Entre quedas e dificuldades, pedestres convivem com o abandono das calçadas em Blumenau

Buracos, desníveis, mato alto e falta de acessibilidade comprometem a segurança e a mobilidade de moradores, especialmente idosos e pessoas com deficiência. 

Por Johanna Oliveira, Makely Montibeller e Fernanda Koslowski

“Quebrei o braço e a prótese do joelho”, relata Irma da Silva Vargas, aposentada de 74 anos, que sofreu uma queda em uma calçada de Blumenau enquanto caminhava para a academia. Usuária de bengala, ela tropeçou em uma poça d’água em um dia chuvoso e acabou atingindo o braço em um parafuso solto de um orelhão que havia sido retirado recentemente do local. Sem ninguém por perto para prestar ajuda, permaneceu caída no chão por cerca de dez minutos, sentindo fortes dores e sem conseguir se levantar sozinha. 

Imagem feita pela equipe de reportagem.

 As consequências da queda foram graves, e dona Irma precisou de cerca de dez meses de recuperação. O caso chamou atenção para os problemas de manutenção e segurança da infraestrutura urbana. 

“Ou anda pela rua, ou não sai de casa”: calçadas precárias limitam a mobilidade em Blumenau 

Calçadas com desníveis, ausência de rampas, buracos e falta de acessibilidade. Essas são algumas das dificuldades enfrentadas diariamente por pessoas com deficiência física ou idosos como foi o caso da Dona Irma, em Blumenau. Para quem depende de cadeira de rodas, a mobilidade urbana ainda é um desafio. Associado da Associação Blumenauense dos Deficientes Físicos (ABLUDEF) há aproximadamente três anos, Eucinete Raimundo dos Santos conta que, em muitos trechos da cidade de Blumenau, não existe estrutura mínima para circulação de cadeirantes. “No meu ponto de vista, é bem complicado. Tem lugares que nem têm calçada, na verdade. A gente tem que andar pela rua porque não tem outra escolha”, relata Eucinete que mora no bairro Ponta Aguda. Segundo ele, muitas vezes a alternativa é dividir espaço com os carros. “Ou anda pela rua, ou então não sai de casa”, afirma. 
 

Imagem feita pela equipe de reportagem. 

Além da dificuldade de andar na calçada, muitas vezes ele precisa ir para rua disputando espaço com os carros, ele explica que a situação também gera constrangimento. “Às vezes a gente vai na rua porque não tem outro acesso. Passa alguém e fala alguma coisa. Fica chato para a gente.”

Entre buracos e desníveis, pedestres enfrentam insegurança diária 

Eucinete conta que costuma sair sozinho na maior parte do tempo, mesmo enfrentando dificuldades físicas. Ele explica que depende da cadeira de rodas para realizar todas as atividades do dia. “Muitas vezes eu ando sozinho, acho que uns 90% do tempo. Eu vou no mercado, farmácia, banco, consulta… vou para qualquer lugar”, diz.

Imagem cedida pelo Eucinete. 

Apesar da independência, ele afirma que a estrutura das calçadas nem sempre permite uma locomoção segura. Em alguns casos, a falta de acessibilidade nas calçadas já gera quedas para o cadeirante. “Quando a gente cai, depende de alguém aparecer para ajudar a levantar. Muitas vezes não consegue sair sozinho”, conta. Entre os episódios mais marcantes relatados por Eucinete está uma queda ocorrida quando ele seguia para uma sessão de fisioterapia. Eucinete conta que ele, em determinado trecho não existia calçada adequada, obrigando o deslocamento pela rua. Ao tentar acessar uma rampa, a cadeira perdeu a estabilidade e caiu. “Eu parei um pouquinho para subir e, quando acelerei para entrar na rampa, a cadeira virou para trás”, relembra. Na época, ele havia recebido uma cadeira nova do SUS. Diferente da anterior, o equipamento tinha menos estabilidade. 

“Por pouco eu não bati a cabeça no chão. A minha sorte é que a cadeira tinha uma proteção atrás”, afirma. O acidente aconteceu no início da manhã e algumas mulheres que passavam pelo local ajudaram Eucinete a levantar. Além das quedas, o associado da ABLUDEF relata que muitas rampas da cidade são consideradas perigosas para cadeirantes. Em outro episódio recente, ao tentar subir uma rampa próxima de uma farmácia, a cadeira voltou para trás e ficou apoiada apenas nas rodas traseiras. “A cadeira deu ré. Eu não caí porque ela enganchou atrás”, conta. 

Segundo ele, em alguns locais o acesso é tão complicado que a única forma segura de subir é manobrando a cadeira de costas. Mesmo assim, ele afirma que o procedimento ainda oferece riscos dependendo da inclinação da rampa. 

Mobilidade em meio ao trânsito 

Eucinete também relata situações de desconforto ao circular pelas ruas por falta de acessibilidade nas calçadas. Ele lembra de um episódio em que um motorista reclamou por ele não estar utilizando a faixa de pedestres. “O cara falou: ‘vai pela faixa’. Mas às vezes a pessoa acha que a gente está errado e não entende que não existe outro acesso”. Segundo ele, em muitos pontos até existem calçadas e faixas, mas os acessos são inadequados para cadeiras de rodas. 

Para Eucinete, um dos problemas é perceber que obras recentes continuam sendo feitas sem planejamento adequado para pessoas com deficiência. Ele acredita que engenheiros e responsáveis pelas construções deveriam prestar mais atenção na acessibilidade antes das obras serem concluídas. 

Ele cita como exemplo um ponto de ônibus próximo a um supermercado, na Via Expressa. O local possui espaço suficiente para uma estrutura acessível, mas o embarque de cadeirantes continua difícil. “Você tem que pedir para o ônibus parar fora do ponto porque não consegue acessar direito”, relata. 

“Tem que pensar na acessibilidade desde o começo”, planejamento urbano ainda deixa pessoas com deficiência de lado 

Apesar das dificuldades, Eucinete acredita que mudanças ainda podem ser feitas para melhorar as calçadas de Blumenau. Para ele, adaptar toda a estrutura urbana seria algo complicado, mas novas obras deveriam ser planejadas pensando desde o início na acessibilidade. “Desconstruir tudo não tem como. Mas, a partir de agora, precisa pensar melhor nisso”, afirma. 

Segundo ele, o problema não está apenas na falta de calçadas, mas na ausência de planejamento adequado para garantir segurança e autonomia às pessoas com deficiência.  

As calçadas são parte integrante das vias públicas e têm como função principal garantir a circulação segura dos pedestres. Diariamente, milhares de pessoas utilizam esses espaços a caminho do trabalho, de compromissos ou acompanhadas de familiares. No entanto, quando apresentam problemas estruturais, deixam de cumprir sua finalidade e passam a representar riscos à integridade física da população, tornando-se um alerta para a mobilidade e a segurança urbana. 

A legislação municipal, por meio da Lei Complementar nº 550/2005, determina que a construção de calçadas é obrigatória em todos os terrenos, edificados ou não. De acordo com a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (Seplan), nos imóveis privados a responsabilidade pela construção, manutenção, conservação e limpeza das calçadas é do proprietário. “Nesses casos, o município atua na fiscalização, notificação e, quando necessário, aplicação de multas em situações de irregularidade. Já nas calçadas localizadas em imóveis públicos municipais, a responsabilidade pela manutenção e conservação é da Prefeitura, por meio da Secretaria de Serviços Urbanos (Sesur)”, destacou a secretária. 

Em 2012, a Seplan lançou a cartilha de calçadas de Blumenau, que trouxe ilustrações e informações sobre medidas necessárias para garantir acessibilidade a pessoas com dificuldade de locomoção, aquelas que utilizam equipamentos auxiliares como bengalas, muletas, andadores e cadeiras de rodas. Segundo o documento, as calçadas devem ter largura mínima de 0,75 metros para usuários de bengala, 0,85 metros para quem utiliza andador, 0,95 metros para pessoas que dependem de muletas e 0,85 metros de largura e 1,20 metro de comprimentos para pessoas em cadeiras de rodas. 

Ilustrações: Cartilhas de calçadas em Blumenau.  

Passados 14 anos, essas recomendações ainda não se tornaram realidade em grande parte da cidade. Muitas calçadas não atendem às metragens mínimas exigidas para a segurança dos pedestres e, em alguns casos, sequer existem, obrigando moradores a caminhar pelas ruas e se expondo a riscos diários. A presidente da Abludef, Maria Helena Mabba, relatou que as calçadas são um problema recorrente para as pessoas que fazem parte da associação e, até ela mesmo. “Eu morro de medo de sair de casa, tenho vontade de ir à igreja que é no final da rua, mas não tenho coragem porque tem aquelas pedras de paralelepípedos levantadas e tenho medo de cair”, comenta.  

Atualmente, a associação tem mais de duas mil pessoas cadastradas. Entre elas, muitas reclamam da falta de acessibilidade e até mesmo mobilidade em que não conseguem participar dos encontros da associação devido a falta de ônibus. “Tem pessoas que precisam ir embora antes do encontro porque perde o último ônibus e outros casos que, como existe somente um lugar para pessoas em cadeira de rodas dentro do ônibus e estarem duas pessoas no ponto e um olhar pra outro e decidir quem vai no ônibus”, relata a presidente. 

Maria Helena está há mais de 30 anos na associação e destaca que participou da aprovação da Lei Complementar nº 550/2005, sancionada em dezembro daquele ano. No entanto, mesmo após 21 anos, ela afirma não perceber grandes mudanças nas calçadas de passeio público, muitas das quais continuam abandonadas, principalmente nos bairros. “Todos os bairros têm alguma reclamação sobre as vias, ou não tem calçada e precisamos andar no meio da rua, e aí ainda tem pessoas que não respeitam”, finaliza. 

A presidente da associação destaca que não frequenta o Centro de Blumenau muitas vezes, preferindo usufruir dos comércios locais do bairro, porém sente que falta ainda adaptação para pessoas com deficiência. “Eu não vou no centro para nada, porque a gente mora no bairro e tem tudo, mas o nosso bairro também não é adaptado. Além das calçadas, a gente chega em uma loja, tem um degrau, dois para subir, e fica ruim”, finaliza. 

Problemas de infraestrutura e falta de manutenção em bairros de Blumenau

Para entender melhor a situação das calçadas em Blumenau, foi realizada uma pesquisa por meio de um formulário com moradores da cidade. A pesquisa foi realizada pelas prpoprias estudantes que escreveram a matéria. A partir das mais de 30 respostas válidas coletadas, os dados revelam problemas recorrentes que impactam diretamente a mobilidade urbana e a segurança de pedestres em diferentes regiões do município. 

Um dos pontos que mais chama atenção é que apenas duas respostas foram de ruas localizadas próximas ao Centro de Blumenau. A maioria das reclamações veio de bairros mais afastados, o que levanta um questionamento sobre como está sendo feita a manutenção das calçadas fora da região central da cidade e se existe diferença na conservação da infraestrutura entre os bairros. 

Entre os principais problemas apontados pelos moradores, o mato alto aparece como a reclamação mais frequente. Cerca de 80,6% dos participantes, o equivalente a 25 pessoas, afirmaram que a falta de roçada e limpeza prejudica a circulação nas calçadas. Já o desnível foi citado por 74,2% dos entrevistados (23 pessoas), indicando dificuldades principalmente para idosos, crianças e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. 

Os buracos nas calçadas também aparecem entre os problemas mais recorrentes. Ao todo, 67,7% dos participantes, o equivalente a 21 pessoas, relataram esse tipo de situação. Além de dificultarem a passagem, os buracos aumentam o risco de acidentes e quedas. 

A pesquisa ainda mostra que a percepção da população sobre as condições das calçadas é majoritariamente negativa. A maior parte dos entrevistados classificou a infraestrutura como ruim, péssima ou apenas regular, demonstrando insatisfação com a falta de manutenção e acessibilidade. 
 

Outro dado que reforça a gravidade da situação é que mais de 67% das pessoas afirmaram já ter sofrido, presenciado ou quase passado por acidentes causados pelas condições das calçadas. O número evidencia que os problemas vão além do desconforto e representam riscos reais para quem circula a pé pela cidade. 

Os dados do levantamento revelam que, para muitos moradores, caminhar por Blumenau ainda é um desafio diário, especialmente nos bairros mais afastados da região central. 

Relatos de moradores reforçam sensação de descaso 

Além dos números da pesquisa, as respostas descritivas enviadas pelos moradores reforçam a sensação de abandono e insegurança nas calçadas de Blumenau. Entre os principais relatos aparecem problemas como falta de manutenção, buracos, mato alto, desníveis e dificuldades de acessibilidade em diferentes regiões da cidade. 

Muitos participantes afirmaram que caminhar por Blumenau se tornou uma tarefa difícil e até perigosa, principalmente para idosos, cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. “As ruas e calçadas precisam de uma reforma urgente”, escreveu um dos moradores. Outro participante relatou que, em alguns pontos, “é preciso andar pela rua porque a calçada está tomada pelo mato”. 

A presença de vegetação alta, inclusive, foi o problema mais citado na pesquisa. Cerca de 80,6% dos participantes afirmaram que o mato atrapalha a circulação de pedestres. Em uma das respostas, um morador destacou que “o mato invade até a ciclovia, obrigando as pessoas a dividirem espaço com bicicletas ou carros”. 

Os desníveis também foram apontados como um problema recorrente. Para 74,2% dos entrevistados, a falta de nivelamento dificulta a passagem e aumenta o risco de acidentes. “Tem lugares em que idosos simplesmente não conseguem passar”, afirmou um participante. Já os buracos nas calçadas foram mencionados por 67,7% das pessoas que responderam ao formulário. 

Outro ponto que aparece com frequência nos relatos é a sensação de descaso nos bairros mais afastados da região central. 

A pesquisa também revela preocupação com a acessibilidade. Participantes citaram falta de rampas, ausência de calçadas em algumas vias e trechos considerados praticamente intransitáveis. “Só tem calçada de um lado da rua”, relatou uma das respostas. 

Problema antigo… 

Andando pelas ruas de Blumenau é evidente a falta de infraestrutura das calçadas. Em 2015, a gestão da época já identificava esse problema e lançou o Programa Calçada nota 10, o objetivo era melhorar as condições de circulação de pedestres e garantir mais segurança e acessibilidade nas vias públicas do município. A iniciativa partiu da Secretaria de Planejamento Urbano, na época a ideia era incentivar a população sobre a importância da construção e manutenção adequada das calçadas, além de incentivar a padronização dos passeios. 

O Programa Calçada Nota 10 era para prever um sistema de avaliação das calçadas. Moradores dos bairros iriam cadastrar suas ruas no site da prefeitura, enviando fotos para análise técnica. As calçadas receberiam notas de zero a dez, e aquelas que atingissem a pontuação superior a 9,1 garantiriam aos proprietários um certificado de reconhecimento e desconto de 7% no Imposto Territorial, que compõe o cálculo do IPTU. Já ruas com avaliação inferior poderão passar por melhorias e solicitar uma nova análise. 

Além disso, o programa incluía um levantamento técnico das condições das calçadas em Blumenau, já que naquele tempo abrangia cerca de 30% da cidade. A iniciativa era para se ter deve um diagnóstico detalhado da qualidade dos passeios em cada bairro, auxiliando no planejamento urbano. 

Calçadas sem acessibilidade dificultam mobilidade e colocam pedestres em risco, explica o arquiteto, Christian Krambeck 

Calçadas sem planejamento, desniveladas e tomadas por obstáculos dificultam a mobilidade urbana e colocam em risco idosos, pessoas com deficiência e até quem apenas tenta caminhar pela cidade. Quem explica essa situação é o arquiteto e urbanista, professor da FURB, Christian Krambeck. Segundo ele, o primeiro passo para uma calçada acessível é o básico: ela existir e permitir a circulação segura das pessoas. “Ela precisa ter espaço físico para passar um cadeirante, alguém empurrando a cadeira de rodas e até um carrinho de bebê no sentido contrário”, explicou. Para isso, o ideal seria uma largura mínima de 1,60 metros. Uma realidade completamente diferente nas ruas de Blumenau, um exemplo é a calçada do bairro Itoupava Norte, na rua 4 de fevereiro. 

Além da largura, o arquiteto destaca que a calçada deve ter pavimento adequado, menos rugoso, nivelamento e piso tátil nos locais necessários. Também não pode ter obstáculos no caminho, como mesas, placas, postes e buracos. 

“O erro mais comum é a falta de planejamento. A maioria das calçadas é feita sem projeto técnico e sem acompanhamento”, afirmou. Christian Krambeck também critica a priorização dos carros nas cidades. Para ele, os acessos para veículos acabam criando rampas e desníveis que prejudicam quem caminha. Outro problema apontado é a falta de manutenção, que desgasta sinalizações no chão e provoca buracos e áreas desniveladas. 

“Isso representa risco não só para pessoas com deficiência ou idosos, mas para qualquer pessoa”, disse. Ele lembra que mães com carrinho de bebê, pessoas carregando compras e crianças também enfrentam dificuldades diariamente. 

Piso tátil, inclusão e planejamento urbano 

Outro ponto destacado foi a necessidade de investir em fiação subterrânea, especialmente em áreas centrais e turísticas, para reduzir obstáculos nas calçadas. Sobre o piso tátil e as rampas de acesso, o arquiteto reforça que existem normas específicas, como a NBR 9050, mas defende que apenas seguir a legislação não é suficiente. Segundo ele, é necessário ouvir as pessoas com deficiência e incluí-las no planejamento urbano. 

“A norma não dá conta de tudo. É importante conversar com as associações e entender as dificuldades do dia a dia”, explicou. 

Para Christian Krambeck, a calçada é um dos principais elementos da vida urbana porque vai além do deslocamento. “O caminhar é se encontrar, cuidar da saúde, passear, tomar um café, viver a cidade”, afirmou. Ele acredita que cidades com boas calçadas incentivam mais pessoas a caminharem e ajudam na qualidade de vida. Também defende integração com ciclovias, praças, parques e áreas de convivência. 

O arquiteto avalia que ainda falta debate público sobre mobilidade urbana. Segundo ele, imprensa, técnicos, políticos e moradores precisam participar mais da discussão sobre acessibilidade e ocupação dos espaços urbanos. Questionado sobre a disputa de espaço entre pedestres e estruturas como postes e lixeiras, Christian Krambeck afirmou que o problema é ainda maior. “Não é uma disputa justa. O carro engole tudo: espaço, orçamento, atenção e planejamento”, concluiu. 

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