O Algoritmo da Exclusão: Por que a tecnologia de 2026 ainda deixa pessoas com deficiência para trás? 

Acessibilidade tem de ser o alicerce, não um puxadinho de última hora

Por Anabloo Wagner e Luiza Gonçalves 

O burburinho característico da Rua XV dita o ritmo de mais uma manhã no centro de Blumenau. Ali, a poucos passos da icônica Rua das Palmeiras, a antiga sede da Fundação Cultural — hoje Secretaria de Cultura — abriga os Amigos do Centro Braille de Blumenau (ACBB). Para chegar à pequena estrutura no andar térreo, à esquerda da entrada principal, é preciso cruzar a calçada. Uma calçada lisa até demais: não há sequer um metro de piso tátil para guiar quem não pode ler o mundo com os próprios olhos. 

O acesso é guardado por um portão de ferro antigo, daqueles sanfonados. O barulho do metal arrastando ao abrir é estrondoso, mas o verdadeiro impacto vem logo em seguida: degraus. A ironia arquitetônica é instantânea e cruel. Como um espaço historicamente dedicado ao acolhimento e ensino de pessoas com baixa visão ou cegueira total começa com uma armadilha física incontornável? 

O interior cheira a recomeço. Caixas empilhadas denunciam a transição do espaço, enquanto uma voz ecoa afetuosa lá do fundo: “Estamos de mudança, não reparem na bagunça!”. 

É nesse cenário em movimento que encontramos Richard Gonçalves Albanais. Aos 22 anos, ele está sentado junto a uma mesa redonda, carregando a quietude de quem precisou recalcular a própria rota cedo demais. A história de Richard ilustra uma das facetas mais brutais da deficiência visual: a perda tardia e total. Diferente de quem nasce sem enxergar e aprende a mapear o mundo pelos outros sentidos desde o berço, a cegueira adquirida exige um luto duplo. É preciso despedir-se do mundo visual e, simultaneamente, reaprender a existir no espaço físico e digital. 

Durante o ensino médio, a transição de uma baixa visão severa para a escuridão absoluta roubou-lhe a vontade de sair de casa. Com a luz, esvaiu-se também o sonho da Química, paixão à qual dedicou seus últimos anos de estudo prático. O laboratório, antes seu habitat natural, tornou-se um horizonte impossível de ser navegado sem visão. “Eu tava perdendo a minha visão, mas eu tava no ensino médio, tinha que me preocupar com as coisas. Demanda, atividade, entrega de trabalho, prova, estuda, prepara, aula prática. Acabou. Cara, eu tô cego. Eu não consigo fazer nada. Aí bate aquela tristeza”, relembra Richard, dando o tom exato do peso de um diagnóstico irreversível na juventude. 

Mas a estagnação não foi o seu ponto final. Em meio ao isolamento, Richard encontrou na música um refúgio e uma nova linguagem. Hoje, como estudante universitário de Licenciatura em Música, os desafios atuais vão muito além das partituras em alto relevo.  

Richard Gonçalves Albanais, 22 anos, em momento de estudo. O estudante de música da FURB utiliza materiais adaptados para vencer a barreira da partitura visual, um processo que exige dedicação redobrada em relação aos demais alunos. 

Para alguém com cegueira total adquirida recentemente, a dependência de infraestrutura tátil e leitores de tela é absoluta. Ele precisa reaprender a ler a cidade e lutar com unhas e dentes pelo seu espaço dentro da universidade. O que deveria ser trivial — caminhar da porta de entrada até a própria carteira —, para ele, é uma batalha diária contra a negligência arquitetônica. “Na universidade onde eu estudo, ainda não há piso podotátil no bloco inteiro. Chego na sala de aula sendo guiado, agarrado no braço de colegas. Caso contrário, eu não consigo encontrar meu caminho até a sala”, relata o universitário. 

A calmaria da sala do ACBB é deliciosamente interrompida pelo som de um carro freando lá fora. É Patrícia chegando. Ela desce e, em segundos, a energia do ambiente se transforma. Animada, de sorriso largo e presença vibrante, sua voz tem uma textura peculiar: é delicada, quase suave, mas carrega a firmeza inabalável de quem já enfrentou tormentas intensas. “As sequelas que o câncer me deixou foram muita fraqueza muscular”, comenta, sem perder o prumo, enquanto se acomoda. 

Aos 60 anos, a pedagoga com pós-graduação em educação fez do Centro Braille sua trincheira de acolhimento e luta. A vida de Patrícia é um longo e complexo tratado sobre adaptação contínua. Nascida com deficiência auditiva severa — o que já lhe impunha o uso de próteses e uma relação diferente com os sons —, foi aos 18 anos, em um exame de rotina, que ela esbarrou no diagnóstico de glaucoma. 

O glaucoma é uma doença frequentemente silenciosa e traiçoeira. Ele atua como um ladrão de bordas: aumenta a pressão intraocular e comprime o nervo óptico, reduzindo o campo visual de fora para dentro. A pessoa perde a visão periférica progressivamente até que, em casos avançados, resta apenas uma visão tubular ou feixes de claridade. Ainda assim, Patrícia caminhou pelo mundo até os 47 anos sem a necessidade de uma bengala ou de adaptações drásticas. 

O divisor de águas definitivo veio em 2014. O tratamento agressivo contra um câncer de mama levou embora a visão total de seu olho direito e varreu a visão periférica do esquerdo. Hoje, o mundo visual de Patrícia enquadra-se no que a oftalmologia classifica como “baixa visão severa”. Isso significa que a correção com óculos ou cirurgias não é mais possível; seu contato com o ambiente resume-se a borrões indistintos e percepção de feixes de luz, tornando a bengala uma extensão indispensável de seu corpo e de sua segurança física. 

Mas a clareza com que ela enxerga o próprio propósito nunca foi tão nítida. Patrícia faz questão de pontuar que a bengala é uma tecnologia assistiva milenar, porém vital. Contudo, o que mais a adoece hoje não são os obstáculos de concreto, mas o esgotamento mental provocado pela internet inacessível. O esforço cognitivo exigido de uma pessoa com baixa visão e deficiência auditiva para tentar decifrar um site desorganizado, ouvindo um leitor de tela robótico ler códigos e links inúteis em alta velocidade, gera um colapso sensorial. “A fadiga da pessoa com deficiência é algo assim que… Olha, chega, hoje deu. Esconde isso aqui, esconde esse celular, esconde esse notebook. Hoje eu não saio de casa mais nem pagando porque eu tô fatigada”, desabafa, ilustrando o peso invisível de viver num mundo não projetado para ela. 

A poucos quilômetros dali, sob os corredores movimentados do campus da mesma universidade que Richard frequenta, o cheiro de café expresso preenche a cantina estudantil. No trajeto até a mesa, a ausência de piso tátil é novamente um lembrete silencioso e revoltante de que a cidade falha no básico. É ali, apoiada em um braço amigo para contornar o espaço inacessível entre as cadeiras, que Sarah Emanuele Henschel se acomoda para a entrevista. 

Aos 20 anos, a estudante de Letras carrega a energia vibrante da juventude e de quem não aceita ser definida ou limitada por um diagnóstico médico. A vivência de Sarah contrasta frontalmente com a de Richard e Patrícia, trazendo a perspectiva essencial da cegueira congênita. Ela nasceu prematura, com apenas 27 semanas de gestação. O desenvolvimento incompleto de seu sistema ocular resultou em retinopatia da prematuridade — uma condição onde os vasos sanguíneos da retina crescem de forma desorganizada, causando o descolamento da membrana e a perda visual irreversível. 

Possuindo apenas a percepção de luz desde o nascimento, a escuridão para Sarah nunca foi sinônimo de luto ou isolamento, mas o seu estado natural. Fluente no sistema Braille desde os impressionantes quatro anos de idade, ela subverte qualquer estereótipo ultrapassado e capacitista. Sarah é presença garantida nas pistas de clubes de música eletrônica como o Surreal e o Matahari. É uma fã tão assídua do DJ Alok que participa ativamente de fã-clubes e consome os shows do artista com uma percepção rítmica e sensorial que dispensa o sentido da visão. 

Acima de tudo, Sarah é uma verdadeira nativa digital. Ela aprendeu a usar o smartphone sozinha na infância, por pura curiosidade e insistência, tateando o vidro liso e escutando a resposta do leitor de tela integrado ao sistema operacional. Para estudar, ler reportagens e redigir textos em altíssima velocidade, ela utiliza uma “Linha Braille”. Trata-se de um equipamento avançado e complexo que se conecta ao computador ou celular e converte arquivos digitais em pequenos pinos físicos que sobem e descem em tempo real, permitindo a leitura tátil instantânea de qualquer texto na tela.

Imagens de Sara palestrando para as turmas e um vídeo de parte de sua fala, conectada com uma de suas paixões: ALOK Reprodução Instagram: https://www.instagram.com/p/DQmdkhvEXmjr8Sff5MVfBBXOyVp_-iGIGC57sI0/?img_index=1

A autonomia tecnológica, no entanto, cobra um preço exorbitante num país desigual: para adquirir o aparelho, avaliado na época em estratosféricos R$ 23 mil, Sarah precisou mobilizar centenas de pessoas nas redes sociais e organizar uma vaquinha online. 

Apesar de dominar a tecnologia com fluência, o design excludente das grandes plataformas insiste em deixá-la para trás. O aplicativo do Instagram, rede social onde Sarah é extremamente ativa (@olharesarinha) para conscientizar o público sobre o dia a dia de uma pessoa cega, é um retrato clássico da arquitetura virtual baseada exclusivamente em estímulos visuais. “Se a gente vai postar um story e quer escrever um texto, se não ajustar, ele vai ficar por cima da imagem. E não é acessível para eu fazer esse ajuste com o leitor de tela. Toda vez que eu postar e não pedir ajuda para alguém que enxerga, o texto vai ficar em cima da cara da pessoa”, desabafa a jovem. “Dá muita raiva, é algo que o Instagram já poderia ter otimizado, ainda mais com inteligência artificial, mas eles não mexem. A gente é minoria, eles vão pensar na gente lá quando receberem uma multa de dois milhões.” 

A tela inacessível que frustra e exaure o dia a dia de Sarah, Richard e Patrícia está longe de ser uma exceção estatística. Eles compartilham a mesma barreira diária, invisível para a maioria esmagadora da população, com centenas de milhares de brasileiros. 

Para dimensionar com precisão o tamanho colossal desse apagão digital, é preciso olhar para a nova métrica adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Historicamente, censos anteriores criavam distorções metodológicas graves ao misturar, na mesma panela estatística, quem apenas possuía um erro refrativo simples (como uma miopia ou astigmatismo corrigidos facilmente com o uso de óculos) com quem possuía limitações anatômicas graves e irreversíveis. 

atual Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) mudou o foco e foi direto ao ponto crucial: a funcionalidade. E os números filtrados revelam uma exclusão em massa que o mercado de tecnologia insiste em ignorar. Além da impressionante marca de 580 mil pessoas completamente cegas, o Brasil tem hoje 6,5 milhões de cidadãos com deficiência visual severa — pessoas que, mesmo de óculos, não conseguem ler um texto numa tela convencional. Se ampliarmos o recorte demográfico para qualquer nível de dificuldade visual persistente, o contingente salta para mais de 35 milhões de pessoas. Não estamos falando de um nicho; estamos falando de uma nação inteira deixada no escuro tecnológico. 

O contraste entre as promessas do Vale do Silício e a realidade brasileira é brutal. Como podemos, em pleno ano de 2026, debater calorosamente sobre os saltos quânticos da Inteligência Artificial, sobre carros autônomos e computação espacial, quando uma parcela imensa e economicamente ativa da população é barrada no básico da navegação por falta de uma estrutura desenhada para ela? 

O símbolo da acessibilidade aparece tomado por falhas digitais, representando a quebra entre o discurso de inclusão e a realidade enfrentada por pessoas com deficiência na internet. 

A verdade inegável é que a acessibilidade digital no Brasil de 2026 não sofre de falta de ferramentas ou de conhecimento técnico; ela sofre de uma profunda e enraizada falta de prioridade comercial. O que domina a web atualmente é o Tokenismo Digital: a prática nefasta de empresas que estampam o símbolo universal da acessibilidade (o famoso bonequinho azul) em suas páginas iniciais apenas para blindar a própria imagem corporativa contra críticas e processos, mas mantêm um código-fonte caótico e inacessível por trás da fachada polida. É a inclusão feita puramente para inglês ver.

 Patrícia e Richard demonstram o uso de leitores de tela em seus smartphones. O vídeo exibe a interface do celular enquanto o leitor de tela (TalkBack/NVDA) processa os comandos em alta velocidade. É possível observar a necessidade de comandos táteis precisos e a audição aguçada exigida para interpretar a voz sintetizada que descreve os elementos da tela, ilustrando o esforço cognitivo necessário para tarefas simples, como abrir um aplicativo de mensagens.

O conceito do “Tokenômetro” nasce dentro desta reportagem justamente para medir e expor o tamanho absurdo dessa contradição. De um lado da balança, empresas de tecnologia catarinenses e nacionais investem milhões de reais anualmente em campanhas publicitárias robustas, contratação de influenciadores e estratégias agressivas de marketing para atrair todo tipo de usuário. Do outro lado, sustentam plataformas digitais que falham vergonhosamente no básico da inclusão. 

A ideia por trás desse medidor é simples, mas reveladora: comparar o peso do investimento financeiro em vitrine com a nota real de acessibilidade dos sites dessas corporações. Para realizar essa auditoria, não é preciso ser um hacker de elite. Ferramentas gratuitas e de código aberto, como o validador ASES (desenvolvido pelo próprio Governo Federal do Brasil) e o Lighthouse (extensão oficial de auditoria do Google Chrome), varrem o código HTML das páginas em segundos e mostram detalhadamente quantos obstáculos existem para pessoas com deficiência. A nota gerada vai de 0 a 100. Quanto menor o número, maior a barreira e a exclusão do usuário.  

Para visualizar como essa exclusão acontece na prática, a reportagem utilizou auditorias automatizadas feitas pelo Google Lighthouse, ferramenta integrada ao PageSpeed Insights, plataforma pública de análise de desempenho e acessibilidade digital.  

As análises avaliaram versões desktop e mobile de sites de empresas, órgãos públicos e plataformas digitais populares. Cada página recebeu notas de 0 a 100 em quatro critérios: desempenho, acessibilidade, práticas recomendadas e SEO. Somadas, as plataformas poderiam atingir até 400 pontos — índice que representaria um ambiente digital totalmente otimizado e acessível. 

Pontuação baseada em auditoria automatizada do Google Lighthouse/PageSpeed Insights. Cada plataforma pode atingir até 400 pontos somando desempenho, acessibilidade, SEO e práticas recomendadas. Infográfico por Luiza Gonçalves

Os resultados mostram um padrão evidente: mesmo páginas com bom desempenho técnico e otimização para buscadores ainda apresentam falhas significativas de acessibilidade. O cenário se repete principalmente nas versões mobile, hoje o principal meio de acesso à internet no Brasil. 

O objetivo do exercício não é descobrir planilhas confidenciais e o valor exato gasto em cada postagem patrocinada, mas revelar a desproporção moral. Afinal, se companhias que faturam na casa dos bilhões conseguem investir pesado em publicidade televisiva e digital, por que ainda escolhem deixar usuários presos em páginas com códigos incompatíveis com leitores de tela, sem rotulagem de imagens e impossíveis de serem navegadas apenas por atalhos de teclado? 

O Tokenômetro transforma essa falha invisível em imagem inegável. Fica evidente uma realidade difícil de justificar nos relatórios anuais de sustentabilidade e ESG (Ambiental, Social e Governança): em muitos casos, a acessibilidade continua sendo tratada pelo alto escalão mais como peça de reputação institucional do que como um direito inegociável do consumidor. 

Essa exclusão digital no Brasil, no entanto, não é um privilégio mesquinho apenas da iniciativa privada. Quando o cidadão precisa acessar serviços básicos e exercer seus direitos civis mais elementares, a barreira ganha contornos institucionais severos e oficiais. O portal Gov.br, porta de entrada hoje obrigatória para checar aposentadorias do INSS, históricos médicos no SUS, inscrições no ENEM e dezenas de políticas públicas essenciais, transforma-se frequentemente em um labirinto humilhante para quem não pode utilizar os olhos. 

A recente exigência de biometria facial para elevar o nível de segurança da conta, pensada estritamente para garantir a blindagem contra fraudes em massa, comete o erro crasso de ignorar a pluralidade da anatomia humana. O algoritmo de reconhecimento exige padrões visuais específicos — olhos abertos, focados na lente, com movimentos guiados — que excluem imediatamente as especificidades físicas de milhares de pessoas com deficiências oculares graves. 

Para a pedagoga Patrícia, a tentativa de provar a própria identidade ao Estado que deveria acolhê-la não é apenas um entrave burocrático; é um processo que gera profundo desespero e desgaste emocional. “Insuportável é o gov.br. A pessoa cega pode ter o olhinho mais baixo, né? E o gov.br, ele precisa ver para ler, certo? A pessoa tem que fazer assim, ó. Esticar o olho o máximo que se pode… Já chorei muito por causa dessa questão”, desabafa, materializando o impacto psicológico de um algoritmo inflexível. 

Para a estudante Sarah, a tentativa de transpor a segurança biométrica do governo para conseguir renovar sua bolsa de estudos expôs o nível de tortura digital a que essas plataformas submetem os usuários fora do padrão estabelecido. “Eu não consigo abrir meu olho, e eles queriam que eu abrisse para me liberar no sistema. Eu forcei meus olhos a serem abertos com as minhas próprias mãos e meu irmão foi filmando o celular pra mim. Eu botei fita adesiva nos meus olhos para tentar abrir e o sistema me deixar passar”, relata Sarah, expondo a crueldade de uma tecnologia desenhada por e para pessoas sem deficiência. 

E se o governo levanta muros biométricos incontornáveis, a arquitetura da web comercial não fica atrás, erguendo bloqueios cotidianos na forma de validações de segurança antiquadas. Exigir que um humano completamente cego prove para o sistema que não é uma máquina, utilizando os famosos testes CAPTCHA projetados exclusivamente com base no reconhecimento de imagens visuais, beira a ironia perversa. “Uma coisa que sempre me deixou maluco são aqueles testes de ‘Você é um robô?’. E daí você tem que selecionar as imagens, tipo… ‘Ah, selecione todas as imagens que têm um poste de luz'”, desabafa Richard. É o algoritmo da exclusão operando em sua forma mais literal e cruel: um sistema programado em código binário exigindo que alguém imerso na escuridão identifique fragmentos de fotografias de trânsito para ter o simples direito de continuar existindo e consumindo no ambiente digital. 

O abismo entre a vitrine e o código oculto fica ainda mais nítido e desconfortável quando olhamos para o nosso próprio quintal econômico. Blumenau é historicamente reconhecida como o “Vale do Software” catarinense, a capital e o cérebro pulsante de uma região — o Vale do Itajaí — que movimenta sozinha cerca de espantosos R$ 10 bilhões por ano com o desenvolvimento e a venda de tecnologia. Sendo o segundo maior polo tecnológico do estado, de acordo com o Observatório ACATE 2025, a cidade é frequentemente celebrada. Ela ocupa o 7º lugar no ranking de cidades mais inteligentes da região Sul e a 21ª posição em todo o Brasil pelo índice Connected Smart Cities

Segundo dados da prefeitura local, Blumenau concentra atualmente mais de 150 startups em franca expansão e ultrapassa a marca de 2,9 mil empresas de tecnologia formalizadas. É, inclusive, uma das poucas gestões municipais que injeta verbas diretas para financiar trilhas de educação na área de inovação tecnológica. O paradoxo sufocante é que a mesma cidade que exporta inovação de ponta e abriga sedes de multinacionais com faturamentos que rompem a impressionante barreira de R$ 1 bilhão anual, na esmagadora maioria das vezes, não aplica essa inovação de forma funcional para seus próprios cidadãos. A pergunta que ecoa no asfalto irregular da Rua XV é clara: se a cidade não consegue garantir sequer calçadas niveladas e semáforos com aviso sonoro no centro comercial, qual a chance realista de o código estrutural dessas empresas bilionárias ser livre de barreiras para o leitor de tela? 

Um dos maiores e mais ilustrativos exemplos dessa falsa inclusão, frequentemente travestida de praticidade moderna, é a onipresença dos “QR Codes”. Vendidos agressivamente por agências de marketing e adotados em massa por instituições como a ponte definitiva e barata para a acessibilidade — substituindo silenciosamente cardápios físicos em restaurantes, totens informativos, letreiros e guias de museus —, os pequenos quadrados bidimensionais escaneáveis carregam em sua essência uma falha de design óbvia para quem não utiliza a visão: de que serve uma porta aberta se o usuário sequer consegue tatear para encontrar a maçaneta? 

A invisibilidade dessa suposta “solução” tecnológica salvadora foi sentida na pele por Richard durante uma palestra obrigatória na universidade. A validação de suas horas complementares exigia que o aluno levantasse o celular e escaneasse uma imagem projetada momentaneamente na parede do auditório. “A minha dúvida primeiramente é: como que você vai saber que o QR Code está lá? Ninguém comentou em voz alta que ele estava lá presente no telão. Eu ia passar reto disso e perder minhas horas, eu só estava ali para ouvir”, relata o universitário, que só conseguiu garantir sua presença institucional graças ao aviso sussurrado de um colega vidente. 

A ironia tecnológica se aprofunda e se agrava quando o obstáculo físico do enquadramento da câmera é, com muito custo, superado. Escanear o código raramente é garantia de autonomia para a pessoa cega. Muitas vezes, ao concluir a leitura do código, o link redireciona a tela do usuário para um documento em formato PDF achatado como imagem — algo que os leitores de tela são absolutamente incapazes de traduzir em áudio —, ou para páginas web entupidas de botões não rotulados. 

Para Patrícia, colar um adesivo impresso com tecnologia na entrada de um ambiente não isenta a sociedade e os donos de negócios de oferecerem o suporte analógico básico. “Será que existe, realmente existe, atrás desse QR Code, um cardápio digital realmente bem explicativo? Muitas vezes é só uma foto. Nada substitui o documento físico em Braille, nada substitui a presença de uma audiodescrição humana qualificada”, crava a pedagoga, destruindo a muleta da tecnologia preguiçosa. 

O paradoxo embutido no uso excludente do QR Code escancara a essência do problema enraizado no prestigiado “Vale do Software”: inovar não significa apenas importar e reproduzir a tecnologia mais barata e moderna do mercado externo, mas garantir estruturalmente que ela não crie novos muros e labirintos invisíveis para a parcela da população que já gasta uma energia vital gigantesca tentando contornar as calçadas quebradas e obstáculos físicos da cidade.

O Algoritmo da Exclusão: Entre a Lei, a Realidade e o Código Limpo 

A conquista do mínimo de cidadania para as pessoas com deficiência no Brasil nunca foi um evento concedido, mas uma maratona exaustiva de militância. Foram necessários longos e árduos 15 anos de debates intensos nos corredores do Congresso Nacional para que a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) fosse finalmente sancionada em 2015. O texto legislativo, que começou a ser desenhado ainda nos anos 2000, precisou atravessar uma mudança de paradigma global impulsionada pela ONU: deixar de considerar a deficiência como uma “condição médica limitante” do indivíduo para passar a entendê-la, corretamente, como o resultado da interação entre a limitação da pessoa e as barreiras impostas pelo ambiente e pela sociedade. 

No papel frio da legislação, o Artigo 63 da LBI é irredutível e taxativo: é obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no País e pelos órgãos de governo. Na prática diária, porém, o rigor da lei esfacela-se na crônica dificuldade de fiscalização estatal. Sem uma agência reguladora dedicada que possua alcance investigativo suficiente e recursos técnicos avançados para monitorar, multar e auditar a vastidão incalculável da internet brasileira, o cumprimento da norma técnica é tratado como uma sugestão polida, e logo cai no esquecimento. 

Essa falta completa de vigilância rigorosa alimenta e patrocina a negligência continuada das corporações. Embora grandes bancos de varejo e mega plataformas de e-commerce sejam os alvos mais frequentes de reclamações formais dos usuários, o cenário macroeconômico é de calamidade. Levantamentos detalhados realizados pelo movimento Web para Todos, em parceria com a empresa BigDataCorp, já indicavam historicamente que menos de 3% dos sites brasileiros eram plenamente acessíveis aos testes. Em análises técnicas mais recentes, esse índice catastrófico despencou para ínfimos 0,46%. É um dos níveis de exclusão mais brutais já registrados, revelando sem meias palavras que a imensa maioria dos milhões de domínios ativos no país hoje possui barreiras quase impossíveis de serem contornadas por usuários que não enxergam a tela. 

“O leitor de tela, muitas vezes, não consegue ler o contexto da página. A voz robótica fica repetindo ‘link’, ‘link’, ‘link’ seguidamente. Se o desenvolvedor, lá na base, não colocou uma etiqueta de texto ou um atributo alternativo na imagem, a gente simplesmente não sabe para onde aquele clique vai nos levar. É um ‘clique aqui’ sem destino, é um voo cego”, afirma Richard, traduzindo o desespero de navegar sem bússola. 

Patrícia complementa a denúncia descrevendo outro obstáculo estrutural doloroso: o excesso massivo de informações visuais amontoadas e desorganizadas no código-fonte. “E tem a questão da hierarquia do site. A gente entra no portal de notícias e quer ver logo a manchete principal, mas o leitor de tela começa a ler mecanicamente todos os menus superiores, botões de redes sociais e dezenas de anúncios publicitários antes de finalmente chegar no texto que interessa. É uma poluição sonora contínua que cansa, que adoece”, lamenta. 

Os problemas diários descritos com precisão pelos entrevistados são o espelho exato das principais violações das diretrizes internacionais apontadas por auditores especializados no tema (o consórcio W3C): a falta crônica de compatibilidade do código com leitores de tela móveis, a ausência quase total de faixas de audiodescrição para elementos visuais vitais, a navegação estritamente impossível utilizando apenas os comandos de um teclado (sem o uso do mouse), e a ausência frequente de legendas descritivas em materiais audiovisuais nas redes. 

O que torna o avanço implacável desse “Algoritmo da Exclusão” ainda mais silencioso e confortável para as grandes corporações é a taxa irrisória de denúncias judicializadas. Um estudo aprofundado do Procon-SP indicou que a esmagadora maioria — cerca de 81% — das pessoas com deficiência que encontram barreiras intransponíveis durante tentativas de compras em lojas virtuais acabam desistindo da ação e não formalizam a queixa oficial aos órgãos de defesa do consumidor, seja pelo desgaste burocrático ou pelo cansaço do próprio processo digital inacessível de reclamação. Quando há iniciativa e canais facilitados, no entanto, os números mostram a força reprimida da demanda: o projeto ativista independente SOS Surdo, apenas para citar um exemplo claro, já registrou mais de 1.000 denúncias documentadas contra grandes empresas por total falta de acessibilidade digital desde o ano de 2020. 

O Recado Definitivo a quem desenvolve Software 

Para que a sociedade que enxerga entenda verdadeiramente a profundidade do fosso digital, é preciso fechar os olhos e focar apenas em observar, com atenção, como a internet soa e responde para quem depende exclusivamente do áudio e do tato. 

Na superfície de vidro liso da tela do celular, Patrícia explora o ambiente virtual caótico arrastando a ponta do indicador com precisão tátil adquirida. Enquanto ela tateia a tela fria, o leitor nativo dispara uma voz sintética e robótica ajustada em altíssima velocidade, traduzindo a estrutura do aplicativo em uma torrente de palavras. De repente, a fluidez do uso simplesmente trava. O dedo de Patrícia estaciona sem querer em um banner publicitário que não possui nenhuma descrição no código-fonte, e a voz mecânica entra em um loop, repetindo uma sequência torturante e inútil de “link, link, botão não rotulado, botão não rotulado”

Do outro lado da realidade digital, sentado diante de um monitor apagado de notebook, Richard confia apenas na agilidade memorizada de seus dedos operando o teclado físico. A cada batida seca e firme na tecla Tab (utilizada para saltar de link em link), ele aguarda pacientemente que o software leia e obedeça à arquitetura semântica do site. Em vez de avançar rapidamente, seu cursor esbarra em caixas de formulários soltas, caixas de pesquisa invisíveis e menus em cascata labirínticos. O sistema rudimentar o obriga a ouvir estoicamente dezenas de links paralelos antes de conseguir chegar sequer ao título central da página que ele desejava acessar. É uma experiência de navegação baseada unicamente na resistência da paciência, um cansaço silencioso, frustrante e diário, provocado diretamente por linhas de programação de desenvolvedores que, seja por pressa ou ignorância técnica, os ignoram completamente. 

Essa fadiga exaustiva, é preciso deixar cristalino, não é um erro de manipulação de quem está navegando; é um erro técnico imperdoável de quem se sentou na cadeira para programar. A falha estrutural primária do lucrativo mercado de tecnologia no Brasil está em tratar a inclusão de pessoas diversas como um incômodo “puxadinho” no espaço virtual. Acessibilidade virou sinônimo de uma adaptação feita de última hora, no apagar das luzes antes do lançamento do produto, apenas para tentar evitar o risco de multas trabalhistas, ou pior: para garantir ostentação de um selinho azul e inflar campanhas rasas de marketing afirmativo. 

“Vocês têm que criar a tecnologia, sim, mas também já fazer isso pensando ativamente na acessibilidade desde o rascunho, e não colocar isso escanteado em segundo plano”, alerta Richard, escancarando com clareza cristalina a falha cronológica grave nos ciclos gerenciais de projetos de TI. “Porque a pessoa, o programador, compõe e escreve o site inteiro, põe ele de pé e só depois pensa: ‘tá, caramba, como é que eu faço isso aqui ficar acessível agora?'” 

Mas afinal, por que o código de programação no Brasil já nasce quebrado e excludente desde a sua origem? Para entender verdadeiramente a raiz crônica deste problema corporativo, é fundamental voltar os olhos para a base acadêmica de quem constrói e arquiteta essas plataformas milionárias. É exatamente neste ponto cego que entra a perspectiva técnica e incisiva de Álvaro Zermiani, profissional de 38 anos que atua na linha de frente do desenvolvimento. 

Formado inicialmente em Jornalismo, Álvaro acompanhou as mudanças do mercado e realizou uma transição de carreira para a área de tecnologia em 2019. Desde 2021, ele ocupa o cobiçado e raro posto de Especialista em Acessibilidade Digital na Serasa Experian, uma das maiores instituições de dados do país. Sua visão é forjada na junção entre a teoria do código e a dura prática da vida real: Álvaro perdeu a visão subitamente aos 13 anos de idade, em decorrência de complicações médicas não esperadas durante uma rotineira cirurgia de remoção de apêndice. 

A busca de Álvaro pela acessibilidade não se limita aos códigos de programação das grandes empresas; ela permeia as experiências mais íntimas da vida. Quando ele e sua esposa, Ana — também deficiente visual — descobriram a gravidez, a tecnologia tornou-se o meio para superar uma das barreiras mais subjetivas da paternidade: a impossibilidade de ‘ver’ o filho antes do nascimento. Através de um médico pioneiro no uso de impressões 3D para fetos, Álvaro pôde, pela primeira vez, tatear o rosto de Davi Lucas ainda no útero.

Tecnologia como extensão do toque: Álvaro Zermiani, especialista em acessibilidade, segura uma réplica em resina em 3D do rosto de seu filho, Davi Lucas, ainda na 20ª semana de gestação. O recurso permitiu que o pai e mãe cegos pudessem tatear as feições e detalhes do rosto do filho antes mesmo do nascimento.

Mais do que um registro, o gesso em resina do rosto do filho, com cada detalhe do queixo e nariz, tornou-se o símbolo de que a tecnologia, quando desenhada para incluir, devolve às pessoas com deficiência o direito de viver as experiências que a sociedade, por vezes, tenta restringir. 

Hoje, ele compreende e sente na própria pele as duas pontas isoladas desse ecossistema problemático. Como especialista técnico, é ele quem audita as falhas dos softwares, escaneia plataformas recém-criadas em busca dos malditos “botões não rotulados”, e trabalha incessantemente nos bastidores corporativos para tentar convencer equipes inteiras de desenvolvimento a tornarem os aplicativos utilizáveis para quem, assim como ele, depende vitalmente de leitores de tela. 

O cerne do problema da inacessibilidade, segundo Álvaro aponta sem rodeios, começa muito antes de a primeira linha de código do site ir ao ar. O apagão digital que exclui milhões de brasileiros ocorre, de forma silenciosa e sistemática, dentro das salas de aula das universidades de elite. “Existe um grande, um enorme problema estrutural no desenvolvimento de produtos digitais que é, pura e simplesmente, a falta de conhecimento prévio das pessoas que os constroem”, explica o especialista, desmistificando a ideia de que a exclusão seria uma malícia deliberada. “E não é necessariamente porque o jovem programador não quer saber ou tem preconceito. É porque, na ementa de um curso de graduação em Análise de Sistemas, nas engenharias ou em Ciências da Computação, não existe sequer uma cadeira fixa, uma disciplina obrigatória ou um conteúdo que seja extenso e robusto focado em acessibilidade digital. Eles não aprendem a fazer.” 

Se os cobiçados desenvolvedores de software, cujos salários inflacionam o mercado no “Vale do Software”, saem das bancadas das faculdades sem saber construir acessos digitais mínimos para pessoas com deficiência, o fardo de tentar derrubar esses muros invisíveis recai integralmente sobre as costas de departamentos frequentemente subdimensionados, isolados e subfinanciados dentro das próprias corporações que os empregam. 

Mesmo quando o olhar recai sobre gigantes absolutas do setor financeiro e de gestão de dados, a balança de investimentos de recursos humanos e financeiros evidencia de forma gritante a falta de prioridade real da diretoria para a causa da inclusão. “Na Experian, que atua como a mantenedora financeira de todas as extensas unidades de negócios em operação no Brasil e que contempla uma força de trabalho de mais de 6 mil funcionários na sua folha de pagamento, hoje, só tem a mim trabalhando focado com o tema da acessibilidade digital”, revela o especialista, expondo a solidão da função no mercado. “É um processo extremamente complexo escalar as regras de acessibilidade para milhares de produtos tendo apenas uma pessoa na equipe. Mas a gente está lá dentro, cobrando e lutando diariamente por cada melhoria.” 

A vivência diária de Álvaro nos bastidores das grandes torres corporativas endossa e valida tecnicamente a cobrança urgente feita por Sarah, Richard e Patrícia a partir de suas próprias dores. Romper o viciante ciclo mercadológico do Tokenismo Digital exige abandonar urgentemente o velho hábito confortável de apenas encomendar adaptações posteriores e remendos de código. Não basta apenas submeter o portal web pronto a avaliadores automáticos de erro no final da esteira de produção; é imperativo, civilizatório e legal incluir quem de fato vai usar a ferramenta final nas prestigiadas mesas de decisão das startups, nas reuniões de conselho e nas fileiras de contratação das grandes multinacionais da região, desde a aprovação da primeira linha do projeto. 

Como decreta Patrícia, resumindo décadas de militância em uma constatação simples, a inovação real só deixará de ser uma utopia quando as empresas praticarem a escuta ativa: “Ele tem que colocar ali no setor um consultor ou uma consultora deficiente, contratada. Porque só nós que usamos podemos fazer o dono do produto entender quais são os verdadeiros caminhos da navegação, por mais que ele se ache o grande bambambam da programação brasileira.” 

Enquanto a tão aplaudida tecnologia catarinense e o pujante polo nacional de desenvolvimento continuarem escrevendo e publicando sistemas baseados exclusiva e arrogantemente nas vivências visuais de jovens desenvolvedores sem deficiência, a internet de 2026 continuará parecendo, para milhões de cidadãos, o interior de um prédio ultramoderno, revestido de espelhos, no qual os arquitetos simplesmente esqueceram de construir as portas e a rampa de acesso. O letal algoritmo da exclusão só será definitivamente reescrito, desativado e substituído quando a acessibilidade digital deixar de ser tratada como um favor caridoso adicionado no final do cronograma, para se tornar — desde os primeiros rabiscos na sala de aula universitária — o alicerce mais fundamental e inegociável de qualquer pretensão de inovação.

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