As comunidades redpill e seu impacto direto no aumento de crimes contra as mulheres
Por Bárbara Brito
O avanço das tecnologias digitais e a popularização das redes sociais abriram espaço para novas formas de interação, mas também para a disseminação de discursos. Entre esses fenômenos, destacam-se as chamadas comunidades redpill, grupos virtuais que se apresentam como espaços de “despertar masculino”, mas que, na prática, propagam narrativas misóginas, desqualificam mulheres e incentivam uma visão distorcida das relações de gênero.
O que poderia parecer apenas um nicho de internet, restrito a fóruns e plataformas digitais, tem se mostrado um terreno fértil para a radicalização de jovens e adultos, transformando ressentimentos pessoais em ideologias de ódio. A consequência é a criação de uma cultura que naturaliza a violência e a coloca como resposta aceitável diante de frustrações afetivas ou sociais.
O caso de Matheus Vinícius Silveira Leite, um dos suspeitos pela morte da corretora gaúcha Luciani Aparecida Estivalet Freitas, no início de março, em Florianópolis, é um exemplo claro de como o discurso redpill não atua somente na esfera digital. Matheus mostrava em seu perfil que se intitulava como um alfa, termo frequentemente utilizado no movimento.
Ele também publicava diversos vídeos em que se dizia adepto à filosofia MGTOW (Men, Going Their Own Way) (homens seguindo seu próprio caminho) confirmando, em comentários e em vídeos, que se considerava um redpill e se autointitulava como “homem de valor”. Representando diretamente como os discursos dessa comunidade se propagam.
Dados estatísticos
Números recentes sobre feminicídio e violência doméstica no Brasil mostram que o problema não é apenas estatístico, mas social. Ao investigar a relação entre comunidades redpill e esses crimes, torna-se evidente que não se trata de uma conexão direta e única, mas de um conjunto de fatores que se entrelaçam: a fragilidade emocional de jovens em busca de pertencimento, a ausência de modelos masculinos positivos, a falta de políticas públicas eficazes e a permissividade das plataformas digitais diante de conteúdos misóginos.
O crescimento dessa comunidade e os seus discursos agressivos apontam que em 2025, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça, CNJ, houve um aumento de 17% nos julgamentos de feminicídio em comparação ao ano de 2024. Esse registro é o maior número de feminicídios da última década, com 1.568 mulheres assassinadas. O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) também divulgou que em 2020 os casos de estupro registrados foram de 66.056 vítimas, já em 2024 o número chegou a 83.114, representando um aumento de 25,80% nos últimos cinco anos.
Casos explícitos
Essa comunidade prega um discurso misógino que culpa as mulheres por frustrações pessoais e românticas. Uma comunidade que atua nacional e internacionalmente e acumula maus exemplos do que esse discurso defende, cujo principal expoente é Andrew Tate, ex-kickboxer e influenciador britânico-americano, figura central da “machosfera” e da comunidade redpill, usado diversas vezes exemplificar os discursos propagados. Atualmente, Tate responde a acusações criminais de tráfico humano e estupro na Romênia e no Reino Unido.

No Brasil, a comunidade ganhou notoriedade a partir de 2020, com influenciadores digitais que popularizaram o termo. Thiago Schutz, conhecido como “Calvo do Campari”, tornou-se uma das figuras mais associadas ao redpill nacional, sendo futuramente detido em Salto (SP) após acusações de agressão e tentativa de estupro contra a namorada, moradora de Balneário Camboriú (SC). Ele foi acusado de violência contra mulheres e de promover discursos misóginos.
O especialista Ergon Cugler Moraes Silva, pesquisador e cientista de dados, que escreveu o artigo Como comunidades redpill e anti-woke capturam jovens para redes de ódio, esclarece a problemática em uma comunidade que incentiva os crimes de ódio contra mulheres “Tem casos muito emblemáticos de homens que agridem as suas companheiras, as suas parceiras e utilizam jargões dos movimentos redpill. Então, este movimento, estas comunidades, elas acabam não apenas legitimando, embasando, fundamentando, mas o pior de tudo, encorajando que estes homens devem, inclusive, praticar não apenas violência física, mas todos os outros tipos de violência contra a mulher em um relacionamento”, explica.
Ergon Cugler tem 27 anos e é pesquisador CNPq sobre desinformação, inteligência artificial e tecnologias e conselheiro da Presidência da República no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS). Ergon alerta dos perigos de crer nos discursos dessa comunidade “Traz muitos riscos para a sociedade, na medida em que esses grupos vão se tornando quase como se fossem células terroristas que organizam não só ações digitais, mas promovem, inclusive, às vezes, violências físicas e coletivas contra mulheres”, diz.
Esse padrão pode ser visto no caso do estupro coletivo em Copacabana, realizado em março deste ano, quando uma garota que visitava um amigo menor de idade foi forçada a praticar sexo com outros homens maiores de idade. Após o início da investigação foi descoberto que três dos homens têm ligação com outras duas denúncias de crimes sexuais. Mattheus e o menor cometeram um crime semelhante em um apartamento no Maracanã, na Zona Norte. A adolescente relatou que foi convidada a ir até a casa de Mattheus e alegou que foi forçada a ficar no cômodo, levou socos e chutes sendo obrigada a fazer sexo com ele, o menor e um adulto ainda não identificado.
Vitor Hugo Oliveira Simonin também é investigado por um caso de estupro que teria ocorrido durante uma festa de alunos do Colégio Pedro II no Humaitá, na Zona Sul. Ao se apresentar para prestar depoimento sobre sua participação no estupro coletivo chamou a atenção por usar uma camiseta com a frase Regret Nothing (Não se arrependa de nada) durante a sessão, frase comumente utilizada por comunidades redpill.
De acordo com a Agência Brasil, o adolescente foi condenado à medida de internação, sem possibilidade de atividades externas por um período inicial de seis meses. Na sentença, a juíza escreveu “que a gravidade da infração e a falha da rede familiar em prover limites adequados justificam a medida extrema, visando à ressocialização do jovem e a preservação da ordem pública”. Mais quatro homens adultos também são investigados pela participação no crime.
Em nota oficial, o governo federal se pronunciou, afirmando que “o caso também evidencia a urgência de ampliar o debate sobre consentimento, respeito e igualdade nas relações entre crianças, adolescentes e jovens. A prevenção da violência de gênero passa necessariamente pela educação e pela promoção de valores que reafirmem a dignidade e os direitos das meninas e das mulheres. A educação é peça-chave para transformar uma sociedade ainda marcada pelo machismo e pela misoginia”.
Os métodos de manipulação
A pesquisa Entre populismo penal e populismo digital: discursos masculinistas e a comunidade Red Pill no YouTube brasileiro, publicada porRenato Francisquini Teixeira através do projeto Construindo a democracia no dia-a-dia: direitos humanos, violência e confiança institucional mostra que o crescimento de comunidades digitais como a redpill e outros grupos masculinistas revela um fenômeno preocupante: a captura de adolescentes e jovens adultos por redes de ódio que se estruturam em ambientes digitais.
Plataformas como YouTube, TikTok e Instagram facilitaram a difusão, muitas vezes por meio de memes e vídeos aparentemente inofensivos. O discurso se fortalece em momentos de debate público sobre igualdade de gênero, aproveitando-se de polêmicas para ganhar visibilidade. Esses espaços funcionam como contrapúblicos que oferecem pertencimento, identidade e respostas simplistas para inseguranças emocionais, mas ao custo de reforçar desigualdades e legitimar práticas discriminatórias.
Memes e piadas funcionam como porta de entrada, tornando o discurso aparentemente inofensivo e jovens são convencidos de que vivem uma crise da masculinidade, em que mulheres e feminismo seriam responsáveis por sua perda de status. Desta forma eles usam fóruns e canais digitais que oferecem validação mútua, criando uma identidade coletiva que reforça a oposição entre “nós” (homens de bem) e “eles” (mulheres, feministas, minorias).
Utilizando mecanismos de convencimento como linguagem técnica e pseudociência, essas comunidades convencem aos poucos que o seu discurso é a realidade, usando conceitos como “valor sexual de mercado” ou “hipergamia feminina” apresentados como se fossem teorias científicas, mas que carecem de validação empírica. Recorrendo a manipulação de estatísticas como dados sobre divórcios, violência ou comportamento feminino que são recortados seletivamente para sustentar narrativas misóginas, ao se revestirem de linguagem técnica, esses discursos criam a ilusão de objetividade, dificultando que jovens percebam seu caráter ideológico.
Apoiando-se em narrativas vitimistas como a divisão entre “cidadãos de bem” e “inimigos” legítima exclusão e violência os discursos “redpill” oferecem aos jovens a sensação de recuperar autoridade e status social. Com carisma e linguagem direta para criar identificação emocional, transformando seguidores em defensores ativos da causa.
Outros movimentos extremistas digitais se assemelham com os discursos da comunidade como o “supremacismo branco” em que ambos utilizam pseudociência e estatísticas distorcidas para justificar hierarquias sociais. Comunidades “incel” que compartilham a narrativa de vitimização masculina e ressentimento contra mulheres, e o “fundamentalismo religioso digital” em que ambos reforçam hierarquias patriarcais e moralidade tradicional.
Os impactos sobre adolescentes são profundos. Em busca de pertencimento e identidade, muitos encontram nesses grupos uma narrativa que explica suas frustrações. O contato inicial com humor evolui para discursos de ódio e legitimação da violência, levando à radicalização gradual. Além disso, a adesão a essas comunidades pode gerar isolamento social, afastando jovens de ambientes saudáveis e reforçando bolhas digitais que dificultam o contato com perspectivas diversas.
Para Haniel Rodrigues, de 15 anos, pertencente à geração Z, residente de Pomerode e estudante do Ensino Médio na escola estadual José Bonifácio, o uso do humor redpill é comum entre os jovens. “Eu faço umas piadas redpill e a gente leva na brincadeira. O humor é humor se o outro lado também acha engraçado, também leva na brincadeira, se o outro lado não se sente incomodado com isso. No meu ciclo social, a partir do momento que a pessoa não leva na brincadeira, a gente não brinca mais”, afirmou.
Haniel faz parte de uma geração de jovens que, a cada dia, pensa de maneira mais distinta. Um estudo recente conduzido pelo King’s College de Londres, juntamente com uma análise realizada pelo jornal Financial Times, destacou que a geração Z tem um número maior de indivíduos que se identificam como conservadores. Com homens jovens sendo mais conservadores e mulheres mais progressistas.
A captura de jovens por redes de ódio como a comunidade redpill é parte de uma lógica global de radicalização digital. Ela combina pseudociência, manipulação emocional e pertencimento comunitário, criando um ambiente sedutor para adolescentes em busca de identidade. Comparável a outros movimentos extremistas, esse processo exige atenção redobrada de mães e adultos, que devem compreender os mecanismos de convencimento para prevenir a adesão de jovens a discursos nocivos e promover alternativas de pertencimento mais construtivas.
A história por trás da comunidade “Redpill”
O masculinismo radical é um fenômeno que se consolidou como reação às conquistas sociais do feminismo e às mudanças culturais que ampliaram direitos das mulheres nas últimas décadas. Se caracteriza por uma postura de enfrentamento, que vê o feminismo como inimigo e defende a restauração de hierarquias tradicionais de gênero.
Nos anos 1970 e 1980, surgiram nos Estados Unidos grupos de direitos dos homens, inicialmente voltados para temas como pensão alimentícia e guarda compartilhada. Herb Goldberg, líder do movimento de libertação masculina, escreveu “Os Perigos de Ser Homem”, em 1977.
Com o tempo, parte desses movimentos passou a adotar uma retórica mais agressiva contra o feminismo, acusando-o de privilegiar mulheres em detrimento dos homens.
Na década de 1990, com a popularização da internet, esses grupos encontraram novos espaços de organização em fóruns digitais, ampliando seu alcance e criando comunidades transnacionais. Esse ambiente virtual foi decisivo para a consolidação de uma rede global de masculinismo radical.
Nos anos 2000, fóruns online como Reddit e 4chan começaram a usar a expressão tomar a redpill como metáfora para perceber que homens estariam em desvantagem em um mundo dominado pelo feminismo. Essa apropriação transformou uma metáfora filosófica em um símbolo ideológico.
A expressão redpill tem sua origem no filme Matrix (1999), em que o protagonista Neo é convidado a escolher entre duas pílulas: a azul, que o manteria em uma realidade ilusória, e a vermelha, que revelaria a verdade oculta.
Essa metáfora foi apropriada por comunidades digitais internacionais, especialmente fóruns da chamadamachosfera, e passou a simbolizar um suposto despertar para verdades escondidas sobre gênero, sociedade e relacionamentos.
O acordar para uma suposta realidade em que mulheres manipulam homens, se apresentou como um discurso revelador, mas que na prática reforça estereótipos e preconceitos. Pautado em uma narrativa construída com base em pseudociências, estatísticas distorcidas e argumentos que se pretendem técnicos e carecem de rigor acadêmico.
Consolidando um ecossistema digital que inclui fóruns de direitos dos homens (men’s rights activists), comunidades de sedução, coaching de relacionamentos e grupos de celibatários involuntários (incels), que frequentemente expressam hostilidade contra mulheres.
Esses espaços funcionam como câmaras de eco, reforçando preconceitos e oferecendo validação mútua. Jovens inseguros encontram pertencimento, mas também são expostos a discursos que naturalizam a misoginia e a violência simbólica.
O avanço da comunidade redpill no Brasil tem despertado preocupação entre especialistas e autoridades, sobretudo pelo impacto sobre adolescentes e jovens adultos. O maior risco apontado é a capacidade desse movimento de transformar inseguranças comuns da juventude em discursos de ódio e práticas misóginas, criando ambientes digitais que normalizam a violência contra mulheres.
Em Santa Catarina, casos recentes mostraram como conteúdos redpill podem estar associados a crimes graves, reforçando a necessidade de atenção das famílias. O enfrentamento não se resume a proibições: é fundamental que pais e responsáveis adotem uma postura ativa, baseada em diálogo aberto, educação voltada para respeito e igualdade, além de acompanhamento atento da vida digital dos filhos.
A prevenção passa por oferecer referências positivas, estimular o pensamento crítico e, quando necessário, buscar apoio profissional. Só assim será possível reduzir o risco de radicalização e proteger os jovens de comunidades nocivas.
