Prática e Permanência: como o estágio deixou de ser currículo para virar identidade

Mais do que um requisito curricular, o estágio tem se mostrado uma ferramenta decisiva na formação profissional e pessoal. Mas, enquanto alunos avançam na prática, gestores apontam contratos cada vez mais curtos e um descompasso entre jovens e empresas.

Por Eric Baumgartner

Natasha Rodrigues tem 18 anos e um sorriso que entrega o entusiasmo de quem acabou de descobrir um novo mundo. Estudante de Publicidade e Propaganda, ela completa um ano de atuação na Pró-Família, em Blumenau. O que começou como o “básico do básico” se transformou em um processo de redescoberta. A história de Natasha não é isolada; ela ilustra um cenário crescente em que o estágio deixa de ser apenas uma obrigação de carga horária para se tornar o eixo central da formação universitária.

Mas nem toda travessia entre a sala de aula e o mercado é tão suave quanto a de Natasha. Enquanto ela celebra uma oferta para estagiar na Secretaria de Comunicação Social (Secom), um salto conquistado em menos de um ano, os números contam uma outra face dessa relação. De acordo com Rodrigo Schmitt de 44 anos, gestor do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) na região de Brusque e Blumenau, a duração média dos contratos de estágio encolheu drasticamente. “Hoje a gente tem uma média de cinco a seis meses”, afirma. O tempo é pouco mais da metade do que se via há alguns anos, e fica muito inferior aos dois anos permitidos por lei.

Foto por Eraldo Schneider

O choque geracional

Foto por CIEE

A queda, segundo Rodrigo, não reflete despreparo técnico dos jovens. “O jovem hoje tem muito conhecimento. Ele chega com muito mais material intelectual do que antigamente”, conta. O que muda, e o que tem provocado desligamentos precoces, é o perfil. O estagiário de agora questiona, sugere caminhos diferentes e já chega com uma bagagem de informações que, em outros tempos, levaria anos para ser acumulada.  O problema, na visão do gestor, é que o mercado não conseguiu acompanhar essa transformação no mesmo ritmo. “Existe um choque de geração entre quem está no mercado de trabalho e recebe os estagiários para treinar, e o perfil do novo jovem”, resume. Rodrigo afirma que o perfil do novo estagiário que está iniciando o mercado de trabalho mudou muito nos últimos 20 anos.

Para além do choque de gerações, Rodrigo destaca que o estágio cumpre uma função social que assegura a educação. Em um cenário de mensalidades e custos de vida elevados, a bolsa-auxílio se torna, muitas vezes, a barreira que separa a continuidade dos estudos da desistência. “O estágio hoje talvez seja a maior ferramenta do Brasil para evitar a evasão escolar”, defende. Porque se o estudante para de estudar, ele perde o direito de estagiar. Assim, a bolsa que ajuda a pagar o boleto da faculdade ou as contas de casa, acaba blindando a formação acadêmica contra o abandono profissional precoce.

Contudo, para que essa engrenagem funcione pelo lado de quem assina o termo de compromisso e garante a bolsa, mapear a visão dos recrutadores se torna indispensável. Se por um lado o estudante precisa do recurso para seguir estudando, relatórios de tendências de Recursos Humanos divulgados por consultorias como a Robert Half e a Deloitte indicam que, para fazer com que eles permaneçam na empresa, o mercado precisa lidar com o descompasso geracional. De acordo com esses levantamentos, o maior desafio atual apontado por gestores de grandes empresas não está na capacidade técnica dos universitários, mas sim no alinhamento de expectativas em relação ao plano de carreira e à velocidade de crescimento profissional.

É entre a sobrevivência financeira e o desejo de crescer que o estágio revela sua face mais complexa: uma passagem ainda oscilante. Ao mesmo tempo em que o estágio acentua descobertas como a de Natasha e oferece aos universitários aquilo que a sala de aula sozinha não consegue entregar, ele também revela uma ponte instável. De um lado, jovens ansiosos por aplicar ideias e aprender na prática. De outro, empresas ainda amarradas a métodos e hierarquias que nem sempre sabem o que fazer com essa autonomia antecipada.

A marra da prática

Foto por Talita Hañani

A acadêmica de Jornalismo Talita Kehl, de 20 anos, escancara como o estágio aplica aquilo que a faculdade não consegue mostrar. “Basicamente tudo o que a gente aprende em sala de aula, no estágio é na prática”, diz ela, que já está no seu segundo estágio. “Você vai ter que aprender na marra. Tem coisas que você não aprendeu na sala de aula, você com certeza vai aprender no estágio.” Para ela, a repetição diária transforma o aprendizado em algo automático, uma frequência que a faculdade, com seus prazos semestrais e atividades simuladas, dificilmente alcança.

Essa realização no dia a dia no profissional, contudo, não molda apenas a técnica.  Ela liberta o estudante não apenas para o mercado, mas também para as pessoas. No ginásio da universidade ou no balcão de uma academia, o aluno do sétimo período de Educação Física, Gustavo Fucht, percebeu que o impacto do estágio vai além do currículo: se trata de perder o medo.

Com quase dois anos de experiência, Gustavo já transita entre o estágio interno na Prática Desportiva (PDE) e a atuação externa em academias. Para ele, o grande ganho foi a desenvoltura no atendimento ao público e o networking. “Às vezes, quem não estagia não tem esse contato. Quando for atender alguém, vai travar”, observa. A vivência prática foi tão decisiva que alterou sua própria visão profissional: o contato direto com coordenadores e a rotina de liderança despertaram um interesse pela gestão, área que ele agora pretende seguir após a formatura.

O diferencial de quem “não trava”, como define Gustavo, é exatamente o que as empresas de TI e inovação da região estão buscando. Em Blumenau, o cenário corporativo vem amadurecendo para processos seletivos que privilegiam a comunicação assertiva e a inteligência emocional. Não se trata mais apenas de preencher uma vaga, mas de encontrar alguém que se encaixe na cultura da empresa. Para garantir isso, muitas organizações já investem em treinamentos in company e pesquisas de clima, tentando moldar o perfil desse novo estagiário logo na entrada. Esse modelo de contratação olha para além do currículo: busca-se o jovem capaz de navegar em ambientes de pressão, utilizando o estágio como um período de treinamento intensivo de competências comportamentais.

Essa procura por profissionais resilientes e comunicativos gerou uma mudança estrutural na forma como as empresas medem o sucesso de seus programas de entrada. Se antigamente apenas o estagiário era avaliado, hoje o cenário em Blumenau revela a ascensão das Pesquisas de Clima voltadas especificamente para este público. Nessas avaliações, o jovem inverte o papel: ele analisa a cultura da empresa, a qualidade do suporte recebido e a abertura para inovação.

Esse movimento está relacionado diretamente com a análise de Rodrigo Schmitt sobre o perfil do “novo jovem”. Para o gestor do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), o fato de o estagiário atual questionar e sugerir caminhos não é uma indisciplina, mas uma característica da geração que busca propósito. Quando uma empresa de tecnologia local abre espaço para que o estagiário aponte falhas no ambiente de trabalho, ela está, na verdade, validando essa independência citada por Rodrigo.

Para o gestor entender o jovem, ele conduz uma pesquisa de clima organizacional, que é uma ferramenta estratégica de RH, geralmente aplicada por meio de questionários anônimos, que mede o nível de satisfação, engajamento e a percepção dos colaboradores sobre o ambiente de trabalho.

Mapeamentos realizados com profissionais de RH de organizações de tecnologia e serviços, setores com forte presença no Vale do Itajaí, indicam que o papel das lideranças precisou passar por uma transição forçada: o modelo de chefia tradicional perdeu espaço para a figura do gestor mentor. Em pesquisas sobre o ambiente corporativo, recrutadores pontuam que o universitário atual chega ao mercado dominando ferramentas digitais avançadas e com o desejo de gerar impacto rápido, o que exige das empresas uma busca por perfis que equilibrem essa energia com competências comportamentais, como o trabalho em equipe e a inteligência emocional.

Em contrapartida, para conter o esvaziamento de contratos e os desligamentos precoces observados pelo gestor do CIEE, o próprio mercado tem sido obrigado a flexibilizar processos e hierarquias. Análises de comportamento organizacional demonstram um consenso entre os profissionais de atração de talentos: em centros com alta oferta de vagas e concorrência acirrada, como o polo tecnológico de Blumenau, se o estudante não encontrar um ambiente de trabalho que ofereça segurança psicológica e espaço para que sua voz seja ouvida, a migração para outra empresa acontece com rapidez e facilidade.

Na prática, essa ferramenta estabelece o que especialistas chamam de “via de mão dupla”. Ao abrir canais de feedback, a empresa deixa de avaliar apenas o desempenho do universitário para analisar a capacidade de liderança de quem o recebe. O choque de gerações mencionado por Rodrigo ganha, aqui, uma solução comprobatória: a pesquisa de clima ajuda a identificar se o gestor “antigo” está realmente preparado para o papel de mentor. Afinal, para que o estagiário não se desligue precocemente, combatendo a estatística de apenas seis meses de contrato, é necessário que o supervisor saiba acolher o questionamento e o conhecimento que esse novo perfil traz de casa.

Essa mudança faz com que o estágio sirva para medir como a própria empresa ensina. Se o estudante trava ou perde o interesse, o erro pode não ser dele, mas de um sistema de trabalho muito rígido que não aceita novas ideias. A pesquisa de clima vira, então, o registro que mostra se a ponte entre o esforço dos alunos e a organização das empresas está sendo construída por todo mundo, e não apenas pelo estagiário.

Entre a margem e a travessia: O que o vem depois do estágio

A ponte final desse processo atende pelo nome de efetivação. Pesquisas do setor de recursos humanos indicam que manter um ex-estagiário custa até 40% menos para as empresas do que abrir um processo seletivo externo para profissionais já graduados. Na região de Blumenau, o índice de estagiários que são contratados em regime CLT após o término do período letivo atua como o verdadeiro indicador de sucesso das parcerias entre universidades e corporações.

Daqui a pouco tempo, os crachás de estagiários darão lugar aos diplomas e aos registros profissionais definitivos. É um ciclo que se encerra para abrir caminho para o futuro: para Natasha, Talita e Gustavo, a carreira já começou antes do diploma. Ela ganhou corpo no primeiro atendimento ao público que exigiu paciência, na primeira pauta jornalística feita sob o relógio do fechamento, ou na primeira sugestão criativa que precisou de coragem para ser dita em uma reunião de veteranos. O crachá de estagiário, que tantos tratam como um degrau menor na escada profissional, se mostrou, na prática, um passaporte.

Essa transição, no entanto, deixa um recado claro para as instituições de ensino e para as corporações. A experiência desses três estudantes reforça que a universidade fornece o mapa, mas é o mercado que apresenta o terreno, com as suas nuances e obstáculos. Eles aprenderam que o erro no estágio é, na verdade, um investimento educacional, e que a resiliência desenvolvida em seis meses de contrato pode valer por anos de teoria isolada.

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