Maus-tratos em Blumenau: os bastidores da luta pela reabilitação animal

Os desafios do resgate e a realidade da negligência animal na sexta cidade com mais denúncias de Santa Catarina

Por Ágata Cassiane Vaz Pereira

A morte de Orelha, cão comunitário que viveu por mais de uma década na Praia Brava, em Florianópolis, em janeiro de 2026, desencadeou uma onda de indignação que rapidamente ultrapassou os limites da capital catarinense. Em Blumenau, a repercussão do caso reacendeu o debate sobre a necessidade de leis mais rígidas de proteção animal, como a proposta que ficou conhecida como “Lei Cão Orelha”. Atualmente, a cidade está em um cenário preocupante: o município ocupa a sexta posição no ranking estadual de maus-tratos animais. O crescimento no número de denúncias aponta para uma sociedade mais atenta e revela a gravidade das situações enfrentadas diariamente pelos órgãos de proteção.

No Centro de Prevenção e Recuperação de Animais Domésticos (Cepread) e no Hospital Escola Veterinário da Furb, a rotina é marcada pelo resgate e acolhimento de animais em condições críticas, vítimas de maus-tratos extremos, como espancamentos, queimaduras e abandono.

Para além da indignação, a compreensão técnica do que constitui um crime de maus-tratos é fundamental para que a sociedade saiba o que denunciar, uma vez que o conceito é muito mais amplo do que a agressão física visível. Segundo a médica veterinária Isabelle Larsen Laus, responsável técnica pelo abrigo do Cepread, o cuidado começa no instante da chegada: todo animal passa imediatamente por uma avaliação profissional para definir a necessidade de exames complementares.

O protocolo inicial inclui a aplicação da primeira dose da vacina polivalente, além do fornecimento de vermífugos e antipulgas, itens essenciais para evitar surtos dentro das instalações coletivas. Isabelle esclarece que, após essa etapa de triagem, estando o animal em boas condições de saúde e apresentando comportamento sociável, ele é encaminhado para as baias coletivas onde convive com outros pacientes; caso contrário, o animal permanece em uma baia individual para tratamento e observação.

Contudo, as situações que motivam o resgate são variadas e frequentemente envolvem cenários de extrema degradação social e psicológica dos tutores. Júlia Vitória Machado, estagiária na Cepread, relata que os casos que chegam ao abrigo são complexos, envolvendo desde acumuladores de animais, pessoas que mantêm dezenas de bichos em espaços insalubres e sem suprimentos básicos, até situações de violência explícita. “São recorrentes as denúncias de espancamentos e mutilações deliberadas”, detalha.

Nesses casos críticos, os animais costumam chegar ao Cepread em estado de debilidade profunda, sem qualquer histórico de vacinação e com problemas de saúde que foram agravados pela total falta de atendimento veterinário prévio. Um exemplo marcante citado por Júlia foi o de uma cadela que perdeu a orelha devido a uma infestação de bicheiras que não foi tratada, uma consequência direta da negligência absoluta.

Apesar do trabalho intenso, um dos maiores obstáculos enfrentados pelos órgãos de proteção é a desinformação do público sobre o papel institucional do abrigo. Júlia destaca que muitas pessoas acreditam que o local funciona como um abrigo aberto para qualquer animal indesejado ou de rua. Na realidade, o Cepread não recolhe animais de forma indiscriminada; a maioria dos cães e gatos presentes no abrigo são frutos de fiscalizações onde houve comprovação de maus-tratos e o animal não pode retornar ao antigo dono por questões de segurança.

Essa incompreensão gera uma cobrança excessiva sobre as instituições, muitas vezes sem que a população compreenda as limitações estruturais e operacionais de um órgão público que lida com alta demanda administrativa e financeira. Essa sobrecarga administrativa é reflexo de um volume constante de ocorrências; Júlia estima que, apenas no último ano, entre 10 a 20 casos chegaram ao abrigo envolvendo o resgate de vários animais simultaneamente.

Além da complexidade dos resgates, o órgão precisa lidar com a pressão pública por atendimentos que fogem de sua competência legal, já que o Cepread não realiza consultas de rotina para animais que possuem tutores estáveis, reservando seus atendimentos clínicos para situações de vulnerabilidade social ou animais comunitários. Quando o público utiliza a frente da instituição como um ponto de descarte, abandonando animais sob o pretexto de que ali eles serão cuidados, ignora o fato de que cada nova entrada não planejada compromete o espaço e os recursos destinados àqueles que foram retirados de situações de violência extrema comprovada.

Para além das feridas físicas, o impacto dos maus-tratos deixa marcas profundas no animal, o que exige um trabalho de ressocialização delicado. Muitos animais chegam ao abrigo com traumas tão severos que demonstram pavor absoluto do contato humano, apresentando reações involuntárias de estresse, como urinar ou defecar de medo ao serem tocados. Júlia compartilha a história de um cão resgatado que apresentava tremores constantes e extrema dificuldade de aproximação devido às violências sofridas.

Por outro lado, ela menciona que, apesar de todo o histórico de dor, muitos animais demonstram uma capacidade de superação surpreendente, tornando-se dóceis assim que percebem que estão em um ambiente seguro e com alimentação garantida. Como exemplo, o caso marcante de uma cadela resgatada em estado severo de desnutrição e com a pele devastada por alergias graves a pulgas, que, apesar do histórico de descaso, manteve um comportamento dócil e afetuoso desde o primeiro dia de abrigo. Essas trajetórias reforçam que a reabilitação em Blumenau é uma tentativa diária de reconstruir o elo de confiança entre o animal e o ser humano, um trabalho que exige tempo e uma sensibilidade que os protocolos clínicos, por si só, não conseguem suprir.

Para garantir que o auxílio chegue a quem realmente precisa, o município estabeleceu canais de comunicação que permitem a organização administrativa dos recursos. A Cepread orienta que a população deve registrar as ocorrências por meio da ouvidoria, utilizando o número 156. Para o atendimento de animais comunitários, aqueles que vivem na rua mas são cuidados por moradores locais, o solicitante deve fornecer um resumo da situação e, se possível, conter o animal em segurança para que a equipe possa realizar o atendimento no local. A prioridade é o atendimento no próprio lugar com fornecimento de medicação, mas, caso sejam necessários exames mais complexos ou internação, o animal é prontamente encaminhado para as clínicas credenciadas, como a da Furb.

A parceria entre o poder público e as instituições de ensino é o que permite que o atendimento especializado chegue aos animais mais vulneráveis de Blumenau. O Hospital Veterinário da Furb, por exemplo, atende tanto casos particulares quanto animais encaminhados pelo sistema público, incluindo pets de tutores cadastrados no CadÚnico. No caso de animais de rua ou vítimas de maus-tratos, o encaminhamento é feito obrigatoriamente via órgãos de fiscalização e canais oficiais de denúncia.

Caroline Isadora Ferreira, estagiária do hospital, explica que os animais resgatados costumam apresentar um quadro de desnutrição severa, baixo escore corporal e ferimentos diversos. Ela também aponta que a infestação por carrapatos e pulgas é quase onipresente nesses resgates, o que frequentemente leva a quadros de anemia, uma das condições clínicas mais comuns observadas nos atendimentos de urgência do hospital.

Além disso, a estagiária do hospital ressalta que em suas experiências clínicas muitos casos atendidos são frutos de abandono ou negligência severa, e não necessariamente de violência direta: “Deixar o animal preso por longos períodos em espaços inadequados ou privá-lo de água e comida são formas graves de maus-tratos”. Um exemplo recente atendido por ela foi um cão com ferimentos profundos no pescoço causados por uma corrente apertada, evidenciando como a falta de zelo básico causa danos permanentes.

Na visão desses profissionais, a raiz do problema de abandono em Blumenau está diretamente ligada à falta de controle populacional e à resistência cultural à esterilização, Caroline defende a castração como a medida preventiva mais eficaz para reduzir o número de animais abandonados nas ruas. Além do controle de natalidade, ela explica que o procedimento evita doenças graves como infecções uterinas e câncer de mama. A estagiária critica severamente o uso de métodos químicos inadequados, como as aplicações hormonais para evitar o cio, que são extremamente prejudiciais e podem trazer consequências fatais para as fêmeas. Entretanto, muitos tutores evitam a castração por falta de informação ou responsabilidade, o que acaba gerando ninhadas indesejadas que, inevitavelmente, alimentam as estatísticas de abandono na cidade.

Mesmo com todo o esforço de reabilitação, o fluxo de saída do abrigo é lento devido às preferências do perfil dos adotantes, o que gera um impedimento no sistema. A adoção responsável é o maior desafio após a recuperação física, pois, grande parte dos animais disponíveis são de grande porte, idosos ou possuem alguma condição crônica de saúde, características que costumam afastar os interessados. Por essas questões, o uso das redes sociais tornou-se uma ferramenta indispensável; o perfil “Vida no Abrigo”, no Instagram, é utilizado para divulgar as histórias e fotos dos animais recuperados, tentando sensibilizar novos tutores para que deem uma chance àqueles que já sofreram tanto.

De acordo com as profissionais entrevistadas, o impacto emocional também é significativo, afinal, o sucesso de suas funções depende de uma conscientização coletiva que ainda caminha a passos lentos. Lidar com esses casos exige um preparo psicológico constante para manter o rigor técnico sem perder a empatia. A violência contra animais sempre existiu, mas o fortalecimento das leis e a vigilância social deram voz ao problema. No fim das contas, a solução definitiva só virá quando a legislação for cumprida com rigor e a educação para o bem-estar animal for, enfim, tratada como prioridade pública.

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