Como as marcas chinesas estão redesenhando o mercado de carros no Brasil
Por Eduardo Vinícius Rosa
Quem circula por Blumenau tem percebido uma mudança gradual na paisagem urbana. Modelos de montadoras chinesas como BYD, GWM e CAOA Chery estão cada vez mais presentes nas ruas da cidade, em locais como a rua Sete de Setembro e os estacionamentos de centros comerciais. Antes vistos como exceção, esses veículos passaram a integrar o cotidiano do trânsito blumenauense, refletindo o avanço das marcas chinesas no mercado automotivo brasileiro.
Essa mudança não é exclusiva de Blumenau ou do Vale Europeu, mas é verdade que esse tipo de veículo tem ganhado destaque nessa região, porque Santa Catarina é o terceiro estado brasileiro que mais vende veículos eletrificados no país, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Blumenau também dispara como um dos municípios catarinenses onde esse crescimento é mais visível.
No entanto, esse movimento levanta questões que vão além da simples troca e preferência de marca. Para os profissionais de vendas das montadoras tradicionais e até mesmo para os próprios consumidores, o avanço das marcas chinesas no Brasil representa uma transformação estrutural e cultural que ainda está no meio do caminho, e que as consequências definitivas ninguém consegue prever de fato.
A ascensão de mercado em três anos
A história da BYD no Brasil começou em 2021, com modelos premium de alto valor que atraíam curiosidade, e não passou disso, até que em 2023 tudo mudou. A chegada do Dolphin, um compacto 100% elétrico com preço competitivo com o mercado de massa (popular), transformou a marca de nicho premium em um fenômeno nacional.
A partir do Dolphin, o crescimento em Santa Catarina foi relativamente rápido, através Grupo DVA, que se consolidou parceiro da BYD no estado, foi abrindo lojas em sequência nas cidades de: Florianópolis, São José, Chapecó, Joinville, Balneário Camboriú e, em 2025, Blumenau e Brusque. Hoje, Santa Catarina conta com oito concessionárias DVA BYD em operação, com mais uma prevista para Jaraguá do Sul
Os números confirmam o impacto. Em 2024, Blumenau registrou 787 vendas de carros elétricos, um crescimento de aproximadamente 73% em relação a 2023, quando foram comercializadas 455 unidades. Os modelos mais vendidos na cidade foram o Song Plus, o Dolphin Mini e o Dolphin, todos da BYD. No cenário catarinense mais amplo, as vendas de veículos eletrificados mais que dobraram nos primeiros meses de 2024, saltando de 1,8 mil para 4,1 mil unidades nos cinco primeiros meses do ano, uma alta de 127% em relação ao mesmo período de 2023.
Em agosto de 2025, Santa Catarina foi o terceiro estado do Brasil em emplacamentos de elétricos e híbridos, com 1.243 unidades vendidas no mês, atrás apenas de São Paulo e do Distrito Federal. No primeiro trimestre de 2026, a procura por carros elétricos no estado cresceu 63,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da Webmotors. Os híbridos concentram 73% do interesse, mas são os elétricos puros que apresentam o maior crescimento percentual, muito pela atuação dos veículos elétricos “acessíveis”.
“O carro elétrico e o híbrido são uma tendência que não tem volta, entretanto, os veículos a combustão não vão acabar”, afirma Lucas Fachi, especialista automotivo com mais de 10 anos de experiência no setor. “O que as montadoras chinesas fizeram foi entender isso antes de todo mundo e chegar ao Brasil com uma proposta que o mercado tradicional simplesmente não tinha como responder de imediato. A BYD, por exemplo, parou de fabricar carros exclusivamente a combustão desde 2024, quer dizer, enquanto as europeias e americanas ainda debatiam quando e como eletrificar suas linhas, as chinesas já tinham a resposta pronta e com preço acessível.”
Para Fachi, Santa Catarina reúne características que favorecem especialmente a adoção dos carros elétricos: renda acima da média nacional, perfil empreendedor e tecnológico da população, além de uma malha urbana que facilita o uso cotidiano de veículos elétricos sem a ansiedade de autonomia que ainda preocupa motoristas de regiões mais isoladas. Segundo o especialista, Blumenau não é um interior distante, visto que as rotas principais estão cobertas por postos elétricos e o consumidor tende a pesquisar antes de comprar. Na opinião do consultor, quando o consumidir compara custo de uso, o elétrico ganha na conta.
“Contudo, o público comprador, apenas ganhou mais opções de compra, e cada um com sua necessidade. O elétrico vai atender quem quer economia e não precisa de autonomia, e hibrido vai atender aquele que vai ter o uso misto, mas que quer estar próximo a esse mundo eletrificado, e o famoso a combustão sempre vai existir, sempre vamos ter o público para esse carro, muito pelo custo, que se torna mais baixo”, avalia.
O outro lado do jogo
As concessionárias das marcas tradicionais sentiram a mudança no ritmo das vendas, Márcio Longui, gerente de vendas de uma concessionária Volkswagen, acompanha o novo cenário com a atenção um mercado que, até poucos anos atrás, era predominantemente ocupado por marcas como Volkswagen, Fiat, Chevrolet e Honda.
“Não tem como negar que ficou mais difícil. O cliente chega aqui, senta, pede uma proposta, e antes de terminarmos de explicar o financiamento, ele já mostra a proposta e compara com o BYD e GWM, a concorrência está cada vez mais forte”, conta Márcio.
A Volkswagen, que historicamente liderou o mercado brasileiro de automóveis, chegou a ficar a apenas 79 unidades da BYD na liderança das vendas no varejo em abril de 2026, sinal de como a disputa ficou acirrada. No cenário nacional, a BYD acumulou mais de 66 mil unidades vendidas até agosto de 2025, com 5,49% de participação no mercado geral, enquanto a CAOA Chery aparecia na 11ª posição do ranking, com mais de 41 mil emplacamentos.
O gerente Márcio Longui afirma que ainda sim tem competição. Para ele, existem argumentos que as marcas tradicionais ainda podem e devem usar com propriedade. “Nossa preocupação com as marcas chinesas é no pós-venda. Garantia, peças, desvalorização. A Volkswagen está no Brasil há mais de 60 anos, e tem rede de assistência técnica espalhada por todo o país. Se o carro apresenta um problema, o cliente sabe que tem suporte perto. Com as marcas chinesas, isso ainda está sendo construído.”
A desvalorização é outro ponto que Longui levanta com frequência nas conversas com clientes indecisos. “Carro usado tem a tabela FIPE e o mercado é previsível. Quando você vai revender um Polo ou um T-Cross com quatro anos de uso, o preço está lá. Com os carros chineses, ainda não temos histórico suficiente para saber como o mercado vai absorver esses veículos. Isso é um risco real, especialmente para quem compra pensando em trocar o carro em alguns anos.”
São preocupações que Lucas Fachi reconhece como legítimas, mas contextualizadas. “A rede de assistência das marcas chinesas cresceu muito rápido. A BYD já tem mais de 200 concessionárias em operação no Brasil, com lojas agora em Blumenau, Brusque e na região. Não é a mesma capilaridade da Volkswagen ou da Fiat, mas está longe de ser uma marca sem suporte local. Quanto à desvalorização, os primeiros dados do mercado de usados indicam que modelos como o BYD Dolphin estão segurando razoavelmente bem o valor de revenda. Não é o cenário catastrófico como alguns falam.”
Produção nacional e a aposta no Brasil
Se havia algum argumento restante para quem ainda tratava os carros chineses como produto de importação “fraca”, ele foi derrubado em outubro de 2025, quando a BYD inaugurou em Camaçari, na Bahia, a maior fábrica de veículos elétricos da América Latina. Com investimento de R$5,5 bilhões e instalada justamente na área onde a Ford operou por décadas antes de encerrar suas atividades no país, a planta tem capacidade para produzir 150 mil veículos por ano em sua primeira fase, com projeção de chegar a 600 mil unidades nas fases seguintes.
Em março de 2026, a fábrica já operou em dois turnos, com mais de 3.200 funcionários diretos e previsão de chegar a mais de 6.000 colaboradores diretos apenas da BYD. Os modelos produzidos localmente incluem o Dolphin Mini, o King e o Song Pro, sendo que este último chegou ao mercado em uma versão inédita mundialmente: o primeiro híbrido plug-in flex do planeta, desenvolvido especificamente para o Brasil, combinando tecnologia elétrica com a tradição nacional do etanol.
Para Fachi, esse movimento é simbólico em vários sentidos. “Quando você instala uma fábrica no Brasil, contrata trabalhadores brasileiros, paga impostos aqui e lança um produto exclusivo para o mercado local como o flex, você não é mais só uma importadora você vira parte da indústria nacional, e isso muda completamente a percepção do consumidor e a relação com o poder público.”
No cenário nacional, até o final de 2025, o Brasil contava com 15 marcas chinesas oficialmente operando no território, com seis delas iniciando atividades ao longo daquele ano. GWM, CAOA Chery, Omoda, Jaecoo, GAC e Leapmotor se juntaram às já estabelecidas para criar um ecossistema diverso que vai do hatchback compacto ao SUV eletrificado. No segmento de elétricos puros, a BYD sozinha detinha quase 77% do mercado brasileiro, e a soma de todas as marcas chinesas chegava a 84,4% dos elétricos vendidos no país, muito por sua acessibilidade.
A experiência de quem escolheu a China
Para além dos dados e dos vendedores, quem melhor avalia os carros chineses no dia a dia são os próprios donos.
Marciane Tavares, de 43 anos e professora em Blumenau, comprou seu BYD Dolphin Mini no início de 2025 depois de meses pesquisando opções no mercado. Segundo Marciane, a escolha não foi impulsiva, foi resultado de uma comparação criteriosa entre modelos da faixa de preço, considerando equipamentos, consumo e custo total de propriedade.
“Eu comparei o Dolphin Mini com o Polo, com o Argo e com o HB20. Em termos de equipamentos de série, não tinha comparação. Tela grande, câmeras, sistema de som acima da média, acabamento interno bem feito. Valeu a pena investir um pouco mais para ter esses diferenciais”, conta a professora. Marciane faz cerca de 20 quilômetros por dia entre a escola e o trajeto até o centro. “Aqui em Blumenau eu recarrego em casa, à noite, eu nunca fiquei sem bateria, nunca precisei procurar paradas elétricas. Para o uso urbano que eu faço, o elétrico funciona perfeitamente, ainda mais com a energia solar.”
Quando perguntada se trocaria o BYD por um carro de marca tradicional, a resposta é direta. “Hoje não, para o uso que eu tenho, não faz sentido pra mim.
Já Thiago Tobias, de 35 anos, advogado em Blumenau, chegou ao carro chinês por um caminho diferente. Habituado a veículos premium europeus ao longo da vida, Thiago queria algo diferente, mas não estava disposto a pagar o preço dos elétricos europeus disponíveis no Brasil. Acabou optando então pelo BYD Song Pro, o SUV médio da marca, já produzido na fábrica de Camaçari.
“Quando recebi o carro, fiquei surpreso, o acabamento é top, a central multimídia é enorme e funciona bem, o sistema de som é superior do que o de outros SUVs que já tive na mesma faixa de preço. Minha esposa virou fã em menos de duas semanas”, conta Thiago, rindo. A experiência, no entanto, não foi completamente livre de dúvidas. “Tive um pequeno problema com um sensor nos primeiros dois meses e a concessionária resolveu, mas o processo demorou um pouco mais do que eu esperava, tive que aguardar a peça e isso me fez pensar sobre o que os críticos falam do pós-venda. Não foi nada que comprometesse o carro, mas ficou o alerta.”
Apesar desse acontecimento, Thiago não se arrepende da compra. “Se fosse escolher de novo hoje, escolheria o mesmo carro sem hesitar, mas entendo quem hesita.
Uma transformação que veio para ficar
O que está acontecendo no mercado automotivo brasileiro não é passageiro. É uma transformação movida por ascensão global das montadoras chinesas, a eletrificação acelerada mundial e a mudança no perfil do consumidor brasileiro, que hoje pesquisa mais, compara mais e está menos preso a lealdades de marca do que as gerações anteriores tinham.
Em Santa Catarina, a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), registrou em 2025 um total de 224.893 veículos emplacados em SC, crescimento de mais de 9% em relação ao ano anterior, e dentro desse crescimento geral, a fatia dos eletrificados avança em ritmo muito superior ao do mercado como um todo, ou seja, enquanto as vendas de veículos leves no Brasil cresceram 2,6% entre 2024 e 2025, os eletrificados avançaram 26% no mesmo período dez vezes mais.
Os números nacionais de 2025 são expressivos: foram 223.912 veículos eletrificados vendidos no Brasil, novo recorde histórico, com crescimento de 26% sobre 2024. Somente em dezembro de 2025, foram 33.905 emplacamentos de elétricos e híbridos, o melhor mês da história dos elétricos no país, com participação de 13% sobre as vendas totais de veículos leves.
Se vai mudar ou não, o mercado vai dizer, o que já é certo é que o consumidor tem à disposição em 2026 uma variedade considerável de opções para escolher.
A batalha está longe de terminar e, pela primeira vez em muito tempo, ninguém sabe quem vai ganhar.
Reportagem foi produzida com base em entrevistas com profissionais do setor automotivo e consumidores da região do Vale do Itajaí. Dados de emplacamentos e vendas referentes a levantamentos da ABVE, FENABRAVE e FENABRAVE-SC, com informações dos anos 2024, 2025 e 2026.