Entre o “vira-latismo” e o orgulho nacional: jovens redefinem o patriotismo

Por Kassiani Borges

Nos últimos anos, demonstrar orgulho pelo Brasil se tornou, para muitos jovens, um comportamento associado diretamente à política. O uso da bandeira nacional, da camisa da seleção brasileira e até das cores verde e amarelo passou a carregar significados partidários, principalmente durante o período de forte polarização política no país, a partir do final do governo da presidente Dilma Rousseff, em 2016. O patriotismo deixou de ser entendido apenas como pertencimento e passou a ser associado, muitas vezes, a posicionamentos políticos específicos.

Ao mesmo tempo, outro fenômeno ganhou força nas redes sociais: o retorno da discussão sobre a chamada “síndrome de vira-lata”, expressão criada pelo escritor e cronista Nelson Rodrigues após a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950. O termo descrevia o sentimento de inferioridade do brasileiro diante de outros países, principalmente das grandes potências ocidentais. Décadas depois, a expressão voltou a circular entre jovens na internet, agora usada para criticar a valorização exagerada do exterior e a constante sensação de que “a grama do vizinho é sempre mais verde”.

Essa percepção foi alimentada durante anos por filmes, séries, redes sociais e pela própria lógica do consumo globalizado. O chamado “sonho americano” passou a funcionar não apenas como um desejo de imigração, mas como um modelo idealizado de vida: cidades organizadas, segurança, poder de compra elevado, reconhecimento profissional e estabilidade financeira. Nas redes sociais, a estética da vida fora do Brasil ajudou a consolidar essa ideia. Vídeos sobre intercâmbio, rotina no exterior e consumo internacional passaram a ocupar grande espaço no imaginário jovem, muitas vezes sem mostrar os custos emocionais, financeiros e sociais dessa experiência.

Nos últimos anos, porém, esse imaginário começou a sofrer desgaste. Relatos sobre jornadas exaustivas de trabalho, alto custo de vida, dificuldades no sistema de saúde e frustrações pessoais passaram a aparecer com mais frequência nas redes, criando uma espécie de contraponto à idealização construída anteriormente. Paralelamente, momentos de valorização internacional do Brasil, como o destaque do cinema nacional na premiação do Oscar, a mobilização durante a Copa do Mundo e a repercussão das Olimpíadas reacenderam manifestações de orgulho coletivo entre jovens que até há pouco tempo pareciam distantes desse tipo de identificação nacional. Mais do que um patriotismo tradicional, ligado a discursos políticos ou nacionalistas, o que começa a aparecer é uma valorização cultural cotidiana: da música brasileira, da comida, do humor, do cinema, da convivência social e até de políticas públicas que muitos brasileiros só percebem quando vivem fora do país.

O reconhecimento como compensação

O professor Nelson Afonso Garcia Santos, docente da Furb e doutor em Desenvolvimento Regional, avalia que o ressurgimento das discussões sobre a chamada síndrome de vira-lata entre os jovens está diretamente relacionado à forma como o Brasil foi historicamente inserido no cenário internacional.

Segundo ele, o país foi formado como uma colônia de exploração e desenvolveu, ao longo dos séculos, uma forte dependência econômica, tecnológica e cultural em relação às grandes potências. Essa relação ajudou a consolidar a ideia de que o desenvolvimento, a inovação e até mesmo a produção cultural de qualidade estariam sempre fora do Brasil.

Durante grande parte do século XX, os meios de comunicação reforçaram essa percepção ao apresentar os Estados Unidos e países europeus como modelos de sucesso, enquanto o Brasil aparecia frequentemente associado ao atraso e ao subdesenvolvimento.

“Durante muito tempo fomos levados a acreditar que o bom estava lá fora. Muitas vezes, aquilo que vem de outros países continua sendo visto como melhor do que aquilo que produzimos aqui”, afirma.

Para o professor, embora essa influência continue existindo, ela já não está concentrada apenas nos Estados Unidos e na Europa. O crescimento de outras referências culturais no cenário global, especialmente vindas de países asiáticos como China, Japão e Coreia do Sul, ampliou o repertório consumido pelos jovens e contribuiu para enfraquecer a ideia de que existe apenas um modelo de sucesso a ser seguido.

Ao mesmo tempo, ele observa que parte da juventude tem passado a questionar a lógica de inferioridade cultural construída historicamente no país. Esse movimento não significa ignorar os problemas brasileiros, mas reconhecer que o Brasil também produz cultura, conhecimento e experiências capazes de gerar identificação e pertencimento.

É nesse contexto que o professor explica a força simbólica de eventos como a Copa do Mundo. Para ele, o futebol ocupa um lugar especial no imaginário nacional porque funciona como uma forma de compensação em que os brasileiros conseguem se enxergar em posição de destaque diante de áreas em que o país tradicionalmente se percebe em desvantagem em relação às grandes potências. 

Para o sociólogo, a identificação histórica do país com o esporte ajuda a construir um sentimento coletivo de orgulho e pertencimento. Em momentos como a Copa do Mundo, essa relação se intensifica porque o futebol oferece uma oportunidade de reconhecimento internacional e de valorização da própria identidade nacional.

“O futebol é a nossa área. É o nosso meio, onde conseguimos ter esperanças. O Brasil é visto como o país do futebol, e isso fortalece a identificação das pessoas”, explica o professor.

Segundo Nelson, a mesma lógica ajuda a explicar por que conquistas esportivas, culturais e artísticas costumam mobilizar tanto os brasileiros. Seja em uma Copa do Mundo, em uma medalha olímpica ou no reconhecimento do cinema nacional, esses momentos representam oportunidades de reconhecimento coletivo e reforçam a percepção de que o país também é capaz de ocupar espaços de destaque no cenário mundial.

Quem molda o imaginário brasileiro?

A busca por reconhecimento e pertencimento descrita pelo professor Nelson Garcia também é percebida pelos jovens. Para o estudante de História da Furb, Caio Vinicius Borges dos Santos, 21 anos, esse sentimento de inferiorização está diretamente ligado à influência cultural exercida por grandes potências sobre países como o Brasil. Segundo ele, durante muito tempo, consumir cultura estrangeira significava também enxergar o próprio país como inferior.

Caio conta que já se identificou com essa lógica de valorização excessiva do exterior, mas começou a questioná-la conforme passou a compreender como funciona a influência cultural exercida pelas grandes potências, especialmente através da internet e do entretenimento.

“Como a cultura dominante se projeta sobre a gente, a gente acaba querendo fazer parte dela, mesmo que ela não tenha nada a ver com a nossa realidade”, avalia.

A percepção do estudante dialoga diretamente com a ideia de “soft power”, conceito utilizado para definir formas de influência cultural e simbólica exercidas por países através da música, cinema, moda, redes sociais e produtos de consumo. Para ele, esse processo ajuda a construir a sensação de que viver fora do Brasil representa automaticamente uma vida melhor.

O professor Dominique Vieira Coelho dos Santos, docente da Furb e coordenador do curso de História e do Laboratório Blumenauense de Estudos Antigos e Medievais (Labeam), acredita que as redes sociais tiveram papel central tanto na intensificação quanto na transformação recente desse sentimento.

Segundo o pesquisador, houve uma apropriação dos símbolos nacionais por movimentos políticos, o que não aconteceu apenas no Brasil, mas fez parte de uma estratégia internacional de mobilização emocional impulsionada por algoritmos e campanhas digitais.

“Foi criada uma estética política baseada em símbolos nacionais para gerar identificação emocional. Isso aconteceu em vários lugares do mundo”, explica.

Dominique cita o estrategista político Steve Bannon como uma das figuras responsáveis por estruturar esse tipo de discurso em campanhas de extrema-direita ao redor do mundo, utilizando patriotismo, nacionalismo e símbolos nacionais como ferramentas de identificação política.

Ao mesmo tempo, o professor avalia que os próprios jovens passaram a compreender melhor o funcionamento dessas disputas simbólicas na internet. Para ele, existe hoje uma percepção maior sobre o impacto dos algoritmos na construção de visões políticas, culturais e sociais.

“Hoje existe uma disputa maior pelos símbolos nacionais. Outros grupos também passaram a utilizá-los e isso enfraquece a associação exclusiva que existia antes,” pondera.

O sonho americano sob revisão

Divulgação

A mudança também aparece na forma como muitos brasileiros passaram a enxergar a experiência de viver fora do país. O jornalista e publicitário Bruno Terreiro Vicentainer, 27 anos, atualmente gerente de redes sociais da Prefeitura de Blumenau, passou quatro períodos de intercâmbio nos Estados Unidos entre 2019 e 2023, trabalhando em um resort de esqui na região de Snowshoe, em West Virginia.

Como muitos jovens brasileiros, Bruno cresceu consumindo cultura norte-americana e alimentando o desejo de morar fora. “Eu cresci vendo série americana, filme americano. Sempre tive esse sonho”, conta.

No início, a experiência parecia confirmar parte da idealização construída ao longo da adolescência. Organização, segurança, infraestrutura e poder de compra chamaram sua atenção logo nos primeiros meses vivendo nos Estados Unidos. Com o passar do tempo, porém, o cotidiano começou a desmontar parte dessa idealização.

A distância da família, a dificuldade de adaptação, a alimentação, o isolamento social e a rotina intensa de trabalho fizeram com que a experiência deixasse de parecer o cenário idealizado vendido pela internet. “Tinha momentos em que eu pensava: troquei a comida da minha mãe para comer comida congelada e cara”, lembra.

Segundo Bruno, um dos maiores choques aconteceu quando precisou utilizar o sistema de saúde norte-americano após sofrer uma crise de cálculo renal durante o intercâmbio. Mesmo possuindo seguro saúde, recebeu uma cobrança hospitalar de cerca de 7.500 dólares.

“Foi um choque absurdo. Eu lembro da minha mãe me ligando desesperada quando viu o valor da conta chegando no Brasil.” A experiência alterou sua percepção sobre o próprio país.

“O SUS aqui é maravilhoso. A gente só entende isso quando vê como funciona em outros lugares”, afirma.

A fala de Bruno reforça um movimento que aparece com frequência nas redes sociais: brasileiros vivendo fora do país e revisando antigas idealizações sobre o exterior. Vídeos sobre solidão, excesso de trabalho, dificuldade financeira e saudade passaram a ocupar o espaço que antes era dominado apenas por conteúdos de consumo e ostentação internacional.

Para o professor Dominique, esse desgaste da imagem idealizada dos Estados Unidos também pesa pelas mudanças políticas e econômicas recentes, além da própria exposição mais intensa da realidade cotidiana do país.

Mesmo com essa revisão sobre o exterior, os entrevistados acreditam que o sentimento de pertencimento nacional nunca desapareceu completamente. Ele apenas passou a se manifestar de maneira diferente, menos ligado a discursos políticos tradicionais e mais conectado a experiências culturais e emocionais.

Bruno percebeu isso de forma intensa durante a Copa do Mundo de 2022, quando assistiu aos jogos enquanto ainda estava nos Estados Unidos. “Copa do Mundo, Natal… tudo isso faz a saudade de casa aumentar muito. Faz a gente sentir mais forte essa identidade brasileira”, recorda.

O reconhecimento internacional do cinema brasileiro também aparece como um dos exemplos recentes desse orgulho coletivo. Nas redes sociais, a repercussão das produções brasileiras no Oscar mobilizou campanhas, memes, debates e manifestações de apoio principalmente entre os jovens.

Uma nova leitura

Mais do que o surgimento de um “novo patriotismo”, o que parece estar acontecendo é uma ressignificação da forma como os jovens se relacionam com o próprio país. O sentimento de pertencimento não desapareceu ao longo dos anos, mas passou a conviver com disputas políticas, referências culturais globais e a percepção constante de que o sucesso estaria sempre em outro lugar.

Ao mesmo tempo em que continuam reconhecendo os problemas históricos do Brasil, muitos jovens parecem menos dispostos a enxergar o país apenas a partir de suas limitações. A valorização da cultura brasileira, o reconhecimento internacional de artistas, atletas e produções nacionais, além da revisão de antigas idealizações sobre o exterior, ajudam a construir uma relação mais equilibrada com a identidade nacional.

Se durante muito tempo momentos como a Copa do Mundo funcionaram como oportunidades de compensação simbólica diante de áreas em que o país se percebia em desvantagem, hoje o reconhecimento parece vir também de outros lugares. Não se trata apenas de celebrar conquistas internacionais ou buscar validação externa, mas de reconhecer valor em aspectos do cotidiano, da cultura e das formas de convivência que fazem parte da experiência brasileira.

Em um mundo cada vez mais conectado, o orgulho nacional passa a se manifestar menos como uma afirmação política e mais como uma forma de identificação. Não pela ideia de que o Brasil é melhor ou pior que outros países, mas pelo entendimento de que a identidade nacional também pode ser construída a partir do reconhecimento daquilo que já faz parte da vida dos brasileiros.

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