasileira de Futebol após a entidade não parabenizar Neymar pelo aniversário de 34 anos, enquanto publicava conteúdos comerciais na mesma data. A atitude foi vista como mais uma demonstração de apoio ao atacante durante o período de incertezas sobre a convocação para a Copa do Mundo.
Após a confirmação da presença do camisa 10 na lista final para o Mundial, Gil esteve ao lado do jogador durante a comemoração da convocação e afirmou que Neymar merecia o momento após o esforço feito nos últimos meses para voltar à Seleção Brasileira.
Quem já passou pela experiência espera o melhor
Outro nome de peso que não deixou de dar sua opinião sobre a convocação de Neymar foi Romário. Campeão do mundo com a Seleção Brasileira de Futebol em 1994, o ex-atacante saiu em defesa do camisa 10 e destacou a importância de jogadores decisivos em torneios de alto nível. “Digo e repito: em todos os times campeões mundiais tinha um craque diferenciado, um toque de genialidade”, afirmou o “baixinho” em entrevista à CNN Brasil.
Romário também rebateu críticas envolvendo o comportamento extracampo do jogador nos últimos anos. “Eu vi e li por aí muito mimimi sobre comportamento dele fora do campo, questões políticas etc.”, comentou o ex-jogador, ao defender a presença de Neymar no grupo que disputará a Copa do Mundo de 2026.
A presença de Neymar na lista final também foi analisada por Júlio Baptista durante participação no programa Jogo Aberto. O ex-jogador destacou que o camisa 10 ainda reúne características raras no futebol brasileiro e segue sendo um atleta com capacidade de decisão acima da média. Para Júlio Baptista, poucos jogadores no país possuem o mesmo perfil técnico e a mesma capacidade de criar jogadas em momentos decisivos.
Na avaliação do ex-atleta, a discussão agora passa pela forma como Carlo Ancelotti pretende encaixar Neymar na equipe. Júlio Baptista acredita que o camisa 10 pode ser uma peça importante atuando por trás dos atacantes, participando da construção das jogadas e oferecendo criatividade em um setor no qual a Seleção não possui muitos jogadores com características semelhantes.
Mais problemas físicos
A preparação da Seleção Brasileira de Futebol para a Copa do Mundo também foi marcada por uma sequência de problemas físicos envolvendo jogadores importantes do elenco. Em abril de 2026, nomes como Rodrygo e Éder Militão acabaram cortados após lesões graves. Rodrygo sofreu rompimento de ligamento no joelho, enquanto Militão teve uma lesão muscular na coxa e precisou passar por cirurgia. O lateral Vanderson também ficou fora do Mundial após procedimento cirúrgico. No último amistoso antes da estreia da Seleção na Copa 2026 diante do Egito, o lateral direito Wesley sentiu uma lesão e foi cortado. O volante Ederson, que joga no Atalanta da Itália, foi chamado no seu lugar.

Outros jogadores chegaram à reta final de preparação em recuperação física. Estêvão acabou fora da Copa após sofrer uma lesão muscular grave na coxa, enquanto Raphinha conseguiu se recuperar a tempo e foi mantido na lista final de convocados. Já o goleiro Alisson Becker também passou por recuperação física antes de retornar aos treinamentos com a Seleção.
Os dois últimos amistosos antes da Copa do Mundo deixaram impressões distintas sobre o momento da Seleção Brasileira. Na goleada por 6 a 2 sobre o Panamá, no Maracanã, a equipe apresentou um futebol ofensivo eficiente, com boa movimentação e aproveitamento das oportunidades criadas. Já na vitória por 2 a 1 diante do Egito, em território norte-americano, o Brasil voltou a vencer, mas mostrou dificuldades que ligaram o sinal de alerta para a comissão técnica. A equipe sofreu um gol após falha defensiva, desperdiçou diversas chances no ataque e terminou a partida com uma atuação menos convincente do que a apresentada no compromisso anterior. Nesse cenário, Neymar chega à Copa do Mundo cercado por expectativa não apenas pelo histórico na Seleção, mas também pela possibilidade de oferecer experiência, criatividade e poder de decisão a uma equipe que ainda busca maior regularidade às vésperas da estreia no Mundial.