Reprodução Joinville Esporte Clube

São 50 anos em jogo: o futuro e a temporada decisiva que vive o Joinville Esporte Clube

Com proposta de compra na mesa e incerteza de resultados esportivos, dentro e fora de campo, clube lida com decisões

Por Vinícius Wippel

No ano de seu cinquentenário, o Joinville Esporte Clube encara a provável temporada mais importante e decisiva dos últimos anos, quiçá, de sua história. São inúmeros fatores em jogo, dentro e fora de campo para o futuro do JEC. O rebaixamento para a segunda divisão catarinense e a proposta de venda e transformação em Sociedade Anônima Futebol feita pela Sportheca ferve os bastidores do clube, além da continuidade da crise financeira e a instabilidade do calendário de jogos.

Longe da tranquilidade e festividade imaginada, o ano que começou tenso com o rebaixamento colocou ainda mais peso no processo de compra da SAF feita pela Sportheca. A empresa é uma startup voltada a negócios esportivos que visam unir a tecnologia ao esporte, investindo em empresas menores com possibilidade de crescimento.

Apesar de ser aprovado pelo Conselho Deliberativo no último dia 23 de abril, o processo de transformação em SAF se mostra conturbado e com muita desconfiança por parte dos sócios e torcedores, principalmente após a apresentação dos números pré-lançamento balanço patrimonial de 2025. Os dados revelaram um empréstimo de R$6 milhões feito pela empresa ao JEC, que lhe dava como garantia a exclusividade de venda ao projeto da SAF, fato que não havia sido divulgado até então por ambas as partes.

O setorista e jornalista Elton Carvalho, da Rádio 89FM, detalha que nos bastidores do clube o conselho deliberativo se mantém tranquilo e com expectativa da proposta apresentada. Já os sócios contam uma grande parcela de preocupação e receio quanto a falta de transparência  no projeto, dos valores repassados até a interferência esportiva que a Sportheca tem, e teria no tricolor:

“Pelos bastidores a gente sabe que havia ali uma influência grande por parte dela nas decisões do clube, sejam nas decisões do futebol, até para convencimento de profissionais que eventualmente estavam deixando o clube, essas coisas que nunca ficaram claras e só foram surgindo a partir da cobertura da imprensa e de um movimento do conselho de maior cobrança, deixam dúvidas sobre esse negócio, e principalmente sobre o torcedor”, afirmou Elton.

Dentre tantos fatores em jogo que permeiam o ambiente do tricolor, convém elucidar de maneira cronológica o que levou ao time viver a crise financeira e esportiva que lhe acompanha atualmente.

Nasceu campeão, e pela crise que lhe assombra

Fundado em 29 de janeiro de 1976 pela união dos dois times principais de Joinville à época, o Caxias e o América, como solução para a crise financeira que ambos os times viviam, o jogo de estreia foi um amistoso com o Vasco da Gama. Empate em 1×1 com gol do artilheiro histórico Roberto Dinamite pelos cruzmaltinos e Tonho, pelo lado dos tricolores, assinalava o primeiro gol do Coelho.

A alcunha de “nasceu campeão com taça na mão” dita no hino do clube não é por acaso. Logo no primeiro de existência o JEC foi campeão catarinense. Nos anos 70 e 80 embalou a marca histórica e nunca alcançada por outro time: oito títulos do campeonato catarinense seguidos, de 1978 a 1986. O grande nome dessa era vitoriosa foi o atacante Nardela.

Reinaldo Antônio Baldessin, o Nardela, nascido Piracicaba-SP, marcou 130 gols em 689 jogos com a camisa do JEC, conquistando 6 dos 8 títulos daquela sequência histórica, sendo considerado o maior ídolo do clube. Hoje, atua como diretor de futebol nos bastidores do JEC.

Os anos 90 e 2000 foram, assim como a sua história, de altos e baixos em relação a títulos. A profissionalização nos anos 90  trouxe o título Sul-americano das categorias de base. Também foi o primeiro time catarinense a construir um centro de treinamento, o CT do Morro do Meio. Após o octacampeonato catarinense, o time viveu uma seca de títulos, voltando a vencer o catarinense somente em 2000, com o bicampeonato em 2001, nesse que foi o último título catarinense conquistado pelo Joinville até hoje.

No início dos anos 2010, o cenário que se desenhava ao clube era positivo, vivendo talvez os melhores anos de sua história. Com o título da Copa Santa Catarina em 2009, voltou a jogar uma competição nacional, a Série D, quando conquistaria o acesso a Série C e se sagraria campeão em 2011. Foi o primeiro título nacional do tricolor.

O destaque vai ao atacante e ídolo Lima, que durante sua passagem de 2010 a 2013 se tornou o maior artilheiro do clube, com 140 gols marcados em 206 jogos.

Após três anos jogando a segunda divisão, em 2014 conseguiu o acesso a Série A junto com o maior título da história do JEC. A conquista do Campeonato Brasileiro Série B levou o clube a primeira divisão e escalão do futebol nacional após 29 anos. O elenco contava com jogadores de destaque que marcaram a campanha e viriam a se tornar ídolos do clube, como o Goleiro Ivan, o zagueiro Naldo, e o principal goleador do time, Jael. O atacante fez 19 gols em 40 jogos na temporada.

No Brasileirão de 2015 o destaque foi o atacante Kempes, que anotou 9 gols sendo o artilheiro do time na competição, que viria a se transferir para a Chapecoense no ano seguinte fazendo parte do histórico elenco campeão da Copa Sul-Americana. Kempes foi infelizmente uma das vítimas do acidente fatal que tirou a vida de 77 pessoas entre e comissão técnica do clube e imprensa.


Porém, a passagem pela Série A não foi duradoura, no mesmo ano de 2015 o clube foi rebaixado na lanterna da competição com apenas 31 pontos. Ruim por si só, o rebaixamento foi para tristeza dos torcedores tricolores apenas o início da derrocada histórica que o Joinville teria. Nos anos seguintes emplacou o “tri-rebaixamento” seguido nas divisões nacionais, em 2016 caiu para a Série C e em 2017 para a Série D, ficando sem divisão garantida. Esse viria a ser o novo drama a ser vivido pelo time nos próximos anos e almejo recente, ter que sempre buscar a vaga na Série D via estadual para ter calendário.

Com a falta de projeto esportivo e times qualificados, o Joinville chegou a ficar trës anos seguidos sem ter calendário nacional, nos anos de 2022, 2023 e 2024, voltando a jogar competição somente em 2025.

Presente endividado e futura venda

O vai e vem da instabilidade de calendário cobrou o preço. O JEC acumulou diversas dívidas durante os anos com atletas, tributos, empréstimos e dividendos. Sem divisão nacional o clube perdeu espaço e destaque, consequentemente arrecadou menos dinheiro com patrocinadores e receitas de TV. Durante a Pandemia do COVID-19, jogou de portões fechados, tendo a perda da bilheteria.

Com cenário financeiro caótico com dívida beirando os R$50 milhões, o clube teve que recorrer em 2022 ao pedido de Recuperação Judicial, mecanismo jurídico que suspende cobranças para a empresa renegociar dívidas em bloco e evitar a falência, que foi acatado em maio de 2023.

Para André Ghusttavo, atual CEO do JEC, o pedido de RJ se mostrou eficiente e benéfico ao clube, que interrompeu as penhoras das dívidas de curto prazo e maior previsibilidade no passivo do clube, isto é, as dívidas a serem pagas a terceiros. Porém, o cenário continua delicado por uma série de motivos e o CEO destaca: “O cenário econômico atual do JEC configura um risco de continuidade operacional elevado, onde a escassez de fluxo de caixa e o alto custo para captar recursos dificultam a equalização das contas”, avalia.

No planejamento esportivo, André reforça que para continuidade do projeto da SAF junto a Sportheca e a busca por estabilidade financeira se dá na busca pela permanência do calendário nacional, seja por acesso a Série C ou via Copa Santa Catarina, a ser jogada no 2º Semestre do ano.

“A prioridade absoluta da diretoria em 2026 é garantir o calendário nacional de 2027, conciliando a reformulação administrativa e a redução de custos com a montagem de um elenco enxuto, porém competitivo o suficiente para buscar o acesso ou a vaga via Copa SC”, destacou.

Voltando para os dias de hoje, a proposta apresentada e aprovada pelo conselho, gera desconfiança por parte dos torcedores por inúmeros motivos.

Parece óbvio que a transformação em SAF abriria diversas portas e possibilidades quanto a profissionalização na gestão e atrairia investimento externo. Além disso a utilização do Regime Centralizado de Execuções poderia ser usada para organizar dívidas históricas, prevenindo mais penhoras e garantindo maior estabilidade financeira.

Porém, as intenções da empresa se mantêm “no escuro” quanto ao modelo e informação, uma das principais é sobre o tipo de aporte financeiro que seria realizado na compra. Inicialmente se falavam em R$85 milhões repassados no ato da compra, porém, esse valor é baseado quanto a entrada de investidores no projeto, sem garantia certa do valor que poderia ser levantado.

O valor total seria de R$150 milhões investidos ao longo de 10 anos, porém a projeção também é feita baseada na da arrecadação do clube e da captação de investidores, dependendo dos resultados esportivos.

A falta de clareza sobre o contrato e a interferência prévia da empresa no clube é o principal assunto debatido uma vez que a empresa chegou a assinar notas e documentos de pagamento junto ao JEC antes de toda divulgação da proposta de compra. Em entrevista à Rádio 89FM Eduardo Tega, CEO da Sportheca, garantiu que a exclusividade foi apenas para melhor entendimento da situação financeira e estudo do projeto, sem interferências práticas.

São muitas as dúvidas e fatores em jogo para o Joinville, a reunião entre os sócios que decidirá o aceite a proposta ainda não possui data definida.

“De um lado, a gente rala para o JEC voltar a ser a potência que sempre foi no campo; do outro, trabalhamos para o clube ser cada vez mais presente na vida da cidade, com projetos e ações que abraçam Joinville. O plano é simples: enquanto o time busca as vitórias, a instituição reforça o orgulho de ser joinvilense, mostrando que o JEC é muito mais que só os 90 minutos de jogo”. reforçou André Ghusttavo.


O ano conturbado ganhou mais um capítulo no último dia 7 de junho, quando o Joinville foi  superado por 3×1 para o São Luiz, de Ijuí (RS) na última rodada da Série D. A derrota fez com que o JEC perdesse a classificação para a próxima fase da competição. O clube agora terá de depositar as fichas na Copa Santa Catarina para buscar uma vaga na Série D em 2027, a competição é jogada no segundo semestre do ano.

Para o torcedor, fica a esperança de dias melhores e a vista grossa a quem tem interesse em dirigir o clube. Como nas palavras do CEO do JEC, a torcida continua com o papel fundamental no apoio e acompanhamento das próximas etapas decisivas que virão pela frente.

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