As memórias cimentadas não morrem: do rádio de pilha à SAF de R$25 milhões

A trajetória de um clube centenário até a volta ao Campeonato Brasileiro de Futebol

Por Max Augusto Heerdt Rulensky

Antônio Marmo Corrêa, aposentado, 71 anos, é um ilustre torcedor do Blumenau Esporte Clube (BEC). Quando criança, o ritual de ouvir os jogos ao lado do pai era sagrado. A transmissão, atrapalhada entre os chiados do rádio de pilha e os gritos do narrador, garantia 90 minutos de fortes emoções e conectava pai e filho.

Antônio é testemunha de uma época mágica para o futebol blumenauense: ele viu o time encarar o Flamengo de Zico tanto no Maracanã quanto em Blumenau, além de assistir à histórica vinda de Roberto Dinamite para jogar no Vale. Hoje, o Seu Tonho, como é conhecido por seus amigos e familiares, viveu uma nova emoção: a oportunidade de ir pela primeira vez a um jogo do BEC ao lado da sobrinha Jamille Cardoso, Diretora de Comunicação de Vereadores de Blumenau.

A alegria de Seu Tonho ao voltar ao estádio depois de tantos anos foi grande, mas a trajetória do torcedor tricolor também é marcada por momentos difíceis. As primeiras cicatrizes surgiram na década de 1990, quando o clube passou a enfrentar sucessivas crises financeiras. O golpe mais duro, porém, veio em 1998, quando a equipe foi obrigada a interromper pela primeira vez suas atividades profissionais em razão das dificuldades econômicas.

A volta ao estádio trouxe alegria a Seu Tonho, mas também reacendeu lembranças de um período de sofrimento para o torcedor tricolor. As dificuldades começaram a se acumular na década de 1990, em meio às crises financeiras que afetaram o clube. O momento mais doloroso ocorreu em 1998, quando, pela primeira vez, a equipe precisou suspender suas atividades profissionais por falta de recursos.

Seu Tonho, o Ilustre torcedor

A meningite atingiu Antônio Marmo Corrêa quando criança e por conta disso ele não conseguiu frequentar a escola ou desbravar mundo a fora como seus irmãos, pois sua rotina precisava de maiores cuidados. Mas, foi nesse espaço delimitado que, ainda criança, aproveitava seus dias com seu pai, escutando religiosamente os jogos do BEC sentado na varanda. Ali naquele pequeno espaço ele conseguia encontrar a vastidão de um estádio que acomodava 4 mil pessoas, imaginando os 22 jogadores em campo, que ajudavam o espetáculo a acontecer.

Crédito: Max Rulensky

Apesar das belas histórias construídas na varanda de sua casa, ele também visitou por muitas vezes o ‘Deba’, Estádio Aderbal Ramos, que era a casa do BEC até 2007. Ele relembra a visita com seu pai e de como a energia do local era contagiante, Seu Tonho comenta que o estádio era menor que o SESI, o estádio atual do time, mas que isso contribuía para que a torcida deixasse o ambiente cada vez menos convidativo para os adversários, que tinham que escutar os cantos da torcida de muito mais perto.

Mesmo sem ter frequentado a escola, Seu Tonho construiu uma trajetória marcada pelo trabalho e pela dedicação ao serviço público. Em 1975, ingressou na Prefeitura de Blumenau como auxiliar de serviços gerais. Sob sol ou chuva, era comum vê-lo realizando a limpeza e a manutenção das calçadas da cidade, contribuindo para a conservação dos espaços públicos.

Após 25 anos de atuação, foi homenageado pela Prefeitura. Em 2000, recebeu uma moção honrosa das mãos do então prefeito Décio Lima, em reconhecimento aos serviços prestados ao município. Depois da homenagem, permaneceu em atividade por mais cinco anos, até se aposentar.

Acervo Pessoal
Crédito: Max Rulensy

Já adulto, seu Tonho nunca deixou de acompanhar o Blumenau, e o ritual seguia o mesmo: Sentado na varanda onde escutava os gritos entusiasmados do narrador, e deixando sua imaginação fazer o resto. Durante a entrevista, revelou que o jogador que ele mais lembra do BEC é o Chicão. Ao ser questionado  sobre como o jogador era em campo e se ele fazia muitos gols, a resposta foi imediata: “Ô, e como”. Chicão jogou no BEC entre 1984 a 1988, sendo até hoje o maior artilheiro da história do time, com 71 gols.

Crédito: Rogério Pires/1988

Além de lembrar do jogador histórico, seu Tonho também traz memórias de jogos emblemáticos do Clube, lembrando principalmente do jogo entre BEC x Flamengo em 1989 quando o Blumenau enfrentou o esquadrão de Zico nas oitavas de final da Copa Do Brasil. O aposentado comentou que viu o jogo no estádio do SESI, jogo que até hoje guarda o maior público da história do estádio com 8.496 pagantes, naquele dia o coração de Antônio ficou dividido, porque por mais que torce para o BEC em um cenário regional, nacionalmente ele torce para o Flamengo.

Talvez a idolatria tenha atrapalhado um pouco sua memória. Quando lembra do confronto, afirma que o BEC venceu por 3 a 1. Na verdade, o resultado foi de 3 a 1 para o Flamengo. Ele pode ter confundido o placar, mas se lembrou de algo mais importante: que assistiu este jogo ao lado de seus irmãos, Paulo e Sérgio. Assim mostrando que por mais que o jogo seja emblemático, o mais importante para ele era dividir esse momento com quem ele ama de verdade.[1]

A maior perda da história, o ‘Deba’

Acervo Blumenau Antiga

As raízes da crise financeira do Blumenau Esporte Clube se iniciaram na década de 1990. Naquela época, o time já acumulava diversas dívidas, criando uma verdadeira montanha de problemas financeiros. Somando as dívidas trabalhistas, com salários atrasados de ex-jogadores, treinadores e funcionários, e o não recolhimento de impostos, o rombo só aumentava. Enquanto a bola rolava, essas questões eram ‘maquiadas’ pela diretoria. Porém, com as paralisações do futebol em 1998 e, posteriormente, em 2003, o clube perdeu completamente a capacidade de pagar o que devia. Assim, ao chegar em 2007, a bola de neve, ou melhor, de dívidas, se tornou tão insustentável que levou a Justiça a determinar o leilão do maior bem da instituição: o Estádio Aderbal Ramos da Silva, carinhosamente apelidado pelos torcedores de “Deba”. O espaço, que antes era ocupado pelo estádio e pela paixão tricolor, voltou a receber as pessoas no último sábado de forma completamente diferente.

Por anos, o espaço que abrigou o estádio permaneceu vazio, transformado em um terreno baldio e marcado apenas pelas lembranças de torcedores e moradores. Em 2021, o local voltou ao centro das atenções com o anúncio da instalação de uma unidade da Havan, projeto que dividiu opiniões na cidade.

Apesar de ter recebido aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), a obra foi interrompida em 2022 por decisão da Justiça Federal, após ação do Ministério Público Federal (MPF). A juíza Rosimar Terezinha Kolm entendeu que as análises realizadas pelos órgãos competentes consideraram a integração da construção com os imóveis vizinhos, mas não os impactos sobre o conjunto do centro histórico.

A decisão ampliou o debate sobre a preservação do patrimônio cultural de Blumenau. Na sentença, a magistrada destacou que a resistência ao projeto estava relacionada não apenas à instalação da loja, mas também aos possíveis efeitos sobre a paisagem histórica da cidade. Segundo ela, as características arquitetônicas da proposta poderiam comprometer a harmonia visual e cultural da área tombada.

A preocupação também foi compartilhada por especialistas. Historiadores, arquitetos e pesquisadores se manifestaram contra o projeto, entre eles Angelina Wittmann, que classificou a proposta como “embaraçosa” em publicação de 2022. Para a pesquisadora, a arquitetura padronizada da rede não dialogava com a identidade cultural e histórica de Blumenau.

Crédito: Reprodução

Hoje, em 2026, a loja acaba de ser inaugurada com um projeto de “loja enxaimel”, agradando assim o MPF e parte da comunidade local. E o espaço do ‘Deba’? virou o estacionamento da loja. No entanto, olhando para a história do terreno como um todo, a cidade tende a repetir uma falha, priorizando a identidade colonial, mas não a história urbana de Blumenau. Assim, mais uma vez se esquecendo que a cidade não está na Alemanha, mas sim no Brasil. Hoje, aquele espaço que recebeu jogos, que jamais serão apagados da retina dos torcedores, troca de cores, de Verde, Branco e Grená é substituído pelo cinza do cimento frio. Passando, dessa maneira, mais uma vez a borracha em uma história importante, não da colônia, mas sim da cidade Blumenau.

Crédito: Reprodução

Memórias guardadas pelo torcedor

Por mais que espaços físicos possam ser substituídos por estacionamentos de asfalto, o torcedor jamais se esquece do que viveu, seja nas arquibancadas do ‘Deba’ ou no Monumental do SESI. Uma dessas lembranças inesquecíveis pertence a Seu Tonho, que acompanhou de perto o duelo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil de 1989, entre BEC e Flamengo. Embora a principal memória daquele dia seja o privilégio de estar ao lado da família, ele confessa que estava ansioso para assistir Zico jogar. A expectativa, no entanto, foi quebrada. Quando sua sobrinha, Jamille, perguntou o que ele achou do craque, Antônio respondeu: “O Zico é baixinho, quase não dá pra ver”.

Naquela noite de quarta-feira, 26 de julho, Blumenau fez história. O estádio do SESI recebeu 8.496 pagantes, um recorde de público, que ainda não foi superado. Dentro de campo, o BEC enfrentava o maior jogador do futebol brasileiro na época. Se para os alguns torcedores o sorteio foi um ‘azar’, já que dificilmente o BEC avançaria, para quem estava na arquibancada foi uma sorte imensa, quem assistiu ao jogo não acha, já que foi uma das poucas vezes que o jogador veio para Blumenau.

Com a bola rolando, o jogo foi frenético. Empurrado pela multidão, o BEC deu tudo de si para sair vitorioso, mas acabou esbarrando nas muitas chances desperdiçadas, fazendo com que a máxima do ex-técnico Gentil Cardoso se tornasse amarga realidade: ‘Quem não faz, leva’. Após o tricolor perder quatro grandes oportunidades, o Flamengo precisou de muito pouco. Na segunda descida carioca, Zico fez um lançamento para a área. Em um lance aparentemente dominado, o zagueiro De Antônio errou o domínio e o centroavante rubro-negro Alcindo aproveitou para encobrir o goleiro. Aquele foi apenas o primeiro gol de um placar que terminaria em 3 a 1 para o Flamengo. No jogo de volta, no Maracanã, o resultado se repetiu. Porém, mesmo caindo por 6 a 2 no placar agregado, os dois confrontos seguem guardados com carinho irretocável na memória e no orgulho do torcedor blumenauense.

Crédito: Reprodução Memorial BEC

Por mais que esse tenha sido um dos grandes jogos da história do BEC, outro jogo muito importante aconteceu anos antes em 1987, quando o clube conquistou seu primeiro e único título até hoje. A Série B do campeonato Catarinense. O Título veio após uma temporada conturbada já que em 1986 o BEC disputava a primeira divisão do campeonato Catarinense, mas não conseguiu se manter após diversos desempenhos ruins. O BEC assim se manteve confinante em subir de divisão, naquele elenco grandes jogadores estavam presentes, como o centroavante Chicão, o Xerifão da zaga Mauro Ovelha, e o goleiro Evelton que foi importantíssimo na conquista do título.

Nesse campeonato o técnico Écio Pasca faz grande campanha no primeiro turno, sendo o primeiro colocado da tabela geral com 100% de aproveitamento, mesmo assim por desentendimentos internos o clube acabou demitindo o técnico, então quem assumiu o clube foi Levir Culpi que veio do Marcílio Dias, e mesmo com uma missão difícil ele cumpriu seu papel, levando o time até a final onde enfrentou o Figueirense.

No primeiro jogo em casa, o Blumenau venceu por 1×0 com gol do ‘Artilheiro enviado por Deus’, ou Chicão, no mesmo jogo a comemoração foi tanta que a torcida invadiu o campo, e pegou aos braços Chicão, onde ele conta que retiraram sua camisa, calção, chuteira e meias, deixando-o de sunga no meio do campo.

No outro jogo um dia de chuva em Florianópolis a cidade já chovia antes do jogo, Mauro Ovelha contou que na época a bola não corria por conta da água no gramado, e o Figueirense fazia uma forte pressão no ataque, mas que Evelton, Mauro e seus companheiros de zaga fizeram uma ótima partida defensivamente onde o time empatou por 0x0, levando assim seu único título na história.

Crédito: Rogério Pires DC Blumenau

Um novo começo

A volta para o Brasileirão começa em 2023, quando o time teve que se afastar de Blumenau, por conta da destruição do ‘Deba’, nessa temporada o BEC se voltou para jogar a Série C do Campeonato Catarinense, nesse campeonato o time disputou seus jogos no estádio Ervin Blaese. Na primeira fase o time se classificou na segunda posição, somente atrás do Tubarão, que fez 13 pontos naquela oportunidade.

Crédito: FCF – Federação Catarinense de Futebol

Nas semifinais, em um confronto tenso contra o Imbituba, o tricolor garantiu a classificação para a final. Como o regulamento previa o acesso para os dois finalistas, o apito final daquela partida já assegurava o Blumenau na Série B estadual. Nas finais, o time acabou superado pelo Tubarão com uma derrota por 2 a 1 no jogo de ida, na casa temporária em Indaial, e um empate em 1 a 1 na volta, mas o principal objetivo já estava na cumprido.

O ano de 2024, no entanto, foi de pura resistência. Asfixiado pelas dificuldades financeiras, o Blumenau caminhava quase como um ‘zumbi’, apenas sobrevivendo, muito distante da potência que um dia foi. A verdadeira virada de chave chegou em 2025, quando a britânica Unity Pitch assumiu o comando, transformando a equipe em uma das mais promissoras do cenário catarinense. A ideia da empresa é formar uma Multi-Club Ownership (MCO), uma rede global de clubes sob o mesmo guarda-chuva. A conversão em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) garantiu um investimento vital de R$ 25 milhões para os próximos dez anos.

Com os cofres cheios, o Blumenau viveu seu melhor momento recente. Foram mais de 20 contratações. Entre elas, o atacante Vinícius Jaú, revelado pelo Santos e titular absoluto até hoje, o experiente meiocampista Diego Jardel, de 35 anos com passagens por Avaí e Botafogo, que chegou para vestir a camisa 10, e o atacante Welisson, que foi um dos artilheiros do time ao lado de Jardel e Luketa.

Na temporada de 2025, o foco se dividiu entre a Copa SC e o Catarinense B. O ano começou fervendo com o clássico contra o rival Metropolitano. O clima era tenso, impulsionado pelas acusações de que o BEC havia ‘abandonado’ a cidade em 2023. Em um jogo pegado e repleto de chances para os dois lados, a vitória veio para o tricolor: 1 a 0, com gol de Henry, que hoje defende o Amazonas na Série C do Brasileirão.

Após a estreia na Série B do Campeonato Catarinense e a participação na Copa Santa Catarina, o Blumenau Esporte Clube (BEC) alcançou um marco histórico: garantiu vaga na Série D do Campeonato Brasileiro, retornando a uma competição nacional após mais de duas décadas.

A classificação foi resultado da campanha realizada na Série B Catarinense de 2025. Sob o comando de Leandro Demlich, o BEC terminou a primeira fase na liderança. No entanto, a equipe foi eliminada pelo Camboriú nas semifinais. Após derrota por 1 a 0 no jogo de ida, fora de casa, o time voltou a perder na partida de volta, em Blumenau, por 2 a 1, encerrando a disputa pelo acesso.

Depois da eliminação, Demlich atribuiu o desempenho à falta de ritmo de jogo, já que o Camboriú havia disputado uma fase eliminatória anterior, enquanto o BEC aguardou a definição do adversário. A justificativa não convenceu a diretoria, que optou pela troca no comando técnico. Carlos Corrêa assumiu a equipe às vésperas da Copa Santa Catarina.

Mesmo com pouco tempo de preparação, o novo treinador conduziu o clube a uma campanha consistente. Na fase de grupos, o BEC terminou na liderança da chave que reunia Joinville, Carlos Renaux e Nação.

Nas quartas de final, o Blumenau eliminou o Tubarão com vitórias por 1 a 0 e 3 a 1. Já nas semifinais, enfrentou o Joinville. Após perder o primeiro confronto por 1 a 0, a equipe devolveu o placar no jogo de volta, em Blumenau, com gol de João Vitor em chute de fora da área.

Embora também tenha sido eliminado na semifinal, o BEC garantiu a vaga nacional graças ao desempenho acumulado ao longo da competição. O clube terminou à frente do Marcílio Dias nos critérios de campanha, já que venceu os dois confrontos das quartas de final contra o Tubarão, enquanto a equipe de Itajaí havia obtido uma vitória e um empate diante do Santa Catarina. O resultado assegurou ao Blumenau a classificação para a Série D do Campeonato Brasileiro.

Crédito: Richard Ferrari

Mesmo com o empate no placar agregado, o time já comemorava. Ainda assim, o jogo seguiu para os pênaltis, onde os goleiros brilharam, mas Pianissola fez a diferença defendendo dois pênaltis, enquanto Glédson defendeu apenas um, eliminando assim o BEC nas semifinais.

Com o sucesso nas quatro linhas, o futuro fora de campo enche o torcedor de esperança. Como revelado pelo jornalista Pedro Machado, da NSC, um dos pilares desse novo investimento é a compra do Parque Curt Zadrozny. A ideia surgiu após o município tentar repassar a área para a iniciativa privada, livrando-se dos custos de manutenção. Agora, o BEC planeja transformar o local em um Centro de Treinamento ‘Padrão FIFA’, cravando de vez suas raízes de volta no solo de Blumenau.

Crédito: Reprodução

Hoje, o torcedor pode acompanhar o Blumenau Esporte Clube da maneira que quiser. Sendo por lives do YouTube, ou como Seu Tonho pelo radinho de pilha. Com a volta do Time a Série D, e o início da campanha no Catarinense B o time se encontra longe dos perigos antigos, como falência ou estádio ser leiloado. O torcedor entende que o clube pode mais, mas para quem viu o clube ficar anos sem jogar, só de assistir o time os torcedores já ficam felizes.

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