Avanço da monocultura da soja traz impactos para a vida rural
Por Lucas Guerega
O novo paradigma produtivo
O estado de Santa Catarina sempre foi conhecido por suas pequenas propriedades e por uma agricultura familiar cheia de diversidade. Porém, quem viaja pelo interior do estado hoje encontra uma paisagem diferente. Nas últimas décadas, e com muito mais força nos últimos 12 anos, os campos catarinenses vêm sendo tomados pela monocultura da soja. Não se trata apenas de trocar a semente na hora de plantar; é uma mudança completa na economia, na vida das famílias rurais e na saúde da terra.
Esse crescimento impressionante das plantações de soja é um sucesso econômico claro, puxado pela fome do mercado mundial e pelos bons preços que o grão alcança fora do Brasil. No entanto, esse mar de soja não avança sem deixar marcas. A soja é fundamental para garantir a produção gigante de carnes (frangos e suínos) no estado, mas trocar a diversidade de alimentos por enormes campos de uma única planta gera efeitos colaterais na terra, nos rios e nas pessoas.
Cria-se, assim, uma espécie de cerca invisível. O pequeno agricultor que tenta manter sua horta e seus animais se vê ilhado no meio de gigantescas plantações banhadas a agrotóxicos. Pressionado e sem conseguir manter sua produção tradicional, ele acaba vendendo a terra, engrossando a fila de pessoas que deixam o campo para buscar a vida nas cidades.
Nesta reportagem, vamos entender como essa transformação está acontecendo, ouvindo especialistas e analisando os dados mais recentes. A ideia é compreender as razões do produtor, o desgaste da terra, a pressão que o consumidor da cidade exerce sobre o campo e, acima de tudo, buscar soluções para que a força do agronegócio não destrua o meio ambiente e as famílias que fizeram a história de Santa Catarina.
Dinheiro no bolso, mas concentrado
A agricultura de Santa Catarina tem mostrado uma força impressionante. Em 2025, o Valor da Produção Agropecuária (VPA), que é a soma de toda a riqueza gerada no campo, bateu um recorde histórico, chegando a quase R$ 75 bilhões. O estado não só produziu mais alimentos como conseguiu vender a preços melhores.
A base dessa riqueza é a criação de animais. A venda de suínos, frangos e leite representou mais de 60% de todo esse valor. O estado é o maior produtor de carne de porco do Brasil e o segundo de frango. É justamente essa imensa quantidade de animais que cria um mercado garantido para os grãos: porcos e frangos precisam de muita ração, e a ração é feita de milho e soja.

Tabela 1: Resumo da renda gerada no campo catarinense. Dados mostram como a economia depende de poucos produtos.[1]
[1] Fonte: Dados extraídos do Boletim Técnico Nº 230 – Desempenho da Agropecuária e do Agronegócio de Santa Catarina: 2025, elaborado pela Epagri/Cepa com base em levantamentos próprios e estatísticas do IBGE.
Apesar da imagem de que Santa Catarina produz de tudo, a realidade é que o dinheiro está concentrado. Apenas seis produtos (suínos, frangos, leite, soja, tabaco e bovinos) geram quase 70% de todo o dinheiro do campo. A soja reina absoluta entre as plantações: gerou R$ 6,78 bilhões sozinha em 2025. O problema de depender tanto de poucas culturas é que o estado fica mais vulnerável se houver uma grande seca ou se o preço internacional despencar.
A riqueza da soja vem, primeiramente, do aumento das terras plantadas. Em 2012, o estado tinha cerca de 300 mil hectares de soja. Hoje, já são quase 830 mil hectares, com a produção crescendo 93% nessa última década.
Além das novas fronteiras, redutos tradicionais como o Oeste de Santa Catarina continuam expandindo com força, impulsionados pela proximidade das fábricas de ração das grandes agroindústrias locais.
As exportações do estado
Santa Catarina vendeu quase US$ 8 bilhões em produtos do agronegócio para outros países em 2025. Esse valor absurdo representa 65% de tudo o que o estado exportou, provando que a economia catarinense respira agricultura.
A liderança é, novamente, das carnes. O estado sozinho exporta mais da metade (51,8%) de toda a carne suína vendida pelo Brasil para o exterior. E o destino de grande parte disso, incluindo a soja em grão e os frangos, é a China. A força de compra do mercado chinês é tão grande que acaba ditando o que o agricultor catarinense decide plantar em sua pequena propriedade rural.
Avanço da monocultura
A soja não cresce apenas em terras novas; ela está devorando as plantações de milho. Antigamente, o produtor plantava soja num ano e milho no outro, fazendo uma rotação que mantinha a terra saudável. Hoje, os motivos financeiros falam mais alto, e o milho está perdendo a guerra.
O professor da Universidade do Estado de Santa Catarina, doutor em agronomia pela Universidade Estadual de Iowa e engenheiro agrônomo Luis Sangoi é categórico sobre essa transformação no campo: “Nós evoluímos aí de uma área de 200 mil hectares que tínhamos há 40 anos atrás, hoje temos uma área de 820 mil hectares de soja em Santa Catarina”, relata. “A área cultivada com milho, que normalmente era cultivada em rotação com a soja, ela tem diminuído ano a ano. Então o produtor tem optado por plantar soja todo ano e deixar do milho de lado.”
Para Sangoi, a decisão do produtor é puramente econômica e de segurança frente ao clima imprevisível. “Por que o produtor tem plantado só soja e deixado o milho e outras culturas de lado?”, questiona o especialista. “Porque o milho é uma cultura mais cara para você implantar a lavoura do que a soja, porque o preço pago pelo grão de soja é melhor do que o preço pago pelo grão de milho, então isso gera uma receita por hectare no curto prazo melhor da soja em relação ao milho.”
A soja, além de mais barata para plantar (porque não precisa de tanto adubo nitrogenado como o milho), aguenta melhor a falta de chuva. Se faltar água na época de floração, a lavoura de milho se perde; já a soja consegue segurar as pontas e voltar a crescer quando a chuva retorna. Diante do risco, o produtor prefere a segurança financeira da soja.

A cerca invisível: o sufoco das famílias rurais
Esse mar de soja gera um grave problema social: a criação da de uma cerca invisível.
Quando grandes produtores compram terras e começam a plantar soja em todos os lados, a pequena chácara que planta feijão, cria vacas e colhe verduras fica ilhada. O problema é que a soja moderna precisa de aplicações constantes de veneno (herbicidas, fungicidas). Quando os tratores passam aplicando esses produtos, o vento joga o agrotóxico para as terras vizinhas. O veneno polui a água e prejudica a saúde dos animais e das pessoas.
Sem conseguir produzir sua comida em paz e sofrendo com a poluição, a família se vê prensada. A terra perde seu valor para quem quer viver ali, e a única saída acaba sendo vender a propriedade para o vizinho que planta soja. É um processo silencioso que obriga as pessoas a deixarem o campo.
Isso se junta a um outro problema: os jovens não querem mais a vida difícil do campo. Com os filhos indo para a cidade estudar e buscar emprego, os agricultores mais velhos acabam se rendendo e arrendando ou vendendo a terra para as máquinas da monocultura. O resultado é que as cidades ficam superlotadas, precisando gastar muito mais com escolas e hospitais para atender essa nova população, enquanto o interior vai virando um deserto onde só moram tratores.
O custo de plantar só soja
Plantar soja todo ano no mesmo lugar sem colocar o milho no meio faz a terra sofrer muito. O milho deixa cerca de 10 a 12 toneladas de restos de plantas secas (a palhada) por hectare, formando um cobertor grosso que protege o solo. A soja deixa no máximo 4 toneladas, uma palhada muito rala que se decompõe rápido, explica Sangoi.
Sem esse “cobertor”, o sol castiga a terra e a chuva bate direto no solo, quebrando os torrões e transformando a superfície em uma espécie de asfalto liso. A água não consegue penetrar, escorre com força e causa erosão, levando embora a terra boa e os fertilizantes.
Além disso, como não há o “cobertor” macio de palha e as raízes agressivas do milho para furar a terra, as máquinas gigantes (tratores e colheitadeiras) esmagam o solo quando passam, ainda mais se a terra estiver molhada. O chão fica tão compactado e duro que as raízes das plantas não conseguem descer para buscar água. Quando dá uma pequena seca, a planta já sofre.
O solo rico e a necessidade de adubo
O Oeste de Santa Catarina é abençoado com terras muito férteis por causa de sua origem geológica. No entanto, a agricultura intensiva funciona como uma mineração: retira nutrientes sem parar até esgotar as reservas.
O geólogo Eloir Maoski, da Defesa Civil de Blumenau, explica de forma simples de onde vem essa riqueza natural: “O solo, dependendo do tipo da rocha que ele se originou, ele vai ter diferentes características”, detalha o especialista. “Por exemplo, um solo mais rico que ocorre também aqui na parte oeste, Santa Catarina… é proveniente da desagregação do basalto, o basalto gera um solo muito rico.”
O problema, segundo ele, é que focar em apenas uma planta esgota a terra. “A monocultura acaba intensificando a absorção de determinados nutrientes, então aquela planta absorve sempre aqueles tipos de nutrientes… e isso vai ocasionar o empobrecimento do solo em determinados elementos”, alerta Eloir.
A saída para não perder a colheita em um solo cansado é injetar fertilizante químico. Isso cria uma dependência de outros países que pode ser perigosa para o Brasil e encarece a comida. “O Brasil é altamente dependente, ele necessita da importação desses insumos agrícolas, principalmente hoje do Canadá, da Rússia, ele importa muito com esses adubos”, conclui o geólogo.

Eloir também esclarece que, em relação aos temidos deslizamentos de terra (comuns no estado), a agricultura por si só não faz o morro cair. O deslizamento ocorre porque há cortes e falhas nas rochas profundas. Porém, quando se desmata a vegetação nativa para fazer lavouras fracas, a chuva arrasta a terra e facilita a erosão, deixando a área ainda mais vulnerável a desastres, especialmente em morros íngremes como os do Vale do Itajaí.
O papel do consumidor
Quando olhamos para a poeira e os agrotóxicos expulsando os pequenos produtores, é fácil apontar o dedo apenas para o produtor de soja. Mas o problema é muito mais complexo e começa nas prateleiras dos supermercados nas cidades.
O engenheiro florestal e professor da Universidade Regional de Blumenau (Furb), Rubens Marschalek, doutor em Ciências Agrárias pela Universidade de Göttingen, propõe uma reflexão mais dura sobre a responsabilidade de todos nós. “Você tem aí um mercado consumidor que quer ir ao mercado, comprar frango a preços módicos e carne de proteína suína de graça, é, mas não quer que se tenha um efeito negativo, não quer que se tenha monocultura de soja. É impossível”, dispara o professor.
Rubens lembra que a agricultura brasileira é uma das mais eficientes do mundo, produzindo comida em abundância. E as críticas ambientais vindas da cidade soam, para ele, um tanto hipócritas, já que as metrópoles causam danos irreparáveis à natureza com lixo e esgoto. “Nós somos uma monocultura, nós somos sapiens, né, …, nós somos 600 mil pessoas de uma mesma espécie acabando com o meio ambiente numa cidade”, compara.
O “deus mercado”, como ele menciona, exige produtos baratos. Experiências com arroz orgânico, por exemplo, mostram que o consumidor comum frequentemente prefere a opção mais barata (e cultivada com agrotóxicos) do que pagar a mais pelo produto ecológico. Portanto, a monocultura não é apenas a ganância do agricultor; é o método que o campo encontrou para entregar a carne barata que a cidade exige todos os dias.
Caminhos e soluções para o futuro
Se não podemos parar de plantar soja, já que a economia e nossa alimentação dependem dela, o que pode ser feito? A saída está em aplicar a ciência para recuperar a saúde do solo.
A principal regra é o retorno da rotação de culturas. O agricultor precisa intercalar a soja com plantas de cobertura, como aveia e milheto. Essas plantas criam raízes muito fortes que agem como “arados naturais”, quebrando o solo compactado pelas máquinas. Além disso, elas geram a palhada grossa necessária para proteger a terra do sol e da chuva.
Outra inovação são os bioinsumos. Em vez de usar produtos químicos importados caríssimos para fornecer nitrogênio para a soja, a ciência brasileira descobriu como aplicar bactérias naturais nas sementes. Essas “bactérias do bem” capturam o nitrogênio do ar e o entregam para a planta. Isso já gera uma economia de bilhões de dólares no Brasil e evita que milhares de toneladas de poluição sejam jogadas na atmosfera. Essa mesma tecnologia está avançando para criar biodefensivos, reduzindo a necessidade dos venenos que afetam os vizinhos. O governo do estado em o programa Terra-Boa traz para os agricultores um auxílio para o aumento da produtividade em suas lavouras. Com ele os produtores têm acesso a sementes e insumos para melhorar e aumentar a diversidade da sua produção, além da assistência técnica da Epagri e com o “kit solo saudável”, com insumos para correção de solo, sementes de plantas de cobertura, usadas para fixação de nitrogênio, descompactação do solo e proteção contra erosão, e fertilizantes. E o governo também trata com novas regras de seguro rural (como o Zarc Níveis de Manejo) vão dar descontos maiores para o produtor que cuida bem da terra e não faz monocultura. Dessa forma, o governo incentiva financeiramente quem protege o solo, tornando a sustentabilidade mais vantajosa para o bolso do agricultor.