A invisibilidade dos povos originários em Blumenau
Por Talita Kniess
“As ruas mais bonitas, os edifícios mais bonitos que tem aqui dentro do município de Blumenau estão em cima de sangue indígena”. Essa foi uma das contribuições de Cabechuim Ló Camlem em sua participação no seminário ‘Museu, Memória e Patrimônio Laklãnõ/Xokleng – Perspectivas para Blumenau’, realizado na Universidade Regional de Blumenau (Furb) no dia 27 de abril de 2026.
Em uma mesa composta por Sueli Petry, diretora do Patrimônio Histórico e Museológico de Blumenau (SC), Lucia Seara Valente, museóloga, e o professor Cabechuim, foi discutida a proposta de criação de um museu que conte a história, a cultura e a luta do povo Laklãnõ/Xokleng em Blumenau e em Santa Catarina.
A tentativa de construir um ambiente que conte sobre os povos originários da terceira maior cidade do estado de Santa Catarina começa pelos integrantes do Território Goj Kónã, localizado no Parque Nacional da Serra do Itajaí, em Blumenau.
Estudante de Odontologia na Furb, Nandja Schirlei da Rocha (40) é uma das lideranças do Território, que está em processo de retomada pelo povo Laklãnõ desde o ano de 2023. Apesar de grande parte dos descendentes dos sobreviventes do povo Laklãnõ viver na Terra Indígena Ibirama, a luta pela criação do museu em Blumenau, para ela, é um passo de resgate da história real de seus ancestrais: “É aqui que começa a matança legalizada do meu povo!”, enfatiza.
Apresentando imagens disponíveis no acervo histórico da cidade, Sueli Petry revela evidências da violência sofrida pelos nativos durante a colonização do Vale do Itajaí, mencionada por Nandja. Nelas, identifica-se a caça aos “bugres”, nome pejorativo dado pelos colonos aos moradores que viviam nessa região originalmente. A historiadora atribui o ponto de partida da violência contra os indígenas Laklãnõ à solicitação de auxílio de Hermann Bruno Otto Blumenau, chefe da colônia, ao então presidente da Província de Santa Catarina, João José Coutinho. O apelo solicitava um apoio armado contra os nativos, permitido por meio da Lei nº 28, de 1836:
“(…) só uma medida grande e enérgica, uma desinfecção completa do terreno entre o Itajaí Grande e o Mirim, uma destruição e aprisionamento deste bando de rapinas pode restabelecer a tranquilidade e nos tirar deste estado lamentável”
Trecho de carta de Hermann Bruno Otto Blumenau para João José Coutinho – Blumenau em Cadernos XX – A História de Blumenau Revela, p. 295.
A lei permitia a eliminação dos povos presentes na região, em caso de resistência. Para a historiadora, Sueli, servia como respaldo nas atrocidades cometidas. Sobre as imagens apresentadas ressalta: “Esse documento não é, como eu diria, muito levado ainda como uma forma de divulgação, porque hoje é uma mancha na história.”
A mancha citada por Sueli tem sido esquecida aos longos dos quase 176 anos do município. Mas, para o doutor em sociologia e professor da Furb, Luciano Félix Florit, as consequências da colonização em Blumenau não tiveram efeito somente durante o processo de colonização, os povos originários seguem sofrendo os efeitos até os dias de hoje:
“Alguém poderia entender que aqui tinha um povo, ele foi massacrado, houve genocídio e ele foi apagado. Ponto. Não, ele continua sendo apagado no presente”, afirma.
“Blumenau, tens o nome do primeiro”
Para o pesquisador Luciano Félix Florit, a história da colonização alemã no Vale do Itajaí é uma das tentativas de embranquecimento do progresso brasileiro. Por meio da Lei de Terras, de 1850, o governo autoriza um número de imigrantes europeus a colonizar territórios no Brasil. A criação deste incentivo foi realizada logo após a proclamação da Lei Eusébio de Queirós, que proibia o tráfico de escravos. Para o professor, este incentivo resultou em uma concepção eugênica no Brasil: “Era a forma de você criar um território branco. Era outro jeito de dizer que nem pretos nem indígenas teriam terra”, opina.
Com a chegada de Hermann Bruno Otto Blumenau ao Vale do Itajaí, estabelece-se a colônia de Blumenau em setembro de 1850.
Até hoje, a associação de Otto Blumenau ao desenvolvimento regional é exaltada. A composição do hino oficial da cidade, por Marcio Volkmann, feita nos anos 2000, tem como primeiro trecho frases que deixam evidente essa conexão:
“Blumenau, tens o nome do primeiro
Que chegou e desbravou tuas riquezas
Que tanto trilhou os teus caminhos
E sempre preservou tuas belezas”
Nesta música, não há qualquer identificação dos nativos que viviam na região antes de o território se tornar colônia; pelo contrário, indica Hermann Bruno Otto Blumenau como o primeiro a explorar o território. No entanto, em uma composição anterior chamada Hino do Centenário de Blumenau, de Eduardo Mário Tavares, temos uma citação pejorativa aos povos da região, ao mesmo tempo que coloca as terras como um lugar sem dono:
“Há cem anos, por estas paragens,
– Terras férteis, imensas, sem dono –
Brava tribo de rudes selvagens
Viu surgir o primeiro colono”
Os “rudes selvagens” são os nativos Laklãnõ/Xokleng que viviam nas florestas montanhosas da localidade. Seu território histórico incluía todo o Vale do Itajaí, mas estendia-se do sul do Paraná até o norte do Rio Grande do Sul. A Mata Atlântica e a área dos pinheirais eram percorridas pelos nativos conforme as mudanças das estações, em busca de alimentos e caça.
Com a chegada da comitiva de imigrantes alemães, em 1850, a área territorial ocupada pelos indígenas começou a ficar cada vez menor.
À medida que casas eram erguidas e estradas e ferrovias eram abertas, a colônia crescia, ampliando também o desmatamento. Por consequência, o contato entre indígenas e colonos tornava-se inevitável.
Seis anos após a chegada dos alemães, o chefe da colônia faz a solicitação de melhorias para a segurança local, alegando que a presença de indígenas precisa ser controlada:


Blumenau em Cadernos XX – A História de Blumenau Revela, p. 295.
A construção da imagem do indígena como “selvagem” contribuiu para justificar a violência contra o povo Laklãnõ. A doutora em Desenvolvimento Regional e pesquisadora da Furb, Geórgia Fontoura, que estuda povos indígenas, território e políticas indigenistas, explica que a ocupação dos territórios tradicionais exigiu a criação de narrativas que legitimassem a expulsão e o extermínio dessas populações:
“Se eu preciso ocupar esse território e eu tenho uma resistência desse povo que está ali porque é o seu território tradicional, eu vou ter que criar uma narrativa que justifique o fato de eu, por exemplo, matar esse indígena”, afirma.
Sob o argumento de que a presença dos povos originários representava um perigo e prejudicava o progresso local, o Estado interveio. Financiados para exterminar indígenas em Santa Catarina, os batedores de mato — mais conhecidos como bugreiros — utilizavam métodos sanguinários que revelam um passado obscuro de Blumenau e ajudam a explicar por que essa história é constantemente ocultada:

“Primeiro disparava-se uns tiros. Depois passava-se o resto no fio do facão. O corpo é que nem bananeira, corta macio. Cortavam-se as orelhas, cada par tinha um preço. Às vezes, para mostrar, a gente trazia algumas mulheres e crianças.”
Relato do ex-bugreiro Ireno Pinheiro entrevistado por Sílvio Coelho dos Santos no início da década de 70 – Trecho do livro: O vapor e o botoque, Luisa Tombini Wittmann, p. 56
Os atos violentos contra o povo Laklãnõ não são popularmente conhecidos em conversas sobre a história do munícipio. No próprio site da Prefeitura de Blumenau pesquisando pela palavra “bugreiros” há um breve relato sobre a caça dos nativos e uma associação a este ser um processo de “pacificação”. Mas não há qualquer descrição dos métodos usados pelos caçadores.
Korikrã: a menina arrancada de seu povo

Um dos efeitos da caça dos bugreiros contra os nativos eram os casos das crianças que sobreviviam. A trajetória de Korikrã, uma menina Laklãnõ, é um dos eixos centrais da obra O vapor e o botoque, de Luisa Tombini Wittmann, pesquisadora dedicada à história indígena. Tendo sua mãe assassinada em uma “batida dos bugreiros”, Korikrã, foi entregue ainda criança ao médico Hugo Gensch no ano de 1908. Para seus pais adotivos, Korikrã relatou o dia responsável por tirá-la de sua família, sua cultura e sua religião. Sua mãe foi degolada e seu pai biológico a carregou mata adentro para se esconderem, mas posteriormente todos foram capturados.
A menina é considerada por muitos um projeto de estudo do médico Gensch, que construiu um dicionário da língua nativa de Korikrã. Apesar de resistir inicialmente, a menina aprendeu a falar alemão e quando conseguiu se comunicar manifestou o que atormentava seus pensamentos:
“Mamãe, vocês não devem supor que eu vim com gosto para junto de vocês. Não! Mas vocês todos são bons para comigo. Jamais, entretanto, eu poderia esquecer o que me aconteceu, e durante a noite vem sempre a minha mãe, de pescoço cortado, e mostra-me o meu irmãozinho, que foi retalhado em pedaços. Vem também o meu irmão Junvégma cantar para mim. De manhã, entretanto, quando eu acordo, eles não estão mais, e eu não tenho mais a ninguém, só a vocês.”
Relato de Korikrã em Die Erziehung eines Indianerkindes (A educação de uma menina indígena). Trabalho apresentado no XVI Congresso de Americanistas Internacionais por Hugo Gensch. Viena: 1908
Seu pai adotivo foi um dos denunciantes da violência contra os indígenas, ele já acusava na época a criação de uma narrativa que gerava pânico e que isso resultou no assassinato e quase extermínio do povo Laklãnõ.
Com isso em mente, Hugo fez um estudo para compreender qual o número de colonos que foram mortos pelos indígenas e qual a contrapartida. Sua pesquisa indicou que durante 58 anos de munícipio menos de 40 brancos foram mortos pelos indígenas. Já entre os nativos foram centenas. Para ele não havia justificativa nos assassinatos. O site de prefeitura de Blumenau indica que não há estimativa de quantos indígenas foram assassinados pela caça dos ‘bugreiros’.
Apesar de historicamente ser considerado um defensor dos nativos, Gensch pregava a “civilização” dos indígenas. Pensando que este processo os deixaria o mais distante possível da vida “selvagem” sendo possível sua integração na sociedade branca. Sua filha adotiva, por exemplo, foi batizada com o nome Maria Gensch.
Cativos: a pacificação que resultou no confinamento

Foi a denúncia de Albert Vojtech Fric no XVI Congresso Internacional de Americanistas, realizado em Viena (1908), que pressionou o governo federal Brasileiro a intervir no etnocídio que estava em curso contra o povo Laklãnõ no Sul do país. O naturalista e etnógrafo apresentou um extenso trabalho sobre as atrocidades cometidas contra os nativos em nome da colonização e do “progresso”:
“…colonização se processava sobre os cadáveres de centenas de índios, mortos sem compaixão pelos bugreiros, atendendo os interesses de companhias de colonização, de comerciantes de terras e governo.”
Trecho sobre denúncia de Albert Vojtech Fric, do livro Os índios Xokleng, Memória Visual (p. 31) – Silvio Coelho dos Santos (1997)
Diante da pressão internacional, o governo federal criou, em 1910, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Embora fosse apresentado como um órgão de proteção, o SPI buscava inserir os indígenas na lógica social e econômica dominante da época. “Ele vem com uma roupagem de proteção, mas, na realidade, trabalhava com uma lógica de transformá-los em trabalhadores nacionais”, afirma a doutora em Desenvolvimento Regional e pesquisadora da Furb, Geórgia Fontoura.
Foi por meio desse órgão que Eduardo de Lima e Silva Hoerhann — que ingressara no SPI aos 16 anos como fotógrafo — deu início, em 1912, às tentativas de aproximação com o povo Laklãnõ, visando a chamada ‘pacificação’ entre indígenas e brancos.
Essas investidas iniciais não foram bem recebidas, visto que havia uma desconfiança profunda dos indígenas, justificada pela brutalidade do período. Para demonstrar intenções pacíficas, Hoerhann deixava presentes e chegou a ficar nu em um dos primeiros encontros para provar que não portava armas.
Eduardo Hoerhann é até os dias atuais conhecido como “pacificador de índios”, mas para o estudante de História da Furb e pertencente a etnia Laklãnõ/Xokleng, Luis Nambla (37), a versão histórica dos colonizadores diverge da visão de seu povo: “Essa narrativa de que os indígenas foram pacificados pelo homem branco é uma tremenda falácia”, afirma.
Luis explica que, ao redor do fogo, os saberes e a história de seu povo são transmitidos pelos anciões às gerações mais jovens. Segundo ele, a versão Laklãnõ sobre a pacificação é que, diante da violência e dos massacres que enfrentavam, as lideranças decidiram aceitar o contato com Eduardo Hoerhann: “Em 22 de setembro de 1914, sabiamente eles decidem então contatar o homem branco”, compartilha.
Para o povo Laklãnõ, essa decisão representou uma estratégia de sobrevivência: foram eles que precisaram pacificar o homem branco, e não o contrário.
A área delimitada para os indígenas recebeu o nome de Posto Indígena Duque de Caxias. Atualmente, o território é denominado Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ e abrange os municípios de José Boiteux, Vitor Meireles, Doutor Pedrinho e Itaiópolis.
Na perspectiva do povo Laklãnõ, porém, o Posto Indígena representava um cativeiro. A pesquisadora Geórgia Fontoura, explica que o povo era controlado pelo Estado por meio do Serviço de Proteção aos Índios (SPI):
“Eles eram tutelados e não podiam sair daquele lugar sem autorização. Ou seja, eles foram confinados, literalmente, foram aprisionados dentro de uma parcela do território para que houvesse a expansão da região.” O aldeamento alterou significativamente a vida do povo Laklãnõ/Xokleng. Ao serem confinados a um território específico, perderam a liberdade de circulação que fazia parte de sua organização social, de suas práticas de caça e de sua relação com o território.
Sob as águas da Barragem Norte
Após décadas de adaptação à vida no Alto Vale, os Laklãnõ/Xokleng seriam novamente afetados por uma decisão do governo federal. Na década de 1970, em meio às medidas para conter as enchentes no Vale do Itajaí, o regime militar iniciou a construção da Barragem Norte, em José Boiteux, dentro da Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ.
Ao represar as águas do Rio Hercílio, a barragem provocou inundações em áreas utilizadas pelos Laklãnõ para o cultivo.
Não houve consulta aos habitantes da Terra Indígena para compreender os impactos da obra sobre a realidade do povo Laklãnõ. Quando a barragem foi fechada pela primeira vez, as águas invadiram as casas, documentos foram perdidos e cemitérios ficaram submersos. A área onde viviam em comunidade foi alagada, e o grupo se dividiu, inicialmente, em oito aldeias, estabelecidas em locais considerados mais seguros e sem risco de inundação.
“Isso vai gerar, nas palavras do povo Laklãnõ, uma segunda morte do povo. Porque é o momento em que eles minimamente conseguem se restabelecer dentro de um território e construir relações de esperança (…), e aí vem a Barragem Norte,” explica a pesquisadora Geórgia Fontoura.
Em 2003, a delimitação da Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ passou a ser contestada por agricultores e pelo governo de Santa Catarina. O conflito se estendeu por anos na Justiça e deu origem ao processo que se tornou a principal referência nacional para o debate sobre o marco temporal. A tese estabelece que os povos indígenas só teriam direito à demarcação das terras que estivessem ocupando em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal.
Embora o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha considerado inconstitucional a tese do marco temporal, o debate permanece presente no cenário político e conta com apoiadores entre lideranças conservadoras. Um deles é o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL). Durante discurso na 86ª Expogrande, em Campo Grande (MS), em nove de abril de 2026, ele defendeu mudanças na política de demarcação de terras indígenas:
“Essa insegurança jurídica vai acabar. Vai acabar na esfera constitucional, na esfera legal, seja em respeito ao marco temporal das terras indígenas […] Depois de 1993 para cá, o correto seria: demarcou, está demarcado, não demarcou, acabou.”
Entre a colonização e o esquecimento
A amazonense Rosângela Teixeira (37) é artista visual e professora de artes nas redes municipais de Gaspar e Blumenau. Pertencente etnia Ticuna a professora se mudou para Blumenau em 2021 com suas duas filhas na esperança de recomeço. Após prestar o concurso público e iniciar sua atuação na rede municipal de ensino, Rosângela sentiu um impacto ao perceber que não havia dentro das salas de aulas didáticas que falavam sobre os povos originários do Vale do Itajaí: “Foi esse o meu maior impacto, quando eu cheguei aqui no Sul, o fato de que não se falava sobre os povos indígenas”, recorda.
Desde 2008 a Lei nº 11.645 tornou obrigatória a abordagem da história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas em todo o currículo escolar. Dentro da determinação é específico que o estudo deve abranger as lutas dos povos indígenas e afro-brasileiros no Brasil, além de sua cultura, formação social e suas contribuições na história do país. Porém este não foi o cenário que Rosângela encontrou nas escolas em que atua aqui. Para ela o ensino não incluía a história dos povos originários da região e essa situação gerou um desconforto que a fez questionar a outros docentes por que não se falava dos indígenas do Vale do Itajaí: “Eles diziam que essa era uma região mais voltada para os imigrantes europeus. Falavam mais sobre os imigrantes do que sobre os indígenas e que eles não se sentiam confortáveis em falar sobre a temática indígena”, compartilha.
Para a professora, a falta de conhecimento das crianças sobre a história e a origem da região contribui para a perpetuação do racismo estrutural.
A experiência motivou Rosângela a aprofundar seus estudos. Em uma pós-graduação no Instituto Federal de Gaspar, ela desenvolve um projeto que propõe a aplicação da Lei 11.645 em uma didática dedicada à arte contemporânea indígena.
Entretanto, um projeto de lei desenvolvido pela deputada Clarissa Tércio (PP – PE) põe em risco seu trabalho feito até então. O PL 1007/2025 prevê que o ensino sobre os povos indígenas e afro-brasileiros seja facultativo, permitindo que os alunos optem por participar ou não de atividades didáticas relacionadas a esses temas. O projeto ainda determina que os pais precisarão ser notificados pelas escolas antecipadamente para que haja a possibilidade de ausência dos filhos. Além disso, os alunos não poderão sofrer penalidades por notas ou faltas.
A deputada Clarissa integra a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial (CDHMIR), cuja atuação abrange temas como os direitos dos povos indígenas e das comunidades indígenas, a preservação das culturas populares e étnicas brasileiras e a promoção da igualdade racial. Mesmo assim, o seu projeto deixa claro seu entendimento sobre o que é o ensino sobre povos indígenas e afro-brasileiros:
“Algumas famílias podem ter convicções que não condizem com determinadas práticas culturais, tornando fundamental que sejam previamente informadas sobre o calendário de festividades e tenham o direito de decidir sobre a participação de seus filhos. Dessa forma, a pluralidade de crenças e a opção pela não crença devem ser asseguradas no ambiente.”
O texto do projeto sugere que aspectos centrais da história do Brasil, como o massacre dos povos originários, a escravização da população afro-brasileira, suas culturas e a própria formação do país a partir de suas lutas, seriam meras questões de crença, limitando estes conhecimentos a religião. O risco dessa compreensão é contribuir para o apagamento do conhecimento histórico sobre a origem brasileira, uma realidade ainda observada no Vale do Itajaí, que foi território indígena muito antes da colonização europeia.
O projeto ainda está em tramitação e aguarda o parecer do relator na Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial (CDHMIR), deputado Luiz Couto (PT-PB).
A resistência indígena dentro da universidade

-Xokleng – Perspectivas para Blumenau’, 27 de abril 2026. Imagem por Talita Kniess
Cursando Odontologia na Furb, Nandja Schirlei (40) não encontra pessoas com trajetórias parecidas com a sua quando entra em sala de aula. As condições de vida de seus colegas são muito diferentes das que ela enfrenta, desde moradia até a disposição de materiais para aulas práticas.
Durante a graduação, já chegou a ser questionada sobre o motivo de estar em Blumenau, em vez de permanecer em José Boiteux, na Terra Indígena Ibirama, diante das dificuldades que enfrentou desde que chegou à cidade. Mas, para Nandja, o diploma não representa apenas uma conquista individual ou um caminho para o progresso profissional. Sua permanência na universidade também é uma forma de ocupar um espaço que, em sua maioria, pertence a pessoas brancas.
Para a estudante, é por meio do estudo que seu povo poderá protagonizar suas próprias lutas e participar ativamente da formulação de decisões e leis que afetam com frequência os Laklãnõ: “A nossa história está sendo apagada, dia após dia, ano após ano, com o aculturamento do povo, o embranquecimento do povo, e com a invisibilidade das nossas causas”, desabafa.
Além das decisões sobre a Barragem Norte e a tentativa do Marco Temporal, uma das situações citadas por Nandja é o projeto de lei que mudou o nome da região metropolitana de “Vale do Itajaí” para “Vale Europeu”, proposta do então deputado e hoje prefeito de Blumenau, Egídio Ferrari (PL).
Para as políticas públicas da cidade, essa é apenas uma forma de promover turisticamente os municípios da região. Entretanto, para os povos originários que estavam aqui antes da colonização, a alteração reforça o apagamento de quem já ocupava esse território.
Diante desse apagamento, Nandja Schirlei ressignifica sua busca pelo diploma pensando coletivamente nas lutas de seu povo: “Hoje a gente continua nessa briga por território. E agora, pior ainda, a gente briga por existir. Não só por território, mas por existir”, destaca.
Luis Nambla, estudante de História na Furb e uma das lideranças do Território Goj Kónã ao lado de Nandja, compreende que a criação do Museu Indígena Laklãnõ em Blumenau é um primeiro passo para que a história de seus ancestrais seja contada livremente. Para ele, há uma resistência por parte do município em admitir esse passado: “Eu acho que está mais do que na hora de perder essa vergonha de falar a verdade. Eu acho que quando um turista ele vem para a cidade de Blumenau, ele sempre acaba saindo daqui com a sensação de que falta algo”, aponta.
Entre dificuldades, retomadas e disputas por memória, Luis e Nandja seguem transformando a universidade em um espaço de resistência. Para eles, preservar a história do povo Laklãnõ também é garantir sua permanência no presente. “A gente segue resistindo de todas as maneiras para manter viva a nossa memória”, diz Luis.
O abaixo-assinado para requisição de abertura do Museu de História Indígena de Blumenau ainda está em aberto. A proposta foi apresentada por Nandja na Tribuna Livre da Câmara de Vereadores de Blumenau do dia 30 de abril de 2026, ressaltando, em seu discurso, que os indígenas não pertencem ao passado e que sua história precisa ser relembrada: “A violência contra o nosso povo foi promovida pelo Estado, por meio dos chamados bugreiros, homens pagos para perseguir, expulsar e exterminar nós originários. Trazer essa verdade aqui não é para criar conflito, é para a consciência. Porque uma cidade e um Estado que não reconhece a sua história por completo carregam uma identidade incompleta”.
O vereador Gilson de Souza, que estava presente no discurso de Nandja, é um dos signatários da petição pela criação do museu e afirma que este é um importante resgate da memória municipal: “Blumenau tem que reconhecer que nós temos uma dívida histórica com esses povos e acho que é uma dívida até impagável”, declara. Para ele, as crianças precisam conhecer essa origem da cidade, e não há necessidade de uma cultura se sobressair à outra, mas de ambas coexistirem.
Parabéns! Uma das melhores matérias que tive a felicidade de ler em Nosso Tal👏🏼👏🏼