“No comecinho eu chorava escondido para ninguém ver”: o luto simbólico e o ritmo da vida nos lares de idosos

Nos lares de repouso de Blumenau, idosos carregam uma realidade que a sociedade prefere não ver

Por Laura Severo e Arthur Nossol

O dia está nublado, com aquele cinza característico de Blumenau que você aprende a aceitar e pensa: “Pelo menos não está chovendo”. Na varanda de uma casa de repouso, seu Francisco*, de 81 anos e residente do lar há 17, está em uma cadeira de rodas. Não venta, mas a mão dele está gelada. 

Ele não é dos mais simpáticos, muito menos dos mais sociáveis. Seu olhar é triste, vazio e não para muito tempo no mesmo ponto. É exatamente assim que ele define a experiência no lar. Ele gosta de estar ali? “Sou obrigado, né? Não tem outro lugar”, responde. Mas ele conversa, até sorri quando fala que é flamenguista e, claro, quando lembra da cerveja que tomava todos os dias depois do trabalho. 

Seu Francisco não tem filhos, não tem família. Teria, diz ele, se fosse rico: “Viveria cercado de visitas aqui no lar se eu fosse cheio da grana, sabe como é.” É assim que ele é: firme, uma pessoa de poucas palavras, e quando dá o ponto final, não tem conversa.  

Francisco não tem ninguém. Paciente da ala de enfermaria, seus colegas de quarto são todos acamados. Ele tende a conversar com a assistente social do lar, a Jéssica*, com quem mantém uma relação superficial, mas que afirma ser “sua querida”, e com quem conseguir levá-lo até o jantar.  

Sem hesitação, Francisco responde exatamente daquilo pelo qual sente falta: “Da liberdade que eu tinha lá fora.” É um sentimental comum aos idosos por lá. Não com as mesmas palavras, mas com o mesmo peso. A limitação aparece em 100% dos relatos como uma das maiores perdas: a vida lá fora e principalmente, a rotina própria. Os detalhes mudam de pessoa para pessoa, mas há essa desconexão comum que nem os mais conformados com a situação conseguem negar. 

Esses fatores fazem com que muita gente, que não tem contato com instituições como essa, acredite que os idosos perderam o contato com a realidade e com a sociedade. E essa imagem de isolamento não vem só dos relatos, ela está enraizada no próprio nome pelo qual essas instituições ainda são conhecidas: os asilos. 

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O dilema de envelhecer 

A raiz histórica dos asilos inicia na Idade Média, período em que isolar indivíduos considerados indesejados, doentes, pobres ou aqueles que, de alguma forma, ameaçavam a ordem social era costume. Uma parte dessa herança pesa até hoje: o nome “asilo” ainda circula no vocabulário dos brasileiros, mas quase sempre de forma equivocada, carregado de estigma e destrato. Os próprios institutos evitam o termo. Preferem a denominação lar de idosos, casa de repouso, clínica geriátrica ou o antigo “ancionato”, simbolizando respeito. Foi apenas em 2005 que o Brasil formalizou uma nomenclatura oficial: Instituição de Longa Permanência para Idosos, a ILPI. 

A mudança de nome não foi apenas por protocolo, também reflete uma transformação em curso no país, uma que, décadas depois, se tornaria urgente: a progressão da legislação e da saúde pública, conforme a terceira idade muda. Hoje, diferentemente de gerações anteriores em que a vida adulta ocupava o centro das atenções, é a terceira idade que domina debates, políticas públicas, manchetes e produções multimídias. A razão disso é o envelhecimento da população brasileira que cresce em ritmo acelerado. Segundo os últimos dados divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), a proporção de pessoas com 60 anos ou mais subiu de 11,3% em 2012 para 16,1% em 2024. Em comparação, em 2022 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apurou que havia 80 idosos para cada 100 crianças, de zero a 14 anos, no Brasil. 

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Mas não necessariamente é uma notícia ruim, segundo o Dr. Mário Kato, médico geriatra com 20 anos de experiência, é preciso olhar para a taxa do envelhecimento com “bons olhos”, afinal se trata de uma melhora na saúde e qualidade de vida no Brasil. “Países da Europa demoraram mais de 100 anos para chegar nessa expectativa de vida que a gente chegou. O Brasil fez esse envelhecimento em menos de 20 anos”, explica. Kato destaca, ainda, que o país não estava pronto e segue sem preparativos para essa alta taxa de envelhecimento. “A gente chega com uma população mais envelhecida, sem estrutura, sem serviços. Então, os hospitais não estão preparados para lidar com o idoso, pronto-socorro não está preparado para lidar com o idoso, o transporte coletivo, os serviços da cidade, inclusive a gente não tem casas de repouso públicas para idosos”.  

Ao ser questionado sobre como isso afeta a sobrecarga dos lares de longa permanência, Mário Kato traz uma problemática. “Quando você tem um aumento do número de idosos precisando de cuidados, lógico que o mercado entende disso e por isso que surgem tantas casas para idosos. Só que para você abrir uma, precisa atingir os pré-requisitos necessários, muitas casas não atingem, então elas fazem isso de forma clandestina”, explica. 

E esses requisitos são necessários. A maioria dos idosos institucionalizados chega por motivo de saúde, e um lar de longa permanência precisa ter estrutura, profissionais capacitados e sensibilidade para o que essa transição representa. A rotina é extensa, cansativa e para o idoso é, muitas vezes, solitária e limitadora. 

Pense assim: durante décadas você foi adulto, autônomo, dono das suas decisões. Acordava, trabalhava, escolhia, resolvia. E então, em algum momento, isso muda. O que antes era simples passa a ser difícil, o que era rápido vira lento, e o que era seu começa a depender dos outros. Tudo aborrece, tudo cansa, tudo incomoda. Essa perda de controle não ocorre em silêncio, se transforma em raiva, atrito, brigas frequentes dentro de casa, onde qualquer coisa se torna dilema.

Todo dia, o mesmo dia 

É nesse cenário que Arlete*, de 94 anos, residente em um lar de idosos de Blumenau, fala sobre a saudade da sua vida anterior. Questionada sobre o que mais sentia falta da vida antes da mudança para o lar, a resposta estava na ponta da língua: a saudade da independência e da rotina. “Saía durante a semana com as minhas amigas. A gente ia para um shopping, tomar um café, tomar um sorvete”. A transição para a instituição alterou sua autonomia, pois anteriormente ela “dormia quando queria e acordava quando queria”, enquanto agora afirma que “tem que estar no ritmo daqui”. A rotina é pautada por horários fixos, onde o café da manhã ocorre às 8h, o almoço às 11h30 e o jantar às 17h30. Até o hábito de assistir à televisão torna-se restrito, pois, como ela explica, “tem uma turma que termina de jantar, sobe para dormir às 5h30 da tarde”, restando apenas ela e poucas outras residentes para assistir ao Jornal Nacional, que ela estava acostumada a assistir em casa.  

Não estar na própria casa e conviver com desconhecidos gera uma difícil adaptação, revelada pela mesma senhora que confessa: “No comecinho eu chorava escondido para ninguém ver”. Essa sensação de estranhamento inicial é reforçada por outra residente, Ivone*, de 79 anos, que admite que no começo não gostou da mudança por ser “tudo estranho” e por estar “no meio de gente estranha assim que tinha saído de casa”. Essa dificuldade de adaptação foi outro tema recorrente no relato de todos os idosos com quem conversamos. Deixar a sua casa, suas coisas, tudo que foi construído durante a vida, e, principalmente as pessoas com quem convivia não é fácil, mas aos poucos, todos foram encontrando novas pessoas para se apegar e a nova rotina foi virando costume.  

Para a psicóloga Franciele Bastos, graduada em Psicologia desde 2015 e atuante na área de envelhecimento, com foco em ILPI e no cuidado psicológico de idosos, esse processo costuma ser marcado por um sentimento de perda que vai além da mudança de ambiente. “Entre os principais impactos estão os sentimentos de ansiedade, medo, perda de autonomia e dificuldade de adaptação à nova rotina”, explica.. Essa adequação à rotina institucional exige que o idoso conviva com regras, horários e uma vida coletiva diferente da realidade que tinha em casa, o que pode afetar diretamente a sensação de autonomia e o papel que ocupava dentro da família. Franciele reforça, ainda, que muitos idosos também enfrentam um “processo de luto relacionado à perda do lar, da independência e do convívio familiar diário”, fazendo com que a saudade da vida anterior permaneça mesmo após o ajuste à nova rotina.   

Há diferentes motivos e histórias que levam idosos a serem internados nos lares. Uns foram por motivo de saúde, outros foram por escolha própria, para que “não atrapalhassem os filhos”, para “não ficarem no caminho de ninguém”. Então os lares podem ter significados diferentes para cada idoso lá hospedado, mas o sentimento de saudade da intimidade, identidade e decisões, não muda. 

Muitas delas realmente encontram no lar uma segurança após quedas ou doenças, mas o preço é a perda do convívio direto com os familiares e com seus objetos de afeto. 

Dona Dolores*, de 77 anos, embora se sinta “bem cuidada”, confessa que em alguns dias prefere se isolar em seu quarto: “Eu fico sozinha no meu quarto e não falo com ninguém”. Nesses momentos, ela processa a saudade da vida anterior, lembrando que em casa “você podia fazer o que você queria”, sentindo falta especialmente do seu cotidiano doméstico. “Sinto saudades da minha casa, do meu cachorro, eu gostava muito de flores e plantava muitas”, lamenta 

Segundo a psicóloga Franciele, muitos dos comportamentos relatados pelos moradores estão ligados à tentativa de preservar a própria identidade dentro da rotina nas Instituições. O isolamento em alguns momentos, a saudade da antiga rotina e a dificuldade em criar vínculos aparecem como reflexos da mudança brusca de ambiente e da perda parcial da autonomia.  

E esses transtornos na rotina e na vivência podem levar a mais complicações de saúde, e principalmente saúde mental. Segundo a pesquisa “O Diagnóstico Social da Pessoa Idosa de Blumenau”, elaborado pela Universidade Regional de Blumenau (Furb) em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semudes), no ano de 2025, a depressão é a segunda doença mais comum entre os idosos em casas de repouso, com 22,2%, evidenciando a dificuldade que pode ser a adaptação e aceitação com a chegada da idade. 

Mas há aqueles que encontram segurança e uma oportunidade nova, um recomeço, ou melhor, uma continuação digna. Na mesma casa do senhor Francisco, existe uma realidade completamente oposta. Aparecida* é sorridente e comunicativa, e um tanto contraditória, pois foi uma das idosas mais expressivas ouvidas pela reportagem. Ela adora contar histórias, mas não cultiva amizades na casa, pois, segundo ela: “Não quero gente, não gosto de tanta interação”. 

Para Aparecida, a casa de repouso foi um tipo de “benção”. Casada por 50 anos, teve três filhos e ela sempre esteve acostumada a ter companhia, compartilhou a vida, casa e costumes com o amor de sua vida. Quando ele faleceu, ela sentiu culpa. Continuar a viver uma vida sem o grande companheiro foi um sacrifício, mas ela ainda era ativa, amava ir até a academia, sair e viver de forma espontânea. Assim, buscou forças, se reergueu e decidiu ir morar com um dos filhos, mas não deu certo. E não foi por falta de apego e cuidado familiar, mas por interferência de vizinhos que acreditavam que ela não poderia viver “sozinha”. O termo “sozinha” era a alegria de Aparecida que na verdade só tinha interesses de lazer e saúde, ia a academia, ao shopping, passeava, mas para os vizinhos ela estava “largada”. Porém, para ela, o passado ficou onde devia: na memória. Agora, vive feliz no lar de idosos com seu canteiro de flores ao qual tem muito carinho e sua independência, mesmo que a custe a distância da família, que pode ver apenas a cada três meses. Ao preferir um lar de Blumenau, os filhos de outras cidades de Santa Catarina não puderam manter a presença física frequente, mas ligam para ela uma vez por semana, “um grande esforço deles de ainda conversarem comigo”, confessa. 

As mulheres são maioria nesses locais. No lar de Aparecida, 61% são mulheres, uma estatística que se mantém padrão nos demais lares da cidade. Segundo o geriatra Mário Kato, a informação não surpreende. “Há mais mulheres do que homens nas instituições, pois as mulheres possuem uma longevidade maior, enquanto os homens tendem a falecer precocemente devido à falta de autocuidado, infartos e acidentes. No entanto, existe uma particularidade nesse processo: embora as mulheres vivam mais, elas frequentemente chegam aos 90 anos enfrentando condições de saúde mais severas que impactam sua qualidade de vida”, explica. 

Arlete, de 94 anos, mostra como o envelhecimento pode afetar a autonomia mesmo quando não existem doenças mais graves associadas. Ela conta que nunca teve problemas como diabetes ou pressão alta, mas que perdeu a firmeza nas pernas por causa das varizes. “Eu só tenho as varizes na perna, que enfraqueceu, e eu não tenho muita firmeza”, relata.  

Hoje, dona Arlete fica quase que o tempo todo em uma cadeira de rodas, o que mostra como a dificuldade de locomoção mudou completamente sua rotina. Para evitar quedas, ela precisa de apoio constante para suas pequenas e raras caminhadas. “Então eu ando, mas caminho me apoiando em uma pessoa”, explica. Apesar disso, faz questão de continuar se movimentando e tentando preservar parte da independência que ainda possui.  

Para não perder totalmente a mobilidade, Arlete mantém acompanhamento particular com um professor de ginástica, já que a instituição não consegue proporcionar sozinha essa necessidade. Ela conta que, antes dos exercícios, o profissional a ajuda a caminhar pelos espaços do lar. “Eu tenho um professor que dá aula de ginástica à tarde, mas antes da aula ele me leva a andar. Eu preciso andar”, afirma. 

Essa necessidade de uma contratação externa pode ser comum em alguns lares. Uma casa de repouso deve, sim, fornecer profissionais especializados nas áreas de saúde necessárias para a terceira idade, como determina a Anvisa. Mas essa mesma regulamentação não obriga as casas de repousos a terem médicos, enfermeiros ou psicólogos fixos e, sim, uma equipe suficiente para os cuidados dos idosos. 

O geriatra Mário Kato reforça sobre essa organização e traz de exemplo do quadro de funcionários do Recanto das Cerejeiras, lar de onde é diretor. “Na minha casa eu tenho, eu como médico, tenho enfermeira, técnico de enfermagem, cuidador, nutricionista, cozinheira, pessoal da limpeza e lavanderia, administrativo e fisioterapeuta, tem toda uma estrutura de trabalho”, explica. 

Mas há também o “outro lado da moeda”, aquele que não é o principal, mas ocorre em Blumenau: lares clandestinos que fazem a administração de forma incorreta. “É terrível como em alguns a proprietária é a cozinheira, é a faxineira, ela contrata mais um ou dois funcionários e bom, está feito. Então, é abusivo para todo mundo, não é? Abusivo para o funcionário, abusivo para o paciente. Aí tu pega uma casa onde quem coordena o serviço é um técnico de enfermagem. Não tem mais ninguém, entendeu? Não tem fisioterapeuta, não tem nutricionista, não tem nada”, desabafa Kato.  

Há, em todo esse contexto de solidão e dificuldades, pessoas que fazem a diferença. É o caso de Jéssica, de 34 anos, que há 11 meses atua como assistente social. O carinho dela pela área surgiu ao ser parte de um grupo de voluntariado por cinco anos, onde todo mês ela visitava a mesma casa que hoje trabalha. Assim, foi ressurgindo a atenção pelos estudos e a vontade de finalmente se formar como assistente social. Hoje, a todo momento tem um paciente chamando por ela, muitas vezes pela necessidade do carinho e da atenção que alguém que conhece tão bem eles pode proporcionar.  

Para Jéssica o sentimento é positivo e pelo jeito dela de contar sobre cada um ali presente, evidencia também um sentimento de carinho. “Eu conheci a casa pelo grupo e isso me permitiu conhecer vários dos pacientes antes mesmo de entrar aqui e me inspirou, sabe? Sempre tive essa vontade e foi quando surgiu isso de virar assistente social”, explica. 

Kato destaca que, diferente de hospitais, as instituições de longa permanência criam conexões profundas: “Quando alguém vem trabalhar com os idosos, eles começam a se dar conta que esse apego é impressionante, eles se apegam mesmo. A gente conhece toda a história, a gente conhece os gostos, a gente conhece o mau humor, o bom humor, a gente conhece o dia que ele tá triste, o dia que ele tá feliz. Esse é um vínculo que se cria nos lares, que não se cria em outros serviços de saúde. Você vira quase da família. Você não é da família, mas você vira quase como se fosse”, conta. 

Essa conexão emocional e o suporte especializado citados pelo geriatra são o que a psicóloga Franciele descreve como essenciais para amenizar os impactos da institucionalização. Quando há um vínculo real com os funcionários e pacientes da casa de repouso, a experiência pode ser transformada. “Por outro lado, quando a instituição oferece acolhimento adequado, estímulo à socialização e cuidado humanizado, muitos idosos apresentam melhora na qualidade de vida, sensação de segurança, criação de vínculos e redução do isolamento social. O acompanhamento psicológico e o trabalho multiprofissional são fundamentais nesse processo de adaptação e bem-estar emocional”, explica. 

Há quem encontre esse vínculo de um jeito ainda mais inesperado, não como paciente e cuidador, mas como parceiros de vida dentro da própria instituição. Ao longo do dia, Fernando* e Mônica* não se desgrudam. Dividem o mesmo espaço na instituição onde vivem, e essa proximidade constante chamou a atenção da família. Em uma das visitas, a filha de Fernando, Sirlene*, notou que os dois estavam sempre juntos, depois ouviu a mesma observação dos cuidadores. O curioso é que o casalzinho de um dos lares de idosos de Blumenau tem, em comum, o mesmo diagnóstico, Alzheimer, um transtorno neurodegenerativo progressivo e a forma mais comum de demência.  

Para Sirlene, a aproximação foi inesperada. O pai havia passado praticamente toda a vida ao lado da esposa, com quem foi casado por 50 anos e teve três filhos. A morte dela por Covid-19, durante a pandemia, o deixou viúvo e mergulhado em depressão. Mesmo morando sozinho, ele recusava deixar a própria casa, mudar para perto dos filhos ou aceitar um cuidador. Aos poucos, começou a se perder em lugares conhecidos, a esquecer o que tinha acabado de viver. O diagnóstico de demência frontotemporal veio pouco depois, mas foi só depois de uma queda dentro de casa que a institucionalização se tornou inevitável.  

A mudança foi difícil para a família, mas a adaptação surpreendeu. Segundo Sirlene, antes de ir para a instituição, Fernando já esquecia de comer e perdia os próprios pertences. No novo ambiente, voltou a andar, passou a receber os cuidados de que precisava e retomou o convívio diário com outras pessoas. Foi nesse período que a relação com Mônica se fortaleceu. “A Mônica é uma pessoa especial, sempre muito carinhosa comigo, com ele e com a minha família”, conta.  

No início, Fernando temia que a filha não aceitasse o relacionamento por causa da memória da esposa. A reação foi o oposto, as duas famílias passaram a incentivar a convivência entre eles. Enquanto ele ainda conseguia sair da instituição, faziam passeios juntos, tomavam lanche, visitavam exposições, assistiam a apresentações de circo. Hoje continuam dividindo a rotina dentro da instituição, enquanto as famílias mantêm contato por visitas, ligações, fotos e pequenos gestos de carinho. Entre tantas lembranças que já não voltam, os dois parecem ter encontrado uma na qual ainda podem confiar, a presença um do outro.  

Mas não é só a nova realidade que deve ser levada em conta. Não há dia mais feliz para um idoso institucionalizado do que o dia de visitas. Além de ser um diferencial na rotina, é também a oportunidade de relembrar a vida fora da instituição. Dona Dolores conta animada que a filha a visita todas as sextas-feiras e que o filho aparece a cada 14 dias para levá-la em almoços, pescarias em lagoas e nos cultos aos domingos.  

Em muitos casos, o carinho aparece em pequenos gestos. Dona Ivone comenta que a filha costuma levar “coisinhas para comer”, como coxinhas e sobremesas. Outra residente conta que recebe do filho “doces diferentes” e frutas especiais para agradá-la.  

Quando a presença física não é possível, a tecnologia faz esse papel. Dona Ivone faz videochamadas frequentes com filhas e netas, enquanto Dona Arlete, de 94 anos, usa o celular para conversar com amigas e sobrinhas, recebendo fotos e notícias da família. Algumas instituições até incentivam esse contato, enviando vídeos e fotos da rotina dos moradores em grupos de família para aproximar os parentes do cotidiano vivido dentro do lar.  

Os relatos também mostram que a maioria dos idosos entendem as dificuldades enfrentadas pelas famílias para manter visitas frequentes. Trabalho, viagens e a rotina acelerada aparecem constantemente nas conversas como justificativas para a distância. Em alguns casos, essa percepção influenciou diretamente a decisão pela institucionalização. Dona Aparecida afirma que escolheu morar no residencial por entender que os filhos “têm sua vida própria” e porque não queria “atrapalhar” a rotina deles.  

Mas nem todos conseguem lidar da mesma forma com a distância familiar. Dona Lourdes  conta que possui parentes morando na mesma cidade, mas que eles raramente a visitam. Ainda assim, tenta aceitar a situação. “Se eles não me amam, eu amo eles”, diz.   

Segundo a psicóloga Franciele Bastos, a ausência desse convívio pode intensificar o isolamento emocional e afetar diretamente a autoestima dos idosos. Ela explica que as instituições acompanham constantemente esses vínculos e, quando percebem tristeza persistente ou sofrimento emocional, chegam a solicitar uma maior aproximação dos familiares. Em situações mais graves, a ausência total de visitas pode até ser entendida pela rede de proteção como abandono, exigindo intervenções para tentar restabelecer esses laços. Mas, nas instituições que visitamos, esse caso mais extremo parece ser raro, até mesmo pela fiscalização que o ocorre por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semudes) e do Conselho Municipal do Idoso, com a maioria dos institucionalizados recebendo algum tipo de visita, quando possuem familiares próximos. 

“Quando meu filho veio me deixar aqui, eu chorei por não querer ficar, ele chorou junto comigo e disse que não iria me abandonar”. Mesmo com o sofrimento do apego familiar, como conta Dona Margarida, os lares buscam dar total apoio e tentam fazer ao máximo com que todos se adaptem bem e rápido ao ambiente. 

O que fica quando o tempo passa 

Atualmente, Blumenau conta com 25 lares de repouso, compartilhadas em 16 bairros diferentes da cidade. Cada uma possui sua administração e controle próprio de funcionários, atividades e pacientes. Ofertando desde apoio a casos mais graves até os mais simples, tendo opções como chalés individuais, um no qual Dona Aparecida vive. Mas todos esses serviços ofertam valores e serviços diferentes dependendo de cada caso. 

Os valores cobrados pelos lares variam conforme o nível de dependência de cada idoso. Segundo a assistente social e coordenadora Ana*, a avaliação é feita pela escala Katz, utilizada para medir o grau de autonomia dos moradores. “Conforme o grau de dependência, eu mudo o valor”, explica. 

Os idosos no grau 1 são considerados independentes, conseguindo caminhar, tomar banho e se alimentar sozinhos. Já os de grau 2 precisam de algum auxílio nas atividades do cotidiano. No grau 3 estão os idosos totalmente dependentes, que precisam de ajuda para alimentação, higiene pessoal e locomoção. “Precisam de auxílio total: fralda, alimentação, precisam total de ajuda”, explica a equipe de um dos lares visitados. 

A administradora de outro lar, Edna*, afirma que a mensalidade “varia pelo grau de cuidado de cada uma”, ficando entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, dependendo da necessidade de atendimento. Em estruturas de enfermaria, essa diferença também existe, mas com valores ainda maiores. Segundo a responsável, enquanto um morador de grau 2 custa cerca de R$ 5,7 mil, um paciente de grau 3 pode chegar a R$ 7,7 mil por exigir acompanhamento mais intenso da equipe técnica. Além dos níveis tradicionais de dependência, alguns lares também oferecem “cuidados especiais, que seriam cuidados já paliativos”, comenta Edna. 

Para o geriatra Mário Kato manter um padrão de qualidade exige uma estrutura que muitas vezes o mercado não percebe. “Para atingir um padrão de qualidade tem custo. E é por isso que o retorno financeiro não é tão bom. Se a gente for pensar que eu tenho que cuidar de alguém, na forma correta, 24 horas por dia, eu tenho que contratar quatro pessoas no mínimo. Só isso é um custo de mais de 10 mil reais. Se tiver mais uma consulta será mais mil reais, se tiver que ter fisioterapia, [vamos se dizer] duas vezes por semana, mais seiscentos reais, mais enfermeiro… Então, se a gente for olhar o custo de um cuidado domiciliar, [é por volta de] 20 mil reais”, declara. 

Verba é uma complicação tanto para quem oferece o serviço para quem o compra. Mas não há problema maior para as instituições do que o estigma, rótulo ou crença social negativa associada a uma pessoa ou grupo, que leva à discriminação ou exclusão. 

As responsáveis pelos lares nos contam que uma das dificuldades enfrentadas pelas instituições ainda é superar a imagem negativa deixada pelos antigos asilos. Segundo elas, durante muitos anos esses espaços ficaram marcados pela ideia de abandono, funcionando como “depósitos de idosos”, sem os cuidados adequados e vistos como “uma coisa mais largada”. Essa imagem, construída ao longo do tempo, continua influenciando a forma como muitas famílias enxergam os residenciais para idosos atualmente.  

Responsável por um dos lares, Ana, explica que até o termo “asilo” passou a carregar um peso negativo, de tal forma que não deve ser mais utilizado em sociedade. “Não se chama mais asilo […] o nome que assusta”, afirma. Para ela, a realidade hoje é diferente da imagem criada no passado e defende que “não é abandono, é o contrário. É ter mais cuidado com eles”.  

Helena*, responsável por outro lar, é ainda mais firme ao tentar mudar essa visão. Segundo ela, existe um esforço constante para mostrar que os lares não são espaços de espera pela morte, mas ambientes de convivência e continuidade da rotina. “O idoso não está aqui para morrer. O idoso está aqui para ter uma vida normal, um cotidiano normal, uma rotina normal”, afirma. O objetivo, segundo ela, é mostrar que “aqui dentro tem vida e que tem vida gostosa de se ver”

Histórias como as de Aparecida, Francisco, Lourdes, Margarida, Arlete, Dolores e Ivone mostram a realidade de diversos idosos em casas de repouso, eles podem ter desmistificado sua visão sobre as instituições, como também podem ter mostrado a melancolia e tristeza que vive lá. Existe um ponto que nos mostra, que toda a nossa vida, independentemente de qualquer nível de carreira, relacionamento e relações afetivas que tivermos, nos leva a ter todo tipo de consequência e não há como se preparar, a música Paciência de Lenine, cantor e compositor brasileiro, de 1999, nos mostra isso de uma forma poética. “Será que é tempo que lhe falta pra perceber? Será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber?”.  

Encontrar paz com a vida que construímos pode parecer o caminho mais simples, mas talvez aceitar as aventuras, os desvios e os imprevistos ao longo da jornada nos concedam algo mais valioso: histórias para contar, mesmo que junto a elas possa vir uma tristeza quando estamos longe de um lugar que possamos chamar de nosso. 

Os nomes identificados com asterisco (*) são fictícios, utilizados para preservar a identidade dos entrevistados. 

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