Entre estabilidade, vocação e mercado: o que explica a escolha dos cursos superiores no Brasil

O crescimento de áreas como Psicologia e Publicidade e Propaganda e os desafios enfrentados pelos cursos de licenciaturas

Por Andressa Gutz

O Censo da Educação Superior 2025 revelou os cursos de graduação com maior número de matrículas no Brasil e confirmou uma tendência já consolidada no país. O curso de Direito lidera o ranking nacional, seguido por Psicologia. Os dados mostram não apenas a permanência de carreiras tradicionalmente valorizadas, mas também ajudam a compreender como os estudantes têm feito suas escolhas diante de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e instável.

Em meio às transformações econômicas, sociais e tecnológicas dos últimos anos, decidir qual curso superior seguir deixou de ser uma escolha baseada apenas em afinidade pessoal ou habilidade. Para muitos jovens, a graduação passou a representar, antes de tudo, estabilidade profissional, retorno financeiro, possibilidade de crescimento e reconhecimento social, o que  os torna fatores decisivos no momento da definição de qual área cursar.

A forte procura por cursos como Direito demonstra que ainda existe uma valorização significativa de carreiras consideradas seguras e com maior previsibilidade de inserção no mercado. Ao mesmo tempo, o crescimento expressivo de áreas como Psicologia aponta para um interesse cada vez maior por profissões ligadas ao comportamento humano, à saúde mental e às relações sociais, um tema que ganhou ainda mais relevância após a pandemia.

O coordenador do curso de Psicologia na Universidade Regional de Blumenau (Furb), Rodrigo Dias de Vivar y Soler, explica que a ampliação da procura está diretamente ligada à diversidade de atuação que a profissão oferece, mas também chama atenção para os desafios que acompanham esse crescimento. “Hoje na Psicologia a gente tem possibilidades múltiplas de atuação profissional, isso também é um atrativo para as pessoas. Mas ao mesmo tempo a gente assiste um processo de precarização. Quanto mais profissionais a gente tem na área, a tendência é que fique precarizado”, alerta.

Enquanto cursos como Direito e Psicologia seguem em alta, as opções de licenciaturas vivem um cenário diferente. Profissionais à frente de cursos como Letras e Ciências Sociais observam uma queda na procura e um desafio constante de permanência dos estudantes ao longo da graduação. A desvalorização da carreira docente, as condições de trabalho e a baixa atratividade financeira ainda pesam diretamente nessa escolha.

Mesmo assim, fatores como bolsas de estudo, financiamentos estudantis e programas de incentivo como o Universidade Gratuita e outros auxílios principalmente financeiros, oferecidos pelas instituições têm ajudado tanto na entrada quanto na permanência de estudantes no ensino superior. Esse cenário evidencia que, embora novas possibilidades profissionais estejam surgindo e novas áreas estejam ganhando força no mercado, muitos estudantes ainda direcionam suas escolhas com base em modelos já preestabelecidos.

O impacto da saúde mental na escolha profissional

Poucos cursos cresceram tanto nos últimos anos quanto Psicologia. A pandemia de Covid-19 escancarou discussões sobre ansiedade, depressão, relações humanas e saúde emocional, e isso impactou diretamente o interesse pela área. O que antes era visto apenas como uma profissão ligada ao consultório clínico passou a ser compreendido também como uma atuação ampla, presente nas empresas, escolas, hospitais, organizações públicas e no sistema judiciário.

A estudante Maria Clara Torresani Cipriani, que está no sétimo semestre de Psicologia na Furb e já possui uma formação anterior em Direito, afirma que sua escolha está diretamente ligada à sua atuação profissional em gestão de pessoas. Para ela, o conhecimento científico da Psicologia complementa sua experiência prática e torna sua atuação mais qualificada. “Eu acredito que pelo fato de eu trabalhar sempre com as pessoas na área de gestão de pessoas, isso seria ainda mais enriquecedor para o meu currículo. Quando a gente tem essa noção além, realmente através do estudo, através do conhecimento científico, se torna algo mais completo”, explica.

Ela também percebe que a procura pelo curso aumentou principalmente depois da pandemia, quando iniciou o curso de Psicologia, sua segunda graduação. “Eu acredito que esteja em alta, principalmente depois da pandemia, porque foi algo totalmente atípico ao nosso dia a dia e as pessoas deram oportunidade para realmente se entenderem”, recorda.

O coordenador do curso de Psicologia reforça que esse crescimento acontece em todo o país e que a universidade precisa acompanhar essa demanda. “Nos últimos anos a Psicologia vem se destacando como uma das profissões mais procuradas, não só aqui na região, mas em todo o Brasil. A gente tem um crescimento exponencial, uma procura muito grande pela ciência psicológica como um todo”, diz. Rodrigo alerta que esse crescimento exige estrutura. “Não adianta só que o curso cresça. A gente precisa conseguir abarcar esse crescimento da estrutura. Hoje o curso de Psicologia carece de um espaço físico adequado para a realização de estágios. Temos quase 600 alunos e não temos um espaço adequado”. Além disso, ele observa uma mudança no perfil dos estudantes ainda mais crescente pós pandemia. “Da pandemia para cá, o que a gente tem notado é o agravamento psicológico, muita questão da ansiedade, a cultura do imediatismo. A formação em faculdade é processual e isso exige trabalhar frustração”, avalia.

Segundo levantamento do Conselho Federal de Psicologia, o número de profissionais registrados no Brasil já ultrapassa 500 mil, tornando o país um dos maiores mercados da profissão no mundo.

A estabilidade como fator de decisão

A Psicologia cresceu pela demanda da saúde mental e o Direito permanece como uma das graduações mais procuradas pela promessa de estabilidade profissional. A possibilidade de concursos públicos, a ampla atuação no setor jurídico e a segurança econômica ainda fazem do curso uma das escolhas mais tradicionais entre os estudantes.

A coordenadora do curso de Direito da Furb, professora Vanilda da Silva Vargas, destaca que essa é a principal motivação. “Uma das principais demandas é a estabilidade econômica que existe no mercado. Normalmente a área jurídica demanda sempre concursos públicos, o que cria também uma estabilidade”, acredita. Ela também explica que o curso atrai profissionais e estudantes de outras áreas que buscam ampliar possibilidades de atuação. “Muitos profissionais têm outras áreas de atuação e vêm até o curso de Direito porque ele abre mais possibilidades de qualificação”, completa.

Segundo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o país possui mais de 1,3 milhão de advogados inscritos, um dos maiores contingentes jurídicos do mundo, o que reforça tanto a atratividade quanto a competitividade da profissão.

A estudante Thaissa Morais dos Anjos está no terceiro semestre de Direito na Furb e confirma essa visão. Ela escolheu esse curso pela variedade de caminhos possíveis. “Eu escolhi fazer Direito porque tem bastante áreas que eu posso trabalhar. Eu posso advogar, mas como não é algo que eu quero, pretendo futuramente fazer concurso para oficial da Polícia Militar”, explica. Apesar disso, ela reconhece que o mercado também exige preparo e diferenciação. “Tem bastante pessoas formadas em Direito, então é bem difícil conseguir construir teu escritório, fazer teu nome”, diz.

Vanilda também observa uma mudança geracional importante no perfil dos alunos. “Nos últimos dez anos a gente via muito mais um estudante interessado no curso para concurso. Nos últimos três anos eu percebo muito mais uma vocação. Parece que estamos voltando ao tempo em que a atividade profissional era mais vocacionada”.

Novas profissões e novas possibilidades

O avanço das redes sociais, do marketing digital e da produção de conteúdo transformou Publicidade e Propaganda em uma das áreas mais procuradas da comunicação. O mercado já não depende apenas das agências tradicionais. Hoje, profissionais conseguem atuar de forma independente, como freelancers, prestadores de serviço e empreendedores digitais.

Leandro Werner Ribeiro coordena o curso de Publicidade e Propaganda da FURB, uma das opções mais procuradas nos últimos processos seletivos. Ele afirma que “a profissão está muito em alta, a facilidade de arranjar emprego é grande. Seja na área de mercado propriamente dito ou na área de pesquisa, todos os alunos têm uma facilidade muito grande”. Ele destaca também que a atualização constante da profissão se tornou um atrativo para novos estudantes ingressarem no curso. “É uma profissão super dinâmica, que muda muito rápido. A gente consegue acompanhar essas atualizações e isso atrai os estudantes”, avalia.

Thalita Brun, estudante do oitavo semestre de Publicidade e Propaganda, conta que sua escolha veio da afinidade com a área criativa. “Eu sempre gostei da área criativa, principalmente fotografia. Na pandemia comecei a fazer vários cursos de softwares como Photoshop e Illustrator e percebi que era a área que eu queria seguir. Eu fiz quatro anos de Engenharia, mas percebi que não era isso que eu queria. Hoje não me vejo fazendo nenhuma outra faculdade além de Publicidade”, explica. Segundo ela, o aumento da procura é visível. “Esse ano teve mais de cem pessoas que entraram em Publicidade e Propaganda. Nos outros anos o máximo era 50 ou 70”, lembra

A permanência difícil das licenciaturas

Se alguns cursos vivem expansão, as licenciaturas enfrentam um cenário mais delicado. Letras e Ciências Sociais representam bem essa realidade marcada por evasão, desvalorização e dificuldade de permanência.

Marta Helena Cúrio de Caetano, coordenadora do curso de Letras na Furb, explica que “toda vez que há incentivos do governo, principalmente bolsas e auxílios, a gente vê que o curso tem uma entrada muito boa”, avalia. Apesar do incentivo, o principal obstáculo continua sendo a desvalorização da docência. Ela também destaca um dado preocupante. “Hoje no Brasil tem um apagão de mais de 300 mil professores por ano”, alerta.

Para a coordenadora, essa realidade também reflete o desgaste emocional e questões de saúde mental que professores e profissionais da educação passam no dia a dia. A estudante de Letras do primeiro semestre, Ana Carolina Figueiredo Khoury reconhece o problema estrutural do curso que está matriculada “Ninguém mais sonha em ser professor. A Furb dá bolsa tentando incentivar, mas isso precisa vir do governo federal e estadual”, lembra.

Josué de Souza, coordenador do curso de Ciências Sociais da Furb, aponta uma contradição importante. Segundo ele, há crescimento na procura, mas enorme evasão durante a jornada acadêmica devido à histórica desvalorização da carreira docente. Na realidade, a crise do mercado de trabalho também alterou essa lógica. “Muita gente está fugindo da precariedade do mercado e vindo para as licenciaturas. A carreira docente passa a ser atrativa pela estabilidade. Os jovens estão enxergando na carreira docente uma possibilidade de desenvolvimento de carreira”, esclarece, O aumento do interesse no caso de ciências sociais está ligado à agitação política dos últimos anos, que despertou maior atenção em temas ligados à sociologia e à política. Apesar do crescimento, o coordenador destaca que ainda há falta de professores formados.

O estudante do terceiro semestre de Ciências Sociais Thiago Augusto Zeferino relata que a escolha pelo curso também surgiu a partir do interesse por temas sociais e pela influência de familiares ligados à educação. Segundo ele, além das dificuldades financeiras enfrentadas para ingressar na universidade, a permanência no curso ainda é um desafio para muitos estudantes devido à baixa valorização das licenciaturas e às incertezas do mercado de trabalho. “É uma certa luta que a gente faz pra conseguir chamar pessoas para se formar, para estudar e conseguir atuar”, afirma. Thiago destaca que, mesmo diante desse cenário, percebe um aumento no interesse pela área, principalmente motivado pelos debates políticos e sociais recentes. Para ele, cursos voltados à formação de professores exigem reflexão crítica e responsabilidade social, já que os profissionais formados atuarão diretamente na educação e na formação de novas gerações.

O Ensino a Distância e o projeto de vida

Outro fator que influencia diretamente a escolha dos cursos é o avanço do ensino a distância e o peso das bolsas universitárias. Para muitos estudantes, a decisão não acontece apenas pelo sonho profissional, mas pela possibilidade de permanecer na graduação.

Ana Carolina, estudante de Letras, descarta a possibilidade de aulas online. “Eu não consigo fazer graduação EAD. Eu gosto de vir todo dia, ter colegas, ver o professor.” Thalita, que cursa Publicidade e Propaganda, compartilha da mesma percepção. “Além da aula presencial, tem todo o networking que tu consegues estabelecer. Hoje eu não faria uma outra faculdade se não fosse presencial”, conta.

Tatiane Aparecida Viegas Vargas, coordenadora do setor comercial da Furb, explica que o EAD se tornou um concorrente direto, especialmente nas licenciaturas. “A gente ainda concorre com o EAD porque o valor da mensalidade é menor e isso pesa”, diz. Ela também reforça que a escolha pelo curso está profundamente ligada ao mercado de trabalho. “Se tiver mercado, o aluno procura. E quando eu digo mercado, não estou falando só da vaga, mas salário, condições de trabalho e qualidade de vida”, pondera.

Escolher uma graduação não é só uma decisão acadêmica e sim uma estratégia de vida. Entre vocação, estabilidade financeira, empregabilidade e realização pessoal, os estudantes tentam equilibrar as expectativas da realidade. “Escolher um curso que você se sinta feliz”, resume Thalita de Publicidade e Propaganda. Talvez por isso o conselho mais repetido entre eles não seja sobre salário ou carreira, mas sobre identificação.

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