Quanto vale o tempo de um artesão? A luta pela valorização do artesanato em Blumenau

A história de Alice e de outros artesãos mostra as dificuldades de quem vive do trabalho manual e precisa competir com a produção em massa

Por Caroline Maria Sacani 

Cada fio passa pelo aro de madeira e é puxado em direção ao centro, criando a primeira linha. Depois vem a segunda linha, bordada de forma ligeiramente inclinada, cruzando o espaço vazio e formando desenhos de acordo com o bordado escolhido. Todos os caminhos se encontram no centro, formando uma espécie de teia. A parte superior é mais simples de ser confeccionada, já que a inferior, com os bordados, precisa ser feita em harmonia com as cores e os desenhos da peça. Cada um desses processos é realizado diariamente na sala de estar da casa de Alice Kempczinski, 62 anos. Ela liga a televisão e passa cerca de três horas confeccionando filtros dos sonhos todos os dias.

O filtro dos sonhos, conhecido também como “Apanhador de Sonhos” ou “Caçador de Sonhos”, é um amuleto originado da cultura norte-americana. Segundo essa crença, os sonhos  carregam mensagens importantes sobre a vida e o universo. Tradicionalmente, ele serve para proteger durante o sono, separando os sonhos bons dos ruins. Os sonhos bons passam pelo centro da teia, enquanto os ruins ficam presos e desaparecem com a luz do sol, simbolizando proteção e equilíbrio espiritual. Alice também vê significado nas cores e acredita que isso faz diferença no resultado de cada peça. O amarelo pode representar energia e alegria, assim como o sol; o azul está ligado à calma e à tranquilidade; já o preto é associado ao mistério e ao desconhecido.

Trabalhando com artesanato como passatempo desde os 13 anos, Alice aprendeu a bordar e costurar sozinha. No início, serviu como fonte de renda extra para a casa, quando seus filhos ainda eram pequenos. À medida que o tempo passou, o artesanato continuou fazendo parte da vida dela, mesmo que hoje seja apenas um hobby. Além dos filtros dos sonhos, ela também cria bolsas, panos de prato, bonecos, pesos de porta e outros artigos artesanais. Seu marido chileno, Juan Ramirez, também produz peças artesanais. Seus trabalhos são feitos a partir da madeira, desde mesas até comedouros para pássaros.

Assim, juntos, o casal participa de feiras de artesanato pela cidade, como a tradicional feira que acontece aos domingos na rua XV de Novembro, no centro de Blumenau. Aos finais de semana, também expõem seus trabalhos em shoppings, mercados e eventos de artesanato que ocorrem ao longo do ano na cidade. De acordo com Alice, o artesão possui nas mãos o dom da criatividade para criar peças únicas, sempre diferentes umas das outras. “O que eu gosto no artesanato é que você coloca o seu sentimento na peça, vai criando formas. Eu nunca fiz dois filtros iguais, sempre faço um diferente do outro.” Ela complementa: “o retorno do artesanato é ingrato. Às vezes eu fico o dia todo, fiquei uma quinta-feira inteira aqui, e vendi quinze reais em um pano de prato, depois de doze horas na feira.”

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Entre descoberta e dificuldade: o trabalho artesanal de Bárbara Menezes

Essa realidade não se aplica somente a Alice. Bárbara Menezes trabalha com artesanato há 10 anos, mas sua trajetória começou de forma simples e inesperada. Tudo teve início quando ela decidiu pintar um porta-retrato para o chá de bebê de uma amiga próxima. Ao entregar o presente, outra convidada se encantou com o trabalho e fez um pedido: queria um kit de bebê completo, com peças como fraldário, farmácia e uma bandeja com pequenos potes. Foram duas semanas de tentativas e erros até chegar à peça final. “Eu fiquei muito tempo em cima daquilo, não tive lucro nenhum, pelo contrário, paguei para fazer, mas foi o desafio que me despertou. Hoje em dia, o kit de bebê é o que eu mais gosto de fazer, é a minha peça favorita”, conta.

Kit de bebê feito pela artesã Bárbara Menezes – Imagem disponibilizada pela artesã

Ela ainda complementa: “é trabalhoso. Eu continuo levando mais de uma semana, às vezes, para fazer a peça, e realmente são muitas etapas. Pinta, lixa… enquanto você passa tinta nele, ele arrepia, fica todo ‘arrepiadinho’, com uma textura feia, áspera. Então você tem que lixar de novo, pintar de novo, e assim vai. São várias camadas de pinta, lixa, pinta, lixa, até chegar ao resultado esperado”.

Dentre os seus principais trabalhos estão porta-joias, decorações feitas em madeira, caixas personalizadas e kits de bebê. As peças variam entre oito horas e uma semana para serem produzidas e, ao final, são vendidas por cerca de R$ 80,00. O preço, na maioria das vezes, não gera lucro, pois o custo dos materiais de qualidade utilizados na pintura, decoração e acabamento deixa a peça mais cara de ser produzida. Segundo Bárbara, o valor arrecadado por mês com a venda das peças não chega nem perto de um salário-mínimo, que atualmente no Brasil está em torno de R$ 1.621,00. “Se eu for colocar na ponta do lápis, mal vai pagar a conta de luz, a água que eu usei para lavar os materiais e a energia gasta na hora de produzir. Não vejo isso como uma coisa que dá dinheiro”, complementa.

O artesanato e suas relações com a cultura e a economia de Blumenau e região

De acordo com Mariana Girardi Ramos de Aguiar, diretora de Cultura da Secretaria Municipal de Cultura e Relações Institucionais de Blumenau, “o artesanato desempenha um papel fundamental na preservação e no fortalecimento da identidade cultural de Blumenau, pois incorpora técnicas, saberes e temáticas diretamente ligadas à história e às tradições da cidade. Além disso, por meio do trabalho manual dos artesãos locais, essa identidade é difundida e compartilhada com diferentes públicos, ampliando o reconhecimento e a valorização da cultura blumenauense”, comenta.

O artesanato, originalmente, está ligado à manifestação cultural e à forma como as pessoas de um determinado contexto social atuam e se relacionam dentro da sociedade. Seja na forma simbólica do ser humano elaborar sua relação com o mundo nas questões do cotidiano, como no uso das casas e na decoração, seja em um artesanato mais elaborado, que, por vezes, se relaciona com design, moda e arte.

Os materiais disponíveis na natureza ou provenientes de resíduos produzidos pelo próprio ser humano são utilizados no artesanato como forma de ressignificar não apenas a materialidade, mas também de criar e elaborar sentidos sobre ela. Um exemplo são as peças feitas a partir da palha de milho, cujo processo começa desde o plantio da semente, passa pela colheita, separação da espiga das folhas, secagem e, por fim, chega à produção da peça artesanal feita com a palha seca.

A professora Carla Carvalho tem uma vida inteira dedicada à arte. Formada em Educação Artística pela Universidade Regional de Blumenau (Furb), mestre pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela é artista e docente e pesquisa arte e educação. Segundo ela, “no processo de circulação do artesanato, aquilo que, de alguma maneira, nós vemos ou não, é como se fôssemos pensar na existência de povos em que o artesanato é mais valorizado e outros menos valorizados, no sentido simbólico. Então, a gente vai encontrar determinados grupos sendo legitimados e outros não”.

Jamis Antônio Piazza é formado em Ciências Econômicas pela Furb e mestre em Administração pela mesma instituição, onde atua como docente e ocupa atualmente o cargo de pró-reitor de Administração. Para ele, o artesanato valoriza a identidade da cidade ao mostrar suas características locais e, ao mesmo tempo, gera renda para famílias, além de impulsionar o turismo e contribuir para a economia. Ele afirma que “o artesanato é uma maneira de você, em primeiro lugar, mostrar o que a cidade produz, as suas características e, além disso, gerar renda para determinadas famílias. Isso influencia muito na parte do turismo também, porque, quando se vem para uma cidade como Blumenau, procura-se sempre algumas coisas locais, e o artesanato é uma ferramenta que pode ajudar muito a economia da cidade”.

Além de servir como fonte de renda para os artesãos, o artesanato também traz benefícios para a cidade, uma vez que fortalece a circulação de bens na região. Tudo aquilo que gera renda funciona como um motor relevante para a economia, beneficiando ambos os lados: quem produz e a própria cidade, ao atrair visitantes e destacar suas características culturais. Entretanto, nessa mesma perspectiva, o avanço da globalização e o aumento de produtos fabricados em larga escala têm colocado essa dinâmica em risco, já que produtos de fora passaram a ser comercializados e vendidos no lugar de produtos artesanais e originais da região.

Um dos principais fatores que explicam esse aumento é o fácil acesso e o barateamento da produção desses produtos importados. Quando uma peça é padronizada e produzida em larga escala, sua singularidade se perde, assim como o cuidado que geralmente existe em uma peça artesanal. Um produto que, manualmente, pode levar três horas para ser produzido, como o filtro dos sonhos da artesã Alice Kempczinski, em uma produção padronizada pode ser feito em até dez minutos.

“Quando eu começo a industrializar ou começo a usar uma produção em massa, eu tenho uma perda nessa identidade daquilo que é local ou daquilo que é local na relação com o mundo. Porque, quando você começa a usar materiais que vêm da China, todos eles são produzidos e encontrados no mundo todo e, em qualquer lugar, são iguais”, afirma a professora Carla Carvalho. Ainda nessa mesma perspectiva, ela conta que “tudo o que é massificado perde a identidade, perde o que é mais bonito, que seria a singularidade das pessoas. Além da importância cultural, que é significativa para fortalecer a identidade, não no sentido de uma identidade que não se mistura, mas no sentido de pensar as múltiplas identidades dentro dos contextos em que a gente vive”, finaliza.

O impacto da concorrência industrial na renda dos artesãos

A constante competição entre o produto artesanal e o industrializado gera preocupações sobre a renda e o futuro da profissão em Blumenau e região, uma vez que o trabalho artesanal representa um complemento importante na renda de muitas famílias. Segundo o professor e economista Jamis Piazza, qualquer crise que afete a produção e o consumo dos produtos artesanais impacta diretamente o poder aquisitivo dessas famílias, comprometendo o ciclo da economia local. “Porque, se existem famílias que dependem do artesanato, automaticamente uma queda nessa área gera uma redução no seu poder aquisitivo. Muitos têm isso como um fator primordial para a própria sobrevivência. E qualquer crise nessa parte do produto artesanal faz com que eles deixem de ter aquela determinada renda, parem de produzir ou busquem outra opção. Então, qualquer alteração no fomento dessa renda influencia diretamente a família”, explica.

Nesse cenário, a importância da visibilidade do artesão ganha força, uma vez que o seu trabalho é fundamental tanto para a economia local quanto para a construção da cultura tradicional da cidade. As artesãs Cida Boss e Rosimari Bauler fundaram juntas a “Toca do Artesanato”, um espaço no qual ensinam mais de quinze alunos técnicas de tecelagem. A tecelagem é a técnica de entrelaçar fios verticais (urdidura) e horizontais (trama) para formar tecidos. Esse processo pode ser feito manualmente, com o uso de um tear, ou por máquinas industriais, permitindo a criação de diferentes padrões, texturas e espessuras. A escolha dos fios e a forma como eles são cruzados influenciam diretamente no resultado, que pode variar desde tecidos simples até peças mais elaboradas e decorativas.

Ambas as artesãs trabalham há mais de 30 anos com o artesanato e cada uma tem sua própria história e uma forte ligação com o trabalho que desenvolve. Rosimari começou sua trajetória com o tear em um curso de tecelagem na Fundação Cultural de Blumenau. Após se formar, deu aulas na prefeitura durante oito anos. Pouco tempo depois, um amigo próximo cedeu o espaço que deu origem ao projeto e possibilitou sua expansão, local onde hoje funciona a Toca do Artesanato. Já Cida iniciou sua relação com o artesanato ainda na época da escola, durante as aulas de trabalhos manuais. Nessas atividades, ela se identificou com o processo de construção dos tecidos na tecelagem e, com o tempo, foi se aperfeiçoando em outras técnicas. Anos depois, conheceu Rosimari no mesmo curso de tecelagem e, desde 2017, ambas trabalham juntas no espaço de artesanato. Para ela, cada peça é única, desde a escolha dos fios, tamanho, montagem até a finalização dos tecidos.

O processo de cortar e montar o início das peças leva em torno de quatro horas. Já para produzir uma pequena manta, pode levar de dois a três dias. Depois de tecer a peça, ela vai para a etapa da costura, onde o acabamento e a gola de tricô são finalizados. Por fim, todas as peças passam por uma checagem, para garantir que nenhum defeito tenha escapado durante a produção. “As peças de artesanato são demoradas, porque não é uma coisa industrial, ela é única. Cada peça que você vai usar, você nunca vai comprar uma peça de artesanato e encontrar outra igual. Então não dá para te dizer tempo, porque é muito processo”, completa a artesã Cida. Diferente das peças industrializadas, as peças artesanais podem levar dias, semanas e até meses para ficarem prontas, como no caso dos xales de seda. No total, esse processo de produção pode durar em torno de 30 a 40 dias para ser finalizado, sem contar as pausas feitas durante a tecelagem.

O trabalho com o artesanato não é fácil, principalmente pelo fato de que muitas vezes ele é desvalorizado, tanto no reconhecimento da profissão quanto na cobrança dos próprios artesãos em relação às suas criações. “A gente preza muito pelo acabamento, porque muita gente fala do artesanato: ‘ah, é artesanato, é de qualquer jeito mesmo’. Eu quero perfeição. Eu quero desde a montagem, porque no tear principalmente, se ela não estiver perfeita, a peça não vai ficar perfeita. Então a montagem da peça é a mais importante”, explica Roseli.

A Feira de Economia Solidária como espaço de fortalecimento do trabalho artesanal

Esses aspectos destacam a importância da visibilidade do artesanato, já que ele é fonte de renda para muitas famílias e, ao mesmo tempo, uma das bases da construção da identidade cultural da cidade. Nesse cenário, ganham destaque as feiras de incentivo, como a Feira de Economia Solidária. Criada a partir de uma demanda da Rede de Economia Solidária do Médio Vale do Itajaí, trata-se de um espaço de geração de trabalho e renda voltado aos produtores artesanais, fundamentado nos princípios da economia solidária, como colaboração, associação, apoio mútuo e desenvolvimento socioeconômico-territorial sustentável.

Um dos pontos mais significativos da Feira de Economia Solidária é justamente o foco na geração de trabalho e renda, articulado ao desenvolvimento territorial e ao fortalecimento da economia local. Isso porque, ao priorizar a comercialização de produtos locais, evita-se que os recursos financeiros sejam direcionados a grandes corporações ou mercados internacionais, fazendo com que esse valor circule dentro do próprio território e fortalecendo o acesso a bens, serviços e oportunidades na região.

Além da feira, existe também a Vitrine Ecosol, que funciona como uma extensão ou até uma complementação do espaço da feira, ainda em processo de consolidação. Como o próprio nome indica, ela tem um papel importante: apresentar os produtos dos artesãos da cidade de Blumenau e dar visibilidade ao que é produzido por eles.

Roseli Kietzer Moreira é doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Furb, mestre em Educação pela mesma universidade, graduada em Artes Visuais e especialista em Cerâmica e Arte-Educação. Atualmente, é professora do curso de Artes Visuais da Furb e atua como professora de Arte e vice-diretora da Escola Técnica do Vale do Itajaí (Etevi). Possui experiência nas áreas de arte-educação, cerâmica, escultura, tridimensionalidade, história da arte e arte popular brasileira, além de ser autora de livros voltados à arte, educação e educação do sensível.

Também é ceramista e artista visual. Na Feira de Economia Solidária, atua como professora e assessora ligada à Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) da Furb, contribuindo com ações de formação, orientação dos artesãos e fortalecimento de espaços de visibilidade como a vitrine, voltados à valorização do trabalho artesanal dentro da economia solidária. Segundo ela, o espaço da vitrine ganha ainda mais relevância para a cidade pelo fato de não existirem tantas iniciativas como essa em Santa Catarina. “Esse espaço ganha ainda mais relevância quando a gente considera que, em Santa Catarina, existem apenas cinco centros públicos como esse. Então, para nós, em Blumenau, é algo extremamente significativo”, comenta.

Ela ainda complementa que a globalização de produtos atualmente é um grande desafio para o cenário do artesanato da região. “Essa globalização dos produtos a gente precisa entender que isso é um grande desafio. Principalmente para o artesanato, isso exige que a gente pense constantemente em formas de valorizar aquilo que é nosso, aquilo que é local. É necessário construir uma cultura voltada para reconhecer a importância do que é regional, do que é feito aqui, pelas nossas mãos”.

Além dela, Cláudia Sombrio Fronza também faz parte da organização da feira. Graduada em Serviço Social pela Furb, mestre em Sociologia Política e doutora em Serviço Social pela UFSC, atualmente é professora do Departamento de Serviço Social da Furb, integra grupos de pesquisa ligados à economia solidária, trabalho e políticas públicas e possui atuação acadêmica voltada às transformações no mundo do trabalho, movimentos sociais e questão social. Além disso, coordena a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) da Furb e participa do Conselho Estadual do Artesanato e da Economia Solidária de Santa Catarina. “Hoje vivemos em uma lógica de produção de muitos itens descartáveis, que pouco contribuem para o desenvolvimento de capacidades e habilidades humanas. E o trabalho, especialmente o artesanal, tem também esse papel formativo, ele envolve compreender todo o processo, desde a produção até a comercialização, a venda e a distribuição. Diferente do modelo tradicional, em que o trabalhador é fragmentado em tarefas, a economia solidária busca romper com essa lógica”, avalia a professora.

Ao analisar as relações de consumo na sociedade atual, percebe-se que o preço dos produtos frequentemente se sobrepõe a questões como qualidade, sustentabilidade e impactos sociais. Esse cenário está diretamente ligado ao modelo de produção em larga escala e às desigualdades econômicas presentes no sistema atual. Nesse contexto, a lógica da globalização e os princípios da economia solidária divergem entre si. A organizadora da feira solidária, professora Cláudia Fronza, diz que os produtos feitos em larga escala são mais consumidos devido aos preços mais baixos em comparação aos do trabalho artesanal.

Segundo ela, os produtos globalizados acabam sendo mais baratos, porque são feitos em grande escala. Muitas vezes, não há preocupação com o impacto ambiental, com o descarte ou com as consequências para o planeta. O foco, nesse modelo, é a acumulação de capital. Já na economia solidária, o olhar é garantir geração de trabalho e renda para que as pessoas possam viver com dignidade. “É aí entra um ponto importante, muitas vezes as pessoas não consomem produtos artesanais não porque não querem, mas porque não podem. A renda, em muitos casos, é insuficiente. Se houvesse uma remuneração mais justa, as pessoas teriam mais possibilidade de escolha”, finaliza.

De acordo com Mariana Girardi Ramos de Aguiar, diretora de Cultura da Secretaria Municipal de Cultura e Relações Institucionais de Blumenau, a chegada da industrialização impactou o trabalho artesanal, mas não necessariamente de forma negativa, trazendo movimentação e parcerias entre esses dois métodos de produção. Ela cita que “a industrialização impactou significativamente o setor artesanal, especialmente pela introdução de materiais e processos industrializados em produtos considerados artesanais. No entanto, observa-se, por meio de parcerias e ações de incentivo, um movimento crescente de resgate da essência do artesanato. Os artesãos têm buscado valorizar matérias-primas mais autênticas, técnicas tradicionais e criações autorais, resultando em produtos que refletem de forma mais genuína a identidade cultural da cidade”.

Ela ainda sintetiza: “a concorrência é compreendida como um fator positivo para o desenvolvimento e aprimoramento do setor artesanal. Nesse contexto, a profissionalização dos artesãos torna-se essencial para garantir diferencial competitivo, por meio da criação de produtos exclusivos, com forte identidade cultural e valor histórico. Esses atributos são difíceis de serem reproduzidos em escala industrial, o que reforça a singularidade do artesanato local”.

O sentido do artesanato

Apesar de tudo, o produto artesanal carrega aspectos que, muitas vezes, são invisíveis para quem consome. Mas eles estão ali, presentes. Quando alguém adquire uma peça artesanal, não está comprando apenas um objeto, está ajudando a manter aquele artesão, fortalecendo a confiança dele no próprio trabalho e reconhecendo que aquilo tem valor. Além disso, o artesanato representa a cultura local, permite que o artesão se expresse como cidadão e envolve também uma dimensão de cidadania.

Mesmo que o produto artesanal e o próprio artesão muitas vezes sejam desvalorizados na sociedade atual, eles continuam produzindo, criando e confeccionando suas peças todos os dias. Isso porque não são peças feitas apenas para venda e comercialização, como no método de produção em massa, mas também criam laços entre pessoas, servem como uma fuga da rotina e, o mais importante, são feitos com amor.

Para a artesã Alice Kempczinski, que cria filtros dos sonhos com significados, “eu faço artesanato porque eu amo, e é gratificante. Se eu ganhasse um real a cada elogio, não precisaria vender nada, porque o elogio é o combustível do artesão. Mas aquele elogio sincero, que você vê nos olhos da pessoa, quando ela para se encanta e pergunta: ‘foi você que fez?’. Isso é por amor”.

Já para a artesã Bárbara Menezes, que produz caixas de madeira para decoração, principalmente kits de bebê, “o que faz eu continuar são as pessoas que valorizam, incentivam e falam que não tem igual; a gente gosta muito disso. O que faz eu continuar é isso, as pessoas que procuram novamente, que incentivam. Isso é um incentivo mesmo”.

As artesãs Cida Boss e Rosimari Bauler, que fundaram juntas a “Toca do Artesanato”, local no qual ensinam técnicas de tecelagem, comentam sobre o motivo de continuarem. Cida afirma que é por paixão ao artesanato. “Paixão. Isso aqui é uma cachaça. Tipo assim, eu tenho uma empresa estressante. Quando eu venho duas tardes por semana para cá, isso aqui é como se fosse uma terapia. Tanto que nós temos como slogan aqui, isso aqui é uma terapia. Porque a gente vai ficando mais velha e essa terapia é necessária. O trabalho com pessoas, o dia a dia é estressante. Aí você vem para cá, dá uma aliviada, sai leve, parece que tirou uns dez quilos das costas”. Já Rosimari destaca que o retorno do artesanato é gratificante. “Quando você se dedica, que nem a gente aqui, e qualquer pessoa que faz artesanato, ela se dedica de verdade. E quando você vende para uma pessoa que dá valor, isso é gratificante. É como se dissesse: você está no caminho certo”.

Essas “facetas invisíveis” fazem com que o artesanato vá muito além do produto em si. Cada peça carrega história, identidade, pertencimento e resistência, construídos em horas de trabalho, aprendizado e dedicação de cada artesão. Em meio à produção acelerada e padronizada, o artesanato continua preservando aquilo que não pode ser reproduzido em massa, a singularidade de quem cria a peça, os vínculos construídos ao longo do processo de fabricação e sua contribuição histórica para a cultura de Blumenau e região.  

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