Arte como base e direito de um povo: a vitória de uma classe importante na educação gasparense

Fundamental para a construção da identidade cultural de um povo, a arte segue lutando por reconhecimento em um contexto marcado pela valorização da produtividade e dos resultados econômicos.

Por Matheus Henrique Fantin de Matia

Na sociedade digital, quem nunca ouviu uma música? Coloriu um desenho? Assistiu a um filme? Tirou uma fotografia? Ou até mesmo preparou um prato tradicional? Uma pergunta que parece óbvia, mas que, na prática cotidiana do município de Gaspar, em Santa Catarina, revela uma realidade diferente.

No município conhecido como capital da moda infantil do Médio Vale do Itajaí, a arte parece ocupar um papel importante, pelo menos no discurso. Mesmo contando com uma Casa de Oficinas Culturais, que tem como objetivo promover arte para todos, infelizmente o tempo passou e, mesmo após 92 anos, a desvalorização de alunos e professores de arte se tornou ainda mais evidente para a população.

Durante os 92 anos do município, os então chamados arte-educadores recebiam esse título e eram impedidos de utilizar a denominação de professor, por serem vistos como auxiliares no ensino dos alunos. Mesmo assim, o trabalho em favor da arte e do reconhecimento da classe serviu como força motivadora para manter a qualidade do ensino, apesar da desvalorização e da falta de direitos na prática da profissão. O título de arte-educador é bonito, mas, legalmente, permitia um piso salarial inferior ao dos professores de outras áreas da educação, que recebiam salários acima de R$ 5 mil, além de R$ 850 de vale-alimentação, conforme o piso salarial regulamentado pelo Ministério da Educação (MEC).

Já os arte-educadores recebiam salários de R$ 3 mil, além do vale-alimentação, sem sequer alcançar um valor próximo ao piso salarial do MEC. Ainda assim, a situação não era vista diretamente como ilegal, já que os profissionais possuíam o título de arte-educadores, categoria que não se enquadrava na regulamentação federal.

A diferença salarial alimentava uma realidade dura, como se os arte-educadores fossem profissionais descartáveis. Na prática diária, trabalhavam a mesma carga horária, ministravam a mesma quantidade de aulas, seguiam as mesmas regulamentações, possuíam os mesmos custos e todos tinham formação superior com licenciatura em artes. Mesmo assim, matemática, português, biologia e outras áreas do conhecimento eram vistas como fundamentais na grade curricular, enquanto a arte era tratada como algo sem relevância para o ensino e para a sociedade do trabalho e do consumo.

Foto por Matheus de Matia

Enfim, a valorização da classe

Depois de décadas de desvalorização, no dia 23 de março de 2026, às 18h, junto ao Sindicato dos Servidores Públicos de Gaspar (Sintraspug), a valorização finalmente chegou. Na audiência realizada na Câmara de Vereadores de Gaspar, foi aprovada a regulamentação que reconhece o arte-educador como professor legítimo, garantindo o mesmo salário, benefícios e carga horária dos demais profissionais da educação. Uma vitória histórica construída após anos de luta e dificuldades.

A diretora de Cultura de Gaspar, Juliana Scharf Feltrin, comentou sobre a importância da valorização como reconhecimento do trabalho dos agora oficialmente reconhecidos professores de artes. “A valorização dos professores de artes e cultura no ambiente educacional é resultado de um processo histórico marcado por mobilização e reivindicações. Ao longo dos anos, esses profissionais buscaram o reconhecimento de suas funções com base em argumentos legais e evidências práticas, defendendo a equivalência de sua formação e atuação em relação às demais áreas do ensino.

Apesar dos avanços, a cultura ainda enfrenta obstáculos para ser plenamente reconhecida. Em muitos casos, segue sendo associada apenas a apresentações pontuais de entretenimento, sem o devido entendimento de seu papel educativo. Especialistas apontam que a área é fundamental para o desenvolvimento do pensamento crítico, além de contribuir para a inclusão social e a valorização da diversidade”, acrescenta a diretora de Cultura.

Foto por Matheus de Matia

Oficinas aproximam a arte da população

No município, a percepção sobre a cultura tem apresentado evolução. Com os investimentos realizados na mudança para a nova sede da Casa das Oficinas Culturais Daugobert Gunther, com o objetivo de ampliar as oficinas artísticas oferecidas, houve aumento na participação da comunidade em eventos culturais, em momentos que alcançam de 500 a 2 mil participantes em média, indicando maior valorização das atividades do setor, em comparação aos anos anteriores, em que chegar a mil participantes, era algo difícil. Esse movimento também reforça o sentimento de pertencimento e identidade entre os moradores, consolidando a cultura como elemento relevante no cotidiano local.

Atualmente, o município oferece cerca de 23 oficinas artísticas, distribuídas entre teatro, dança, música e artes visuais. Entre as modalidades, a dança é a mais procurada pelos estudantes, concentrando o maior número de participantes, profissionais e presença em festivais.

Já na área da educação, o investimento em cultura se reflete na presença de professores especializados em grande parte das unidades escolares. Além disso, ações conjuntas entre o setor educacional e o departamento de turismo ampliam o alcance das iniciativas. A parceria permite a realização de atividades que integram cultura e turismo, atraindo tanto o público local quanto visitantes, em eventos como o Festival Escolar da Canção (FEC), Festival Escolar de Dança (FED), Festival Escolar de Teatro (FET), Drumfest, Concurso de Declamação de Poesias, Noite do Rock, Festival de Inverno e eventos natalinos com corais, apresentações de dança, teatro e produções artísticas manuais.

Mesmo com os avanços registrados, ainda existem demandas consideradas prioritárias. Entre elas, está a criação de um centro de eventos ou teatro municipal. A proposta é vista como estratégica para fortalecer a produção cultural, ampliar o acesso da população e impulsionar o desenvolvimento social e econômico por meio da cultura.

Em tudo isso, o reconhecimento salarial e a oficialização do título de professor para os profissionais da Casa das Oficinas Culturais Dagobert Gunther marcaram um momento histórico para a categoria no município. Por isso, em conversa com a professora Ângela Maria Rosa Custodio, da Casa das Oficinas Culturais, ela comentou sobre a vitória da categoria e os benefícios para o ensino da arte no município a partir de agora.

De acordo com a professora Ângela, os profissionais possuíam a mesma formação exigida para atuação na educação, porém eram identificados apenas como “arte-educadores”, condição que limitava direitos e reconhecimento profissional. “Foi uma vitória. Estávamos nessa luta desde que o concurso foi criado”, afirma.

A ampliação das oficinas de arte e a valorização dos profissionais também refletem, segundo a educadora, os investimentos da atual gestão no ensino artístico. Atualmente, as atividades da Casa das Oficinas atendem praticamente todas as unidades escolares e Centros de Desenvolvimento Infantil (CDIs) do município.

Para a professora, a arte possui papel fundamental no desenvolvimento humano e social. Ela destaca que atividades como desenhar, cantar, dançar e interpretar fazem parte da natureza da criança e devem ser estimuladas no ambiente escolar. “O ensino da arte desperta capacidades que já existem naturalmente no ser humano e ajuda a desenvolver expressão, criatividade e sensibilidade”, explica.

Professores da Casa das Oficinas Culturais ressaltam o impacto social da arte entre estudantes de diferentes realidades econômicas. Segundo eles, a arte deixou de ser vista apenas como uma atividade elitizada e passou a ocupar um espaço importante na inclusão social e cultural.

Dentro da Casa das Oficinas, todos os alunos têm acesso às mesmas oportunidades, independentemente da condição financeira. A professora observa que muitos estudantes com poucos recursos demonstram dedicação e excelente desempenho nas atividades, mesmo sem acesso aos melhores equipamentos.

Além da valorização dos profissionais, os educadores defendem um maior incentivo à cultura no município. Entre os principais pontos destacados estão a formação de público, o fortalecimento das leis de incentivo cultural e a criação de mais espaços para divulgação dos artistas locais.

“É importante ampliar o acesso da população às diversas linguagens artísticas e aproximar crianças, adolescentes e jovens da cultura. Isso contribui para formar uma sociedade mais sensível e conectada com a arte”, conclui a professora de artes, Ângela Maria Rosa Custodio.

A decisão marca o encerramento de uma longa trajetória de reivindicações construída por profissionais que, mesmo diante das limitações e da falta de reconhecimento, continuaram atuando dentro das escolas, oficinas e projetos culturais do município. Foram anos em que a arte permaneceu presente no cotidiano de milhares de estudantes, mesmo sem receber a mesma valorização destinada a outras áreas do ensino.

E enquanto novas gerações seguem aprendendo a desenhar, cantar, interpretar, dançar e se expressar por meio da arte, a cidade começa a construir uma nova realidade: a de compreender que valorizar a cultura é, acima de tudo, valorizar pessoas e suas histórias.

Foto por Matheus de Matia

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