Projetos de base, competições nacionais e novos atletas têm a capacidade de transformar a cidade em um dos polos emergentes da modalidade em Santa Catarina
Por Maria Eduarda Tamazia Raimundo
Em ginásios espalhados ao redor do mundo, o tênis de mesa deixou há muito tempo de ser apenas uma prática recreativa. A modalidade se transformou em um dos esportes mais rápidos, técnicos e competitivos do cenário olímpico, historicamente dominado por potências asiáticas, especialmente a China. Nos últimos anos, a profissionalização do circuito internacional, o crescimento das transmissões digitais e a popularização de atletas ajudaram a ampliar o alcance global do esporte. Competições como a Copa do Mundo, o Campeonato Mundial e o circuito World Table Tennis (WTT) passaram a ganhar espaço também fora do eixo asiático.
Esse movimento encontrou no Brasil um momento de valorização crescente das modalidades olímpicas fora do futebol. Nos últimos anos, o tênis de mesa brasileiro ganhou espaço no noticiário esportivo impulsionado por resultados inéditos em competições internacionais. O principal símbolo desse avanço é Hugo Calderano. Em abril de 2025, o carioca conquistou a inédita Copa do Mundo de Tênis de Mesa ao derrotar três atletas chineses consecutivamente, incluindo o então líder do ranking mundial, Lin Shidong, tornando-se o primeiro atleta das Américas campeão da competição. Meses depois, ainda alcançou a final do Campeonato Mundial em Doha, no Catar, resultado inédito para o país. No feminino, Bruna Takahashi também passou a ocupar espaço entre os principais nomes da modalidade ao atingir a melhor posição já registrada por uma brasileira em escala mundial, sendo a número 16 do ranking.
Competições organizadas pela Federação Catarinense de Tênis de Mesa passaram a reunir centenas de atletas durante a temporada, ajudando a consolidar o estado como um dos mais ativos da modalidade na região Sul. A circulação maior de torneios e equipes também contribuiu para descentralizar o esporte para além das capitais e dos grandes centros tradicionais. Dentro desse cenário, Blumenau começou a ocupar espaço cada vez mais relevante.
Em março de 2025, a cidade sediou a primeira etapa do Circuito Catarinense de Tênis de Mesa, reunindo mais de 400 atletas de diferentes regiões do estado. Poucos meses depois, Blumenau entrou no calendário nacional da Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) ao receber a Copa Brasil Blumenau e o Brasileirão de Verão Interclubes Olímpico e Paralímpico principal competição nacional da modalidade, que recebeu mais de 2,5 mil atletas no Complexo Esportivo do SESI.

Quando Blumenau entrou na rota do tênis de mesa
Durante muito tempo, Blumenau esteve distante dos principais circuitos do tênis de mesa brasileiro. Embora a modalidade já estivesse presente em escolas, clubes e competições estudantis da região, o município ainda ocupava um espaço discreto dentro do cenário catarinense. Nos últimos anos, porém, a combinação entre projetos de base, aumento do interesse pelo esporte e chegada de grandes competições transformou a cidade em um dos polos emergentes da modalidade em Santa Catarina.
Segundo o secretário municipal de esportes, Sérgio Galdino, o crescimento do tênis de mesa acompanha uma reorganização esportiva mais ampla dentro da cidade.
“De todos os esportes, o tênis de mesa teve uma evolução mais significativa. O trabalho de base, os resultados e a organização fizeram a modalidade crescer muito nos últimos anos”, afirmou.
A consolidação do tênis de mesa em Blumenau também passa pela trajetória de quem ajudou a construir a modalidade na cidade. Um dos principais responsáveis por esse processo é o técnico Guilherme Gomes, contratado há cerca de cinco anos para desenvolver o esporte no município.

O primeiro contato de Guilherme com o tênis de mesa aconteceu ainda na infância, em Joinville, durante atividades escolares. O que começou como uma brincadeira rapidamente se transformou em participação em campeonatos regionais, estaduais e nacionais. Anos depois, chegou a atuar como atleta em São Paulo antes de retornar para Santa Catarina para concluir a graduação em Educação Física e iniciar a carreira como treinador.
Quando recebeu o convite para trabalhar em Blumenau, encontrou uma realidade diferente da que conhecia em Joinville. A cidade ainda não possuía uma estrutura consolidada para a modalidade.
Guilherme iniciou então um projeto em parceria com a Secretaria Municipal de Esportes e a Associação de Tênis de Mesa Blumenauense (ATMBLU). O objetivo era ampliar o acesso gratuito à modalidade e identificar crianças com potencial competitivo.
“Quando comecei, precisava ir de escola em escola para apresentar o tênis de mesa. Hoje isso mudou. Muitas crianças chegam porque ouviram falar, porque um amigo trouxe ou porque viram alguma competição”, afirmou.
Durante cinco anos de projeto, os resultados esportivos começaram a aparecer em diferentes níveis. Blumenau possui atletas campeões estaduais, brasileiros e sul-americanos nas categorias de base, além de representantes na Seleção Brasileira.
Entre eles está o próprio técnico Guilherme Gomes, convocado em fevereiro deste ano pela Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) para integrar a comissão técnica das categorias masculinas Sub-11 e Sub-13 no ciclo olímpico rumo aos Jogos de Los Angeles 2028.
E é numa cidade historicamente ligada a modalidades mais tradicionais, como o voleibol e o futebol, que o tênis de mesa começou a ocupar um espaço mais estável dentro do cenário esportivo local.
Como sustentar um esporte em crescimento
Embora o tênis de mesa tenha ampliado sua presença no cenário esportivo de Blumenau nos últimos anos, a estrutura que sustenta a modalidade ainda funciona de maneira diferente daquela encontrada em esportes historicamente mais consolidados. O crescimento recente da Associação de Tênis de Mesa Blumenauense (ATMBLU) passou a depender não apenas dos resultados conquistados dentro das competições, mas também da construção de parcerias capazes de manter o projeto funcionando diariamente.
Atualmente, os treinamentos da associação acontecem em uma sala nos fundos da Blupadel utilizada exclusivamente pela modalidade, o centro de treinamento se localiza no número 2815 da rua São Paulo.
A relação de Vinicius Rodrigues de Alcântara com o tênis de mesa começou muito antes de assumir a presidência da associação de tênis de mesa. Natural de São Paulo, ele teve os primeiros contatos com a modalidade ainda na adolescência, quando morava em São Bento do Sul. Depois de alguns anos afastado do esporte por causa dos estudos, voltou a praticar já em Blumenau e passou a frequentar a associação que na época tinha sua sede no Vasto Verde.
O envolvimento com a modalidade cresceu gradualmente. Primeiro como associado, depois como integrante da diretoria e, mais tarde, como presidente da ATMBLU. Hoje, além de acompanhar a rotina dos atletas, Vinicius participa diretamente das decisões administrativas, da busca por parceiros e da manutenção da estrutura que sustenta o projeto. O espaço passou a funcionar como centro de treinamento da equipe após uma parceria entre a associação e o complexo esportivo, permitindo maior estabilidade para a rotina de treinos, escolinhas e preparação dos atletas.

Segundo o presidente da ATMBLU, Vinicius Rodrigues de Alcântara, a parceria surgiu em um momento importante para a continuidade da modalidade na cidade. Antes disso, a associação ainda enfrentava dificuldades para manter uma estrutura fixa de treinamento.
“A gente precisava de um espaço que permitisse criar continuidade no trabalho. Quando tu não consegue manter uma estrutura fixa, fica muito difícil organizar treino, categoria e crescimento do projeto”, explicou.
Com a mudança para a estrutura atual, a associação conseguiu ampliar horários de treinamento, aumentar o número de atletas atendidos e organizar melhor as categorias de base e rendimento. Ainda assim, Vinicius afirma que o crescimento esportivo da modalidade aconteceu mais rápido do que a consolidação financeira necessária para o sustentar.
No tênis de mesa de rendimento, as despesas vão muito além das inscrições em campeonatos. Raquetes profissionais exigem manutenção frequente, borrachas precisam ser trocadas periodicamente e atletas viajam constantemente para disputar torneios estaduais e nacionais. Em muitas situações, parte desses custos ainda precisa ser dividida entre associação, famílias e os próprios atletas.
“Às vezes as pessoas olham só o campeonato, mas existe toda uma estrutura por trás para conseguir manter o atleta competindo”, explicou Vinicius.
Além das questões financeiras, a própria expansão da modalidade trouxe novas demandas para a associação. O aumento no número de praticantes obrigou a reorganização dos horários de treino, ampliação do atendimento das escolinhas e adaptação da rotina da equipe técnica.
Quando assumiu a presidência da ATMBLU, Vinicius afirma que a associação possuía cerca de 20 associados. Hoje, o número ultrapassa 50, além das crianças atendidas nos projetos de iniciação esportiva. Segundo ele, parte desse crescimento foi impulsionada pela maior exposição do tênis de mesa no cenário nacional.
Para o técnico Guilherme Gomes, um dos principais desafios atuais está justamente em fazer a estrutura acompanhar o avanço técnico da modalidade.
“O nível competitivo aumentou muito rápido. Hoje o atleta precisa de preparação física, psicológica, calendário de competição e uma rotina muito mais profissional”, explicou.
É cada vez mais comum que modalidades fora do eixo esportivo tradicional precisem funcionar através de adaptações constantes para conseguir manter atletas em atividade por longos períodos.
O crescimento recente do esporte em Blumenau não aconteceu acompanhado de uma estrutura pronta. Enquanto a modalidade conquistava espaço no circuito catarinense e nacional, a associação precisou construir formas de sustentar esse avanço ao longo do tempo.
Mesmo enfrentando limitações financeiras e estruturais, a modalidade passou a criar algo que durante muitos anos ainda parecia distante: continuidade. Uma rotina permanente de treinamentos, formação de atletas e participação competitiva sustentada não apenas por resultados, mas principalmente pelas pessoas e parcerias que permitiram que o esporte continuasse crescendo.
A geração que cresceu com o esporte
Antes das medalhas, das convocações e dos campeonatos nacionais, o tênis de mesa de Blumenau acontecia em espaços muito mais simples: mesas improvisadas em escolas, treinos depois da aula e crianças que enxergavam o esporte apenas como brincadeira. Parte da geração atual de atletas da cidade cresceu acompanhando a expansão da modalidade na região e, de certa forma, ajuda a contar a própria transformação do tênis de mesa blumenauense.

A história da mesatenista Vitória Peixoto, 18 anos, começou justamente assim. Antes das medalhas e das competições nacionais, o tênis de mesa era apenas uma atividade escolar. O primeiro contato com o esporte aconteceu durante aulas e atividades promovidas pelo colégio, onde ela começou a desenvolver interesse pela modalidade.
O entusiasmo ultrapassou os limites da escola. Em casa, Vitória assistia vídeos de partidas e tentava reproduzir os movimentos que observava nos atletas. Na época, porém, ainda não imaginava que poderia seguir uma trajetória competitiva dentro do esporte.
“Eu não pensava em ser atleta nem nada disso. Eu só queria brincar”, relembrou.
Mesmo demonstrando facilidade para jogar, demorou para procurar um ambiente de treinamento. Segundo ela, a insegurança vinha principalmente da pouca presença feminina na modalidade. A decisão de procurar a associação só aconteceu após a insistência de amigos que já treinavam no local.
Foi nesse primeiro treino que percebeu que poderia ir mais longe. Após se destacar nas partidas realizadas naquele dia, recebeu incentivo da equipe técnica para continuar treinando. Nos primeiros meses, a própria associação ajudou com equipamentos e uniformes, tornando possível a permanência dela no esporte.
Com o passar do tempo e com a evolução técnica, Vitória passou a disputar competições estaduais e nacionais. Como começou relativamente tarde, aos 16 anos, precisou enfrentar atletas que já treinavam havia muito mais tempo do que ela.
“Quando eu comecei já fui direto pro sub-19, então era muito difícil acompanhar”, relembrou.
O processo de evolução aconteceu gradualmente. Vieram medalhas estaduais, títulos em categorias absolutas e, posteriormente, resultados expressivos em competições nacionais. Em 2025, Vitória conquistou três medalhas no Campeonato Brasileiro, incluindo um ouro por equipes.
Entre treinos, faculdade e aulas particulares que dá na própria associação, ela passa praticamente o dia inteiro no centro de treinamento.
“Tem vezes que eu chego meio-dia e saio oito da noite. Aqui acaba virando nossa segunda casa”, contou.
Hoje, a rotina da atleta se divide entre os treinamentos, as aulas da graduação e as atividades que desenvolve na própria associação, onde também atua auxiliando outros praticantes da modalidade. A convivência diária transformou o centro de treinamento em um espaço que vai além da preparação esportiva, funcionando como ambiente de aprendizado, trabalho e socialização.
Mais do que um espaço de treino, a associação passou a funcionar como ambiente de convivência e formação para atletas de todas as idades da cidade. Atualmente cursando Educação Física na FURB, Vitória afirma que pretende trabalhar futuramente como treinadora, principalmente com atletas femininas.
Para o técnico Guilherme Gomes, histórias como a dela ajudam a explicar o momento vivido pela modalidade em Blumenau.
“Hoje as crianças conseguem olhar para atletas daqui e perceber que elas também podem chegar lá”, explicou.
Mais do que formar medalhistas, o tênis de mesa blumenauense começou a construir uma geração de atletas que cresceu junto com a própria estrutura da modalidade na cidade, tornando suas histórias parte da mudança no Tênis de mesa da cidade.
Até onde é possível chegar?
O crescimento recente do tênis de mesa abriu novas possibilidades para atletas que, até poucos anos atrás, dificilmente enxergariam a modalidade como um caminho competitivo. Mas junto das medalhas, convocações e campeonatos nacionais, surgiu também uma pergunta que acompanha diariamente a rotina da associação: até onde é possível chegar mantendo a estrutura atual?
Um dos maiores desafios da modalidade atualmente não é apenas revelar atletas, mas conseguir mantê-los competindo em alto nível e por longos períodos. O presidente da ATMBLU, Vinicius Rodrigues de Alcântara, afirma que essa realidade acaba criando um limite difícil para muitos jovens atletas que começam a se destacar.
“Tem atleta que tem condição técnica para ir muito longe, mas o esporte ainda não consegue oferecer toda a estrutura necessária para ele viver só disso”, afirmou.
A trajetória de Vitória Peixoto reflete parte dessa realidade. Mesmo acumulando resultados importantes em campeonatos estaduais e nacionais, ela divide a rotina entre treinos e faculdade.
“Não é uma vida que gira só em torno do esporte. Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo”, contou ela.
Para Guilherme Gomes, o tênis de mesa de alto rendimento exige uma carga mental intensa, marcada por treinamentos repetitivos, concentração constante e pouco espaço para erro.
Ainda assim, existe dentro da própria modalidade a percepção de que o crescimento técnico do tênis de mesa blumenauense aconteceu mais rápido do que a estrutura necessária para sustentá-lo. Blumenau já conseguiu inserir atletas em competições nacionais e consolidar espaço no circuito brasileiro, mas o desafio agora passou a ser manter esse avanço.
Entre treinos, viagens e rotinas divididas entre estudo, trabalho e competição, os atletas da cidade seguem construindo suas trajetórias em um cenário onde o sonho esportivo ainda precisa conviver diariamente com as limitações da modalidade e de suas próprias rotinas.
Mais do que uma fase passageira
O crescimento recente do tênis de mesa em Blumenau vai além da realização de campeonatos ou do aumento no número de atletas. Nos últimos anos, a modalidade passou a se firmar como uma das principais referências do esporte local, combinando expansão da base, resultados expressivos e maior visibilidade no cenário estadual e nacional.
Para o presidente da ATMBLU, Vinicius Rodrigues de Alcântara, a principal mudança está justamente na continuidade do trabalho desenvolvido na cidade.
“Antes o tênis de mesa dependia muito de iniciativas isoladas. Hoje já existe uma continuidade maior no trabalho”, afirmou.
Ao mesmo tempo, o avanço da modalidade ainda convive com limitações importantes. Questões financeiras, necessidade de uma estrutura ainda mais ampla e dificuldade de manter atletas no alto rendimento continuam fazendo parte da realidade do tênis de mesa local.
Ainda distante das principais potências nacionais da modalidade, Blumenau segue construindo seu espaço no tênis de mesa brasileiro. Os desafios relacionados à estrutura e ao financiamento permanecem presentes, mas o trabalho desenvolvido nos últimos anos permitiu criar uma rede formada por atletas, treinadores, dirigentes e famílias que mantêm a modalidade em funcionamento.
Durante os treinamentos da ATMBLU, é difícil encontrar alguém que fale apenas sobre resultados. Entre mesas ocupadas e atletas que passam horas diárias no centro de treinamento, o que aparece com mais frequência é a ideia de pertencimento. Em uma região tradicionalmente associada a outras modalidades, o tênis de mesa ainda cresce de forma gradual, mas já encontrou pessoas dispostas a garantir que ele permaneça e se mantenha cada vez mais firme na cidade.