Entre conquistas e dificuldades: a falta de locais adequados para a prática do atletismo em Blumenau

Com treinos improvisados e a necessidade de deslocamento para outros municípios, competidores de Blumenau lutam por novos investimentos e por uma estrutura de qualidade

Por Maria Luiza Feller Nunes

Em uma segunda-feira à tarde de sol forte, Sara Seibt, atleta de velocidade, 16 anos, está se aquecendo para começar mais um período de treino. Sara pratica o atletismo de velocidade na pista de areia do câmpus 1 da Universidade Regional de Blumenau (Furb). A atleta comenta que, por treinar em uma quadra que não tem a estrutura mais adequada para a prática da sua prova, o seu desempenho acaba caindo. Ela também relata que se sentiu prejudicada em competições por não treinar em pistas de borracha. Sara compara a estrutura de Blumenau com a de outras cidades da região. “Já treinei em Timbó, por exemplo, tem a pista lá muito boa, a estrutura bem completa, o ginásio tudo bem certinho, e eu vejo um lugar bem melhor comparado com Blumenau”, conta a atleta.

Essa é a realidade enfrentada por diversos atletas da modalidade do atletismo em Blumenau, cidade que é um importante polo do esporte no Brasil. A modalidade inclui corridas de velocidade, revezamento, maratona, arremesso de peso, saltos e lançamentos. O município é o maior campeão dos Jogos Abertos de Santa Catarina, o JASC. A cidade revelou grandes nomes do atletismo e, nas últimas oito Olimpiadas, teve pelo menos um representante na prova de Marcha Atlética, muitos deles sob o comando do técnico Ivo da Silva, figura histórica do atletismo de Blumenau.  Apesar de toda essa história com o esporte, os atletas da cidade estão sofrendo com a falta de estrutura para os treinos técnicos.

A última vez que Blumenau teve uma estrutura mais próxima do ideal foi há cerca de dois anos, quando ainda era utilizado o Complexo Esportivo do Sesi, porém ainda de forma precária, já que não atendia todas as especialidades. Hoje, Blumenau não conta com nenhum espaço oficial para treinamento da modalidade. Cada prova realiza treinamento em algum lugar de Blumenau e região, porque muitos atletas precisam se deslocar para cidades vizinhas para terem um treino mais apropriado. Em fevereiro deste ano, foi apresentado na câmara de vereadores, pela vereadora Cristiane Loureiro, um requerimento solicitando a análise de viabilidade para a construção de uma pista de atletismo e adaptada para o paradesporto no Parque Municipal Prefeito Carlos Curt Zadrozny. O projeto busca melhorar o cenário de treinos desses técnicos e atletas de Blumenau, fazendo que eles tenham melhores desempenhos.

O deslocamento para cidades vizinhas

O técnico de arremesso e lançamento da AABLU, Associação de Atletismo de Blumenau, Alan Junior Melo, de 36 anos, comenta que a estrutura da cidade é péssima, que hoje não há espaço para a prática do arremesso e lançamento. Por envolver o lançamento de objetos pesados e de alta velocidade, como pesos e martelos, o espaço físico dessas provas exige uma área ampla e um rigoroso espaço de segurança. Para isso, Alan e seus atletas vão três vezes na semana para Pomerode, com seus próprios carros, sem ajuda de custo da Secretaria de Esporte, onde treinam na pista anexa ao pavilhão de eventos municipal da cidade. O local não é o mais adequado para os treinos, mas possuem uma estrutura mais apropriada para prática do que seu próprio município.

A pista de Pomerode tem as dimensões oficiais de 400 metros, seu piso é de barro, tem o campo no centro da pista e uma gaiola, estrutura de segurança utilizada nas provas de lançamento de disco e martelo. Ela é formada por postes de metal e redes que cercam parcialmente a área de lançamento, com o objetivo de proteger atletas, árbitros e o público caso o objeto seja lançado para fora da área prevista.

Blumenau não tem um local apropriado para arremessos e lançamentos, há cerca de 20 anos. Quando Alan ainda era atleta, as práticas de lançamento e arremesso aconteciam no fórum, o espaço não era o mais adequado, mas eles tinham um local seguro para treinarem na cidade. O contrato com a área foi encerrado em 2012, e desde lá, a secretaria do esporte nunca deu suporte para um novo local de treinamento, e o arremesso e lançamento ficaram sem espaço na cidade.

Quem frequenta o Ramiro Ruediger, parque municipal localizado no bairro da velha e bastante frequentado pela população de Blumenau para momentos de lazer e esporte, já deve ter visto o treinador de velocidade da AABLU Ednilson Licínio Machado, conhecido como Montanha, 39 anos, treinando com seus atletas. Ele também relatou sobre a falta de um local mais adequado para os treinos. “Em relação a parte estrutural, é precária em relação a pista de atletismo, não tem pista em Blumenau para ser utilizada, somente o Parque Ramiro Ruediger. O ideal é uma pista centralizada, de carvão ou de pó de brita, que é mais acessível, uma sintética, com certeza, que é uma pista boa, mas na minha opinião, não em um lugar tão retirado, teria que ser em um lugar mais centralizado e não nas extremidades das cidades”, comenta Montanha.

O técnico de velocidade da AABLU Haiko Bruno Zimmermann, 36 anos, relembra da pista sintética que Blumenau teve no Sesi, que por consequência da catástrofe de 2008, o maior desastre climático do estado de Santa Catarina, que aconteceu em novembro daquele ano. Blumenau, um dos municípios mais afetados, teve 24 mortes e cerca de 25 mil pessoas desalojadas. Em decorrência dos estragos causados pela enchente a pista sintética de atletismo foi destruída, e desde lá, não houve uma outra pista tão apropriada para os treinos de atletismo. “A falta de uma pista sintética faz com que os atletas compitam em desvantagem. Então eles treinam nessa pista que a gente tem na Furb atualmente né. Alguns até treinam na Artex, na ADHering, mas a falta de uma pista sintética, a pista adequada para provas de velocidade faz com que eles não consigam treinar adequadamente”, comenta o treinador.

As dificuldades dos treinos técnicos

Para competidores de alto rendimento, os treinos técnicos são extremamente importantes para o desempenho dos atletas em competições, mas a falta de um local adequado para a prática na cidade atrapalha a frequência de treinamentos.

O educador físico, atleta master, ex-atleta e ex-treinador da base de atletismo, Alexander Fontana, 40 anos, fala como a falta de um local adequado pode impactar no desempenho do atleta. “Vamos começar pela frequência de treinamento, certo. Tu tendo hoje um local como a nossa região já tem com pista sintética, por exemplo, local próprio para treinamento, o tempo, a chuva, que é uma questão que hoje que impede os treinamentos de pista, sendo sintéticos, o clima não vai interferir, e não perde frequência”, explica Alexander. O educador físico também complementa que ter uma qualidade de estrutura melhora o desempenho, diminui o risco de lesões, porque a borracha absorve melhor o impacto e melhora o rendimento.

Nicolas Pereira Scherer, 16 anos, atleta de velocidade, é um exemplo disso. Nicolas comenta que muitas vezes já se sentiu prejudicado pela falta de uma pista de qualidade, e ele acredita que isso pode ter influenciado até para uma lesão que ele teve, uma contusão no posterior de coxa.

Pedro Honório Miranda, 35 anos, técnico de provas combinadas e salto com vara e presidente da AABLU, comenta treinar com seus atletas em Jaraguá do Sul, e por causa da distância, conseguem fazer os treinos técnicos apenas uma vez na semana. Apesar da frequência ideal de treinos para um bom desempenho seja de dois a três treinos semanais, os demais treinamentos, como os de velocidade e ginástica olímpica eles conseguem fazer no Sesi.

Espaço ideal

Localizada próxima do Parque Malwee, a pista de Jaraguá do Sul pode ser considerada a melhor pista de atletismo de Santa Catarina. Ela é uma pista de dimensões oficiais e de piso sintético, conta com arquibancada coberta e é aberta para o uso da comunidade.

Marco Antônio Gonçalves de Melo, 15 anos, atleta de lançamento de martelo e disco, relata que já se sentiu prejudicado por não ter um espaço de treinamento em Blumenau. Ele e outros atletas fazem seus treinos em Pomerode, perdem cerca de uma hora e meia para ir e voltar, tempo que poderiam estar treinando e até mesmo descansando. “A gente não pode ficar uma semana sem treinar, então é gasto com gasolina, de tempo. Então é complicado para a gente, se a prefeitura conseguisse uma estrutura e conseguisse manter a bolsa atleta, seria muito melhor”, comenta Marco.

Crédito: Divulgação/FocoRadical

Para atletas que nunca treinaram ou conheceram pistas de atletismo de outras cidades mais estruturadas que as de Blumenau, a estrutura disponível no município é boa e comporta as necessidades deles. Esse é o caso do atleta Renan Geske Martins, 15 anos, atleta de velocidade que treina há quatro anos somente em Blumenau. “Para mim, no meu foco, tá bom assim”, relata Renan, que ainda complementa nunca ter se sentido prejudicado em competições.

Para Ricardo Henrique Machado da Rosa, 18 anos, atleta de velocidade e salto em distância, comenta que a estrutura é muito boa, mas falta investimento. “Aqui na Furb, a gente tem um lugar muito adequado, muito bom para treinar, só que imagina se fosse pista né, se fosse sintético, ia ser algo muito mais interessante”, relata o atleta. A pista da universidade é de areia, o que pode aumentar os riscos de lesões, pois pode haver alguns desníveis na pista.

Além das dificuldades de locais para a prática do esporte, o atletismo sofre com cortes de verba, como o Bolsa Desportista Municipal, também conhecida como Bolsa Atleta, que existe desde 2006 e é um programa municipal de auxílio financeiro destinado a incentivar atletas e paratletas de alto rendimento e de base que representam a cidade em competições. Ano passado, a Bolsa Atleta do atletismo sofreu um corte de R$ 5 mil, passando de R$ 40 mil, para R$ 35 mil, uma diminuição de 12,5% na verba do auxílio. No início deste ano, outro corte foi sugerido, mas dessa vez de R$ 10 mil, restando apenas R$ 25 mil, uma redução ainda maior, mais de 28% a menos na bolsa para ser distribuído entre os atletas. Entretanto com a união dos treinadores, atletas e pais de atletas, esse corte orçamentar não foi posto em vigor.

Promessas e projetos futuros

Em fevereiro deste ano, a vereadora Cristiane Loureiro fez um requerimento à câmara de vereadores solicitando a análise de viabilidade para a construção de uma pista de atletismo e adaptada para o paradesporto no Parque Municipal Prefeito Carlos Curt Zadrozny, conhecido também como Parque da Artex, localizado no bairro Progresso. O requerimento questiona a possibilidade da inclusão dessas estruturas dentro do projeto de uso do parque, que teve proposta apresentada pelo Blumenau Esporte Clube SAF, o BEC, que utiliza parte do parque para a construção do próprio centro de treinamento.

Enquanto realizava sua atividade física regular na academia, a vereadora Cristiane Loureiro foi abordada por alguns professores de educação física que falaram sobre a atual situação do atletismo e sobre a concessão do BEC com o Parque da Artex. “E aí, me perguntaram se havia de repente uma possibilidade de ter um espaço de uma pista de atletismo, que eles colocaram estar fazendo falta. Um dos professores que veio falar comigo é professor de atletismo, e ele falou que inclusive, está tendo uma dificuldade até dos treinos dos atletas”, comenta a vereadora.

Alexander Faustino, profissional de educação física, foi um dos professores a falar com a vereadora Cristiane. A motivação dele foi o BEC estar usando espaços públicos, como o Parque da Artex, para uso privado, em uma região carente de ambientes de lazer. Para Alexander, já que o BEC estaria utilizando uma parte do parque, eles deveriam investir em algo para a comunidade, como uma pista de atletismo que fosse possível receber todas as provas da modalidade treinarem, além da população também poder usufruir em conjunto com o esporte.

Alexander complementa que tendo bons espaços para atender todas as especialidades do atletismo, eles podem ser abertos para a população utilizar e promover a saúde, para que a comunidade também possa fazer atividades físicas regulares. Como a pista municipal de Pomerode, onde o treinador Alan treina com seus atletas, que é aberta para a população, mas em alguns horários é restrita para a prática do atletismo. “O exercício físico ajuda no controle da ansiedade, são inúmeros os benefícios que a atividade física nos proporciona”, explica Alexander.

Para o arremesso e lançamento, o treinador Alan fez um contrato de pessoa física com a pessoa jurídica do 23° Batalhão de Infantaria (23° BI), por uma amizade que ele tem com o exército brasileiro, para que os atletas pudessem treinar em um terreno do batalhão. Por alguns anos usaram a PPM, Pista de Pentatlo Militar, terreno baldio que eles não usam. Esse ano o contrato não foi renovado. Mas a parceria com o 23° BI continua, pois foi aprovado o projeto para usar a pista que o exército tem. Para que isso pudesse acontecer, foi conquistado uma emenda parlamentar no valor de R$ 150 mil, quantia acima do necessário para construção da pista para servir todas as especialidades do atletismo, com setores para saltos, lançamentos e arremessos, “Chegando essa emenda parlamentar, a gente vai investir todo esse recurso no batalhão do exército, aí seria a nossa casa definitiva desde 2012”, comenta Alan.

O Secretário do Esporte e ex-atleta olímpico de marcha atlética, Sérgio Galdino, afirma estar buscando unir esforços esportivos, políticos e empresarias para que seja possível construir não só a pista de atletismo, mas dar um bom espaço para todas as modalidades e mostrar que o esporte é uma vertente importante no desenvolvimento da cidade. “A gente está procurando fazer isso de unir todas as modalidades coletivas e individuas né, cada uma tem uma particularidade, então o grande intuito é a gente unir os esforços”, explica o secretário.

A casa do atletismo

Até 2012, o Complexo do Sesi foi a “casa do atletismo”, mas aos poucos o espaço foi deixando de atender algumas modalidades e impactando na vida dos atletas. É o caso da Suzana Nahirnei, 31 anos, paratleta de arremesso de peso, a primeira paratleta de Blumenau a participar de uma Paralimpíada. Ela relata que acreditou estar abrindo uma porta para o atletismo na cidade, mas dois meses após voltar das Paralimpíadas de Paris 2024, a qual ela ficou em quinto lugar na competição, teve seu local de treinamento fechado, o Sesi. “Não tive um local para treinar. Foi todo um trabalho psicológico também porque imagina, você está treinando em um local né, consegue uma conquista inédita para cidade e simplesmente tira o seu local de treinamento e dos seus colegas que treinam junto, então foi um baque bem grande assim da minha carreira”, comenta Suzana.

Crédito: Gabriela Jesus

O treinador de provas combinadas e salto com vara e presidente da AABLU, Pedro Honório Miranda, 35 anos comenta que hoje, para o atletismo há várias deficiências, mas a principal é a falta de pista oficial. “A gente tem várias deficiências, mas a principal seria uma pista oficial com setores oficiais também, uma área que pudesse fazer os lançamentos e arremessos né, que isso tudo a gente não tem”, comenta o presidente.

Com a falta de local que comporte todas as especialidades do atletismo, cada prova precisa ser praticada em um local diferente. Alguns treinam no Sesi, outros na Furb, ADHering, em parques da cidade e até em outros municípios, como Pomerode, Timbó e Jaraguá do Sul, causando uma distância entre os atletas das diferentes provas que compõe a modalidade.

“Se você quer um trabalho de equipe, vocês precisam estar juntos, o nome equipe já diz estar junto, uma equipe não joga separado, por mais que são provas individuas, mas lá na pontuação das competições é a soma da corrida, é a soma do salto, é a soma da pontuação do salto com vara, da distância, ou seja, todo mundo agrega para a modalidade ser campeã de um joguinhos, jogos abertos, de uma Olesc (Olimpíada Estudantil Catarinense)“, explica o educador físico Alexander.

Para Alan, treinador de arremesso e lançamento, nos seus tempos de atleta, cerca de 20 anos atrás, todas especialidades treinavam juntas, e Blumenau ganhava praticamente tudo. “A equipe de Blumenau era uma potência, a gente ganhava Olesc, joguinhos, jogos abertos, todo mundo tinha medo de Blumenau, Blumenau era uma potência”, relembra Alan.

O Secretário do Esporte afirma que o objetivo é fazer que o Sesi volte a ser a casa não só do atletismo, mas ser a casa do esporte, como handebol, voleibol, skate, natação, BMX (ciclismo). O secretário comenta que há muitos projetos e que estão trabalhando para a realização desses planos. “A gente tem muitos projetos que a gente está trabalhando que é a longo prazo, não vamos resolver agora, primeiro o projeto, porque não tinha projeto desde o ano passado, e eu estou procurando os parceiros”, explica o secretário.

O presidente da AABLU e treinador, Pedro Honório Miranda, também comenta sobre atletas que foram para outras cidades à procura de estruturas melhores de treinos e suporte financeiro. “Desde que a estrutura da pista começou a dar problema e a gente não pode mais utilizar o Sesi, e a questão salarial também, a gente teve alguns problemas de não poder mais ceder os profissionais da educação pro desporto, que isso é uma prática que acontecia antes, então a gente tinha mais profissionais trabalhando, então vou te dizer que uns cinco anos pra cá, quatro anos pra cá isso foi piorando”, comenta Pedro.

Apesar de todas essas dificuldades encontradas pelos técnicos e atletas, eles continuam trazendo grandes resultados para a cidade, o que demonstra toda a força de vontade e paixão pelo esporte. Com maiores investimentos e um local apropriado que todas as especialidades pudessem treinar, Blumenau poderia ser um nome ainda maior para o Atletismo.

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