O trânsito que adoece 

Irritabilidade, insônia e ansiedade. Para milhares de blumenauenses que passam horas por dia no congestionamento, o deslocamento diário deixou de ser incômodo e tornou-se um fator de adoecimento 

Por Heloisa Loos, Lidia Fleming e Talita Hañani

Fernando Janke, blumenauense e estudante de Educação Física, de 20 anos, depende do transporte público para dar início a sua rotina. Às 5h45, ele começa o dia ainda de madrugada. Sai de casa do bairro Progresso para o centro de Blumenau, e enfrenta, todos os dias, os desafios do trânsito nos horários de pico da cidade. Entre trabalho, faculdade e quatro ônibus embarcados, Fernando chega em casa apenas às 23h. O sono constante e o estresse contínuo se tornaram parte do cotidiano com o enfrentamento dessa rotina.  

“De manhã, 5h45 eu pego o 402. Daí umas 6h e pouquinho eu pego o 10. O 10 vai até no ponto que eu descer para ir trabalhar. Quando eu volto do trabalho, eu pego qualquer ônibus que vai para a Fonte (terminal) do meu trabalho. Na fonte eu pego o 401. De noite eu pego o 402 para ir para o terminal, o 10 para ir pra FURB. E depois, quando eu vou para casa eu pego o 10 e depois o 402”, conta o estudante, que passa ao todo cerca de quatro horas por dia dentro do transporte público. 

 Em uma semana, são 20 horas perdidas no trânsito. Em um mês, 80 horas. Em um ano, 960 horas, o equivalente a 40 dias inteiros da vida consumidos apenas no deslocamento. 

“Eu deixo de fazer muita coisa. Eu perco tempo, perco horas de sono por causa do trânsito. Eu poderia estar fazendo e adiantando muita coisa”, relata o estudante. 

Ana Carolina Metzger é jornalista, moradora de Indaial, e aos 24 anos também enfrenta uma rotina desgastante com o trânsito. Todos os dias, Ana enfrenta o trânsito de Indaial à Blumenau para trabalhar. De ônibus, sai do bairro Encano Baixo, por volta das 6h30, e chega no centro de Blumenau cerca de uma hora e meia depois. Um trajeto de 40 minutos de uma cidade a outra, que se intensifica por conta do trânsito. 

“Quando se está em pé no transporte público, em um dia que mal começou vendo o trânsito totalmente parado, é de desanimar qualquer um. Pior ainda são os dias de chuva, quando a volta para a casa em plena sexta-feira vira um teste de paciência ao invés de alívio por ter concluído mais uma semana.” conta a jornalista. 

Richard Curbani Alfarth é coordenador de integração e trabalha em uma empresa brasileira de software especializada na gestão de despesas e viagens corporativas.  Morador do bairro Progresso, passa cerca de duas horas do dia apenas no deslocamento para chegar no trabalho, no bairro Itoupava Norte. Todos os dias, às 7h ele começa o trajeto para o trabalho. Dependendo do dia, vai de carro ou consegue uma carona com um colega.  

Segundo ele, o trânsito começa ainda nos primeiros quilômetros do percurso. Depois de passar pelo Morro do Centenário, Richard segue pela Rua Hermann Huscher e encontra outro ponto de lentidão já próximo ao centro da cidade. Um trajeto de deveria levar no máximo 24 minutos de carro (segundo o Google Maps) costuma levar entre 50 minutos e uma hora: tanto na ida quanto na volta. 

“De manhã eu poderia descansar um pouco mais, e na volta, se não fosse uma hora de retorno, eu poderia estar fazendo uma caminhada ou organizando a casa”, desabafa Richard.  

A rotina de Jéssica* também retrata os desafios enfrentados por quem depende diariamente do transporte coletivo em Blumenau. Aos 16 anos, a estudante e menor aprendiz mora no bairro Itoupava Central e trabalha no bairro Vorstadt.  

Todos os dias, ao encerrar o expediente às 17h30, Jéssica ainda precisa percorrer um longo caminho até chegar em casa. O primeiro desafio surge logo após sair do trabalho. O ônibus que utiliza passa apenas às 18h, fazendo-a permanecer cerca de 30 minutos aguardando no ponto. O trajeto segue até o Terminal da Fonte, onde ela precisa embarcar em outro ônibus com destino ao Terminal do Aterro. Somente depois dessa segunda etapa consegue pegar o coletivo que a leva para casa, na Itoupava Central. 

Além das conexões entre terminais, o trânsito nos horários de pico contribui para aumentar o tempo de deslocamento. Segundo Jéssica, os ônibus costumam circular cheios em diversos momentos do percurso, principalmente no retorno para casa. Em alguns casos, a lotação faz com que passageiros viagem próximos às portas dos veículos, agrupados. 

A estudante relata que, apesar de sair do trabalho às 17h30, normalmente chega em casa por volta das 19h30. Dependendo das condições do trânsito e do tempo de espera pelos ônibus, o retorno pode se estender até próximo das 20h. 

A realidade enfrentada por ela se soma às histórias de outros moradores que convivem diariamente com longos deslocamentos pela cidade. Enquanto o trânsito ocupa cada vez mais espaço na rotina dos blumenauenses, trajetos que deveriam representar apenas o caminho de volta para casa se transformam em viagens marcadas por espera, conexões e congestionamentos. 

Em Blumenau, a distância entre o trabalho e o lar nem sempre é medida em quilômetros, mas em horas gastas dentro de ônibus, terminais e congestionamentos. 

A realidade vivida por Fernando, Ana Carolina, Richard e Jéssica não é isolada. Todos os dias, milhares de moradores enfrentam congestionamentos nas principais vias da cidade, transformando pequenos trajetos em viagens longas e desgastantes.  

A saúde mental e a falta de planejamento urbano 

Em Blumenau, o trânsito deixou de ser apenas um problema urbano e passou a afetar diretamente a saúde mental da população. Especialistas alertam que o trânsito pode alterar o humor e complicar relações sociais e familiares.  

Antônio Gomes da Rosa é psicoterapeuta e há 33 anos trabalha com a saúde mental dos blumenauenses, e foi um dos constituintes do Centro de Atenção Psicossocial em Blumenau (CAPS), na década de 90. Para o profissional, conviver com o trânsito em Blumenau é desgastante e pode comprometer a qualidade de vida dos blumenauenses.  

“O trânsito interrompe projetos da vida da pessoa: chegar no trabalho, voltar para casa, descansar, viver […] Muitas pessoas começam e terminam o dia desgastadas por causa do trânsito”, explica o psicólogo. 

O psicoterapeuta também fala sobre aquilo que considera o agravante do aumento do tráfego de Blumenau: a falta de planejamento urbano. 

“As cidades cresceram, mas as vias não acompanharam esse crescimento […] Blumenau depende praticamente de três ruas para movimentar centenas de milhares de pessoas. Nós vamos ter um infarto urbano”, declara Antônio. 

Junto com esse “infarto urbano”, a saúde mental dos blumenauenses está, aos poucos, se desgastando, como revela o estudante Fernando Janke. 

“Minha saúde mental agora ela está boa, mas ela já esteve muito pior, porque uma época eu estava muito obcecado por comprar um carro, porque que eu odiava andar de ônibus, era muito demorado. Perdi muito tempo, sim, foi muito ruim. Ainda perco”, lamenta Fernando. 

Apesar de ser um dos problemas mais comentados sobre o trânsito em Blumenau, a demora para chegar ao destino não é o único agravante à saúde mental. Um estudo científico publicado na International Journal of Environmental Research and Public Health concluiu que a exposição frequente ao ruído do tráfego também pode elevar significativamente os riscos de depressão e outros transtornos psicológicos. Segundo os pesquisadores, o excesso de estímulos sonoros e a tensão constante provocada pelo trânsito afetam o equilíbrio emocional e a qualidade de vida das pessoas. 

Uma cidade cada vez mais parada

O crescimento da frota de veículos intensificou os desafios da mobilidade urbana no município. Segundo dados do Detran-SC, Blumenau ultrapassou a marca de 295 mil veículos em circulação em 2025, tornando-se a terceira maior frota de Santa Catarina. 

O aumento no número de automóveis pressiona diariamente a infraestrutura viária da cidade, especialmente nos horários de pico. Regiões centrais e corredores importantes registram congestionamentos frequentes, ampliando o tempo de deslocamento e o desgaste da população.  

“É revoltante quando, nos poucos momentos de descanso que o trabalhador tem para usufruir, ainda precisa lidar com o estresse de um trânsito que não foi pensado para a quantidade de veículos que trafega por Blumenau atualmente.” diz Ana Metzger 
 
Ao mesmo tempo, o transporte coletivo também continua sendo utilizado por milhares de pessoas. Dados da Prefeitura de Blumenau mostram que o sistema ultrapassou 19,4 milhões de passageiros em 2025, um aumento de quase 450 mil usuários em relação ao ano anterior. 

Apesar dos investimentos anunciados pela Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (SMTT), como renovação da frota e ampliação de horários, o cotidiano de quem depende dos ônibus ainda é marcado por longos períodos de deslocamento e superlotação nos horários mais críticos. 

Para Fernando César Lenzi, secretário de Trânsito de Blumenau, o aumento da frota e as limitações estruturais da cidade ajudam a explicar os congestionamentos frequentes e os impactos sentidos pela população. Segundo ele, o crescimento econômico da cidade contribuiu para o aumento do número de veículos, enquanto a geografia urbana dificulta a ampliação da infraestrutura viária. 

 “O poder aquisitivo é um fator positivo para a cidade, mas traz esse problema para o trânsito”, afirma Fernando Lenzi. O secretário também destaca que a infraestrutura de trânsito também é limitada por conta da geografia. Para ele, os horários de pico têm provocado impactos diretos na rotina e no bem-estar da população. 
 

 “Se eu fico dia todo preocupado com o roteiro que eu tenho que fazer, se vai ter movimento, isso impacta na saúde mental”, declara Lenzi.  

O secretário relata ainda que mudanças no sistema de mobilidade já refletiram na qualidade de vida de parte da população blumenauense. 

 “Teve gente que chegou a economizar meia hora do seu trajeto de deslocamento”, conta. Para ele, a redução do tempo no trânsito e o transporte coletivo de Blumenau representa mais tempo para atividades pessoais e familiares: “Isso é qualidade de vida”. 

Ao comentar possíveis soluções para o problema, Lenzi defende a necessidade de investimentos em mobilidade coletiva e mudanças no comportamento da própria população, e que as escolhas dos blumenauenses influenciam no tempo e qualidade do trajeto. 

“A coletividade em um sistema desse deve ter prioridade em cima da individualidade […] Você está abrindo mão da velocidade para ter o conforto em horários de pico”, afirma o secretário sobre a preferência do uso de carros ao invés do transporte coletivo. 

“A gente acerta 100%, claro que não. Mas a gente quer acertar 100%, não tem dúvida nenhuma. Nós estamos aqui para levar o melhor para a população. Eu sou habitante de Blumenau, nós somos habitantes de Blumenau. Nós queremos o melhor para a cidade”, finaliza o secretário. 

Para Richard, a sensação é de que o crescimento urbano não foi acompanhado por melhorias suficientes na mobilidade. O aumento da frota de veículos, aliado à limitação das vias, faz com que os congestionamentos se tornem cada vez mais frequentes. 

“Hoje vejo que o governo não tem muitas iniciativas nesse sentido e isso mostra a probabilidade de um caos ainda maior no futuro”, alerta. 

Enquanto soluções para a mobilidade urbana seguem em discussão, milhares de moradores continuam atravessando a cidade diariamente entre congestionamentos, atrasos e cansaço. 

Além das histórias de Fernando Janke, Ana Carolina e Richard, a equipe de reportagem, a fim de reunir mais informações, realizou uma pesquisa online no mês de maio de 2026, com moradores que convivem diariamente com o trânsito de Blumenau. O levantamento, feito de forma online com 31 participantes de diferentes idades, entre 19 e 52 anos, mostra que a sensação de desgaste causada pelos congestionamentos não aparece apenas em casos isolados, e já faz parte da rotina de muitos blumenauenses. 

Entre os entrevistados, 35,5% afirmaram passar cerca de uma hora por dia no trânsito. Outros 29% relataram gastar aproximadamente duas horas diárias, enquanto 32,3% disseram permanecer pelo menos 30 minutos no trajeto entre trabalho, estudo e compromissos. Também houve 3,2% dos entrevistados que passam até quatro horas do dia dentro de ônibus ou parados em congestionamentos.

Quando somadas as horas gastas no trânsito, elas passam a ocupar o espaço que poderia ser destinado ao descanso, ao lazer ou até as tarefas de casa. Não por acaso, mais da metade dos entrevistados (54,8%) da pesquisa afirmaram que já deixaram de fazer alguma atividade (como academia, esporte, lazer ou momentos de descanso) por causa do tempo perdido no trânsito. 

Em diferentes rotinas, o efeito acaba sendo o mesmo: menos tempo para viver fora do trânsito. 

Além disso, ao serem questionados na pesquisa sobre o nível de intensidade do trânsito em Blumenau, em uma escala de 0 a 10, apesar de que 29% das respostas foram 1 (baixa intensidade), 25,8% avaliaram o trânsito em Blumenau de alta intensidade (7). 

Os números da pesquisa ajudam a reforçar o que especialistas, moradores e até o próprio poder público reconhece: mais do que um problema de mobilidade urbana, o trânsito em Blumenau reflete a forma como a cidade cresce, se movimenta e impacta a vida de quem vive nela.  

Aumento da frota de veículos, limitações geográficas e sobrecarga das principais vias fazem com que milhares de pessoas sigam perdendo horas úteis.

Conforme pesquisa realizada, mais da metade dos moradores utilizam veículos próprios para deslocamento. O transporte público vem em segundo lugar com mais de 25% de adesão. Os dados mostram e justificam a quantidade de veículos e o aumento da frota no município, ocasionando os engarrafamentos e congestionamentos diários. 

Para Fernando, isso significa continuar acordando antes do sol nascer e chegar em casa perto das 23h, convivendo todos os dias com o cansaço físico, a perda de horas de sono e o pensamento de que “e se eu tivesse mais tempo?”  enquanto ele ainda está no trajeto. Tempo que poderia ser usado para estudar, descansar ou simplesmente existir fora da rotina corrida entre os terminais e ônibus lotados. 

Para Ana Carolina, significa enfrentar viagens longas logo nas primeiras horas da manhã e transformar o retorno para casa em desgaste emocional. O que deveria representar o alívio de mais uma semana concluída acaba se tornando estresse diante de filas intermináveis de carros e vias congestionadas. 

Para Richard, o trânsito representa menos tempo para cuidar da própria saúde, descansar ou aproveitar a casa e a família. Significa trocar uma caminhada no fim da tarde, um momento de lazer ou algumas horas a mais de descanso pelo som das buzinas e pela tensão do trânsito nos horários de pico. 

Para Jéssica*, esperar meia hora pelo ônibus no ponto depois do trabalho, transitar no horário de pico entre três terminais diferentes e perder duas horas no trânsito (a depender do trânsito, até 3 horas) significa que, aos 16 anos, sua rotina de estudos, trabalho, descanso e lazer já é comprometida: quem dirá como vai estar sua saúde mental e física quando chegar a fase adulta. 

A realidade enfrentada por todos eles não apenas os pertence. Ela se espalha diariamente pelas ruas de Blumenau. Está nos ônibus lotados ainda antes do amanhecer, nos motoristas parados em filas extensas nos corredores da cidade e nos trabalhadores que calculam o horário de saída não pela distância até o destino, mas pela previsão de congestionamento. 

Em uma cidade onde o trânsito ocupa cada vez mais espaço na rotina, o impacto ultrapassa a mobilidade urbana: Relações familiares, tempo de descanso, produtividade e a saúde mental e física são afetadas.   

Aos poucos, o tráfego blumenauense contribui silenciosamente para o desgaste da saúde mental da população. Aos poucos, o congestionamento deixa de existir apenas nas ruas e passa a ocupar também o cotidiano, os pensamentos e a qualidade de vida dos blumenauenses. 

Possíveis soluções são debatidas todos os dias, mas para os blumenauenses, debater não irá mudar a realidade: é necessário que as iniciativas sejam colocadas em prática. Caso contrário, milhares de moradores vão continuar enfrentando a mesma realidade todos os dias: acordar cedo demais, voltar tarde demais e passar horas da vida apenas tentando chegar em algum lugar. Por enquanto, em Blumenau, o trânsito mede tempo perdido, desgaste emocional e oportunidades que se perdem no caminho.

Os nomes identificados com asterisco (*) são fictícios, utilizados para preservar a identidade dos entrevistados. 

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