A desilusão com a CLT, o choque geracional e a romantização do empreendedorismo
Por Sarah Regina Werle
Quando escuta a sigla CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), Laisa Kaiane Lehmkuhl, uma jovem blumenauense de 16 anos, pensa imediatamente na palavra cansaço. O termo, que para gerações passadas era sinônimo de conquista e estabilidade, hoje carrega um peso diferente para quem observa o mercado com novos olhos. “Como cresci vendo meus pais trabalharem neste regime, sempre os vi muito exaustos. Então, para mim, a sigla sempre remeteu a esse esgotamento”, relata.
A adolescente, que hoje atua como aprendiz pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai),na expedição de uma tradicional empresa têxtil de Blumenau, busca um horizonte diferente daquele trilhado por sua família. Para Laisa, alcançar uma “vida confortável” não se resume apenas a grandes cargos, mas envolve, primordialmente, o equilíbrio entre saúde financeira e mental. Gostar do que faz e ter um emprego próximo de casa, evitando o desgaste físico e emocional do deslocamento urbano tornaram-se pilares importantes para empregos futuros.
Por que a CLT virou sinônimo de “fracasso”?

A percepção de Laisa não é um caso isolado, mas o reflexo de um desabafo que domina a internet. O discurso, que começa com vídeos em redes sociais como TikTok e Instagram, já alcançou crianças e adolescentes. Para esse público, ter carteira assinada virou sinônimo de “fracasso”. Um movimento crescente de jovens questiona o regime CLT, associando o modelo a rotinas engessadas, chefes autoritários e transporte coletivo lotado. Aproveitando essa insatisfação, influenciadores digitais ganham espaço vendendo a promessa do sucesso fácil e da liberdade de ser seu próprio chefe. Mas será que esse discurso das telas resiste à realidade do mercado de trabalho de Blumenau e região?
Para Marco Antonio Mariano, 18 anos, estudante de Engenharia Civil na Universidade Regional de Blumenau (Furb) e jovem aprendiz em uma indústria têxtil, o regime CLT é sinônimo de “trabalhar em uma empresa a vida inteira, ganhando um salário mínimo”. Marco não tem a intenção de ser efetivado e seu foco é ter autonomia. “Quero fazer as coisas do meu jeito, sem ter um chefe”, afirma. No entanto, ele mantém uma certa distância dos gurus digitais. Segundo o jovem, a maioria dos influenciadores não vive o que prega. Em vez de algoritmos, ele busca nos professores da universidade e em dicas de investimento o suporte para, no futuro, abrir sua própria empresa de engenharia.
É válido ressaltar que essa resistência ao modelo tradicional não nasce apenas nos discursos da internet. Em entrevista ao site Humanamente, da Fiocruz, o pesquisador Lucas Pelissari, doutor em Políticas Públicas e Formação Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor do Departamento de Políticas, Administração e Sistemas Educacionais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que a desvalorização da CLT faz parte de um plano econômico que ganhou força a partir de 2016. Segundo ele, mudanças como as reformas trabalhista e da previdência, além da reforma do Ensino Médio, atuam juntas para facilitar a terceirização e diminuir a proteção ao trabalhador. O objetivo final desse projeto seria tornar a mão de obra no Brasil mais barata e fácil de controlar pelo mercado. Nesse cenário, o que os influenciadores vendem como “liberdade” e “empreendedorismo” pode ser, na verdade, o reflexo de um mercado que tornou o emprego formal instável. Para o pesquisador, essa ideologia acaba empurrando o jovem para uma realidade de trabalho sem direitos, escondida sob o nome de autonomia, tornando o primeiro emprego menos atraente e mais precário para quem está começando.
Apesar da “glamourização” do empreendedorismo, a carteira assinada ainda é o que garante o sustento da maioria dos jovens. Dados oficiais do governo federal de 2025 mostram que o trabalho formal segue em alta. Apenas em agosto, jovens de 18 a 24 anos foram os que mais conseguiram emprego no país, preenchendo mais de 94 mil vagas. Entre os menores de 17 anos, foram 33,7 mil postos ocupados, sendo que quase 20 mil deles foram através do programa Jovem Aprendiz.
O crachá como sobrevivência
Ao conversar com as instituições que preparam os jovens para o mercado de trabalho, como o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), a mudança de comportamento é visível. Rodrigo Schmitt, gestor do CIEE de Blumenau e Brusque, conta que, pela primeira vez, a entidade registra mais aprendizes do que estagiários. Essa modalidade cresce impulsionada pela legislação — que obriga empresas a contratarem uma cota proporcional de jovens aprendizes ao seu quadro de funcionários —, mas também por um fator social. Rodrigo nota que estudantes do ensino superior têm preferido atuar sem registro ou como Pessoa Jurídica (PJ), enquanto o aprendiz, que em mais de 80% dos casos vem de escola pública, busca a carteira assinada pela necessidade urgente de ajudar na renda de casa.
Essa visão é reforçada por Bruna Reinert de Oliveira, coordenadora dos cursos de Aprendizagem do Senac Blumenau. Ela explica que o programa atende, em sua maioria, jovens de baixa renda que buscam ajudar no sustento da família ou conquistar a independência financeira. Muitos desses jovens, que estão dando os primeiros passos na carreira, não entram por uma escolha de vocação, mas sim por necessidade ou pedido direto dos pais, relata.
O conflito geracional
Outro fator importante no descontentamento do jovem com a CLT é o conflito de gerações presentes nas empresas mais tradicionais, como as indústrias da região. Diferente das gerações anteriores, o jovem atual não busca vínculo emocional com a empresa. “Ele não tem medo de manchar a carteira saindo cedo de um emprego”, afirma Rodrigo.
Esse dado se consolida em nível nacional. Segundo o Instituto Nexus, em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), 36,7% dos jovens com menos de um ano no trabalho já buscam novas vagas. Para a coordenadora do SENAC, o que falta não é habilidade técnica, mas sim maturidade emocional para lidar com críticas e feedbacks. Ela aponta ainda um forte imediatismo em subir na carreira. “Embora possam até desejar a estabilidade da CLT e a ascensão profissional, apresentam pouca paciência com o processo”, afirma.
Para Rúbia Kisner Traple, psicóloga clínica especializada em terapia cognitivo-comportamental, a resistência dos jovens ao modelo CLT reflete uma inversão de valores. Enquanto as gerações anteriores operavam sob o que a sociologia chama de comprometimento normativo (vínculo entre o colaborador e a organização baseado em uma obrigação moral), os jovens de hoje mudaram a regra do jogo.
“Os mais antigos entendiam que deveriam servir à empresa, um reflexo da gratidão por um emprego em tempos de escassez. Hoje, os jovens entendem que a empresa é quem deve servi-los, focando no bem-estar próprio e exigindo benefícios”, explica Rúbia. Essa mudança tem raízes históricas, ao verem seus pais serem descartados por empresas após anos de lealdade, a Geração Z substituiu a fidelidade à organização pelo foco na sua própria carreira.
“A internet vende uma realidade paralela que causa deslumbre e baixa tolerância à frustração no mundo real”, explica a psicóloga. Como consequência, ao chegarem no regime CLT, que exige degraus, horários e subordinação, a frustração é desproporcional. Eles não querem “construir” uma carreira; querem que ela já esteja pronta. Esse desejo colide com a escassez de mão de obra no “chão de fábrica”, áreas abundantes em vagas, mas que não oferecem o status ou a liberdade que essa geração aprendeu a valorizar.
Essa baixa tolerância à frustração, no entanto, encontra um contraponto quando o jovem é preparado para entender os processos do mundo adulto. Lucas Becker, 18 anos, é o exemplo de que a educação técnica é um diferencial para compreender a relação entre a expectativa e a realidade.
Egresso do ensino técnico do Instituto Federal Catarinense (IFC), estudante de Engenharia Mecânica na Furb e hoje estagiando em uma indústria metalmecânica da região, ele já atua diretamente em sua área de estudo e enxerga no ambiente corporativo uma oportunidade real de desenvolvimento a longo prazo. Diferente de muitos colegas de geração, ele vê a CLT de forma positiva e valoriza o aprendizado de convivência e prazos que trouxe da escola. “Tivemos matérias que ensinavam a não pular passos para criar uma ideia. Aprendemos que, mesmo sendo ‘donos’ do projeto, tínhamos que cumprir prazos rígidos e ouvir os colegas”, explica.
Ao contrário do que Rúbia aponta sobre o desejo de ter a “carreira pronta”, Lucas entende o valor do degrau. Para ele, o planejamento de se tornar engenheiro mecânico ou professor exige paciência e respeito à hierarquia técnica. Seu relato reforça que, quando a escola ou a empresa investem em explicar o “porquê” de cada etapa, o sentimento de “servidão” dá lugar ao de desenvolvimento profissional.
A realidade além do algoritmo
O exemplo de Pamela Cunhago, 18 anos, representa essa transição geracional em Blumenau. Futura estudante de arquitetura, ela atua como jovem aprendiz no setor de recursos humanos de uma indústria de papel e mantém os pés no chão diante das promessas de sucesso instantâneo. Mesmo enfrentando um deslocamento diário de 30 quilômetros, Pamela vê a carteira assinada como uma etapa fundamental de aprendizado. “Não é maravilhosa, mas é um trabalho regularizado”, define.
A postura de Pamela não é apenas uma escolha individual, mas o reflexo de um dado que desmistifica o senso comum. Segundo a pesquisa do Instituto Nexus, em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), 36,3% dos jovens brasileiros ainda preferem a CLT como primeira opção, contra apenas 18,7% que optam pelo trabalho autônomo. No “mundo real”, a proteção dos direitos trabalhistas e a previsibilidade do salário no fim do mês ainda pesam mais do que a liberdade sem garantias vendida nas redes sociais.
Percebe-se que o jovem de Blumenau não “odeia” o trabalho formal por falta de vontade. O que existe é uma reação consciente a um cenário de baixos salários iniciais, riscos de adoecimento e a memória visual do esgotamento dos pais. Para quem vem de escola pública e precisa ajudar na renda de casa, como muitos dos aprendizes, a CLT não é um fardo e sim um caminho seguro.
O desafio para o mercado local não é apenas contratar pessoas dessa nova geração, mas oferecer um ambiente onde a carteira assinada signifique dignidade e crescimento, e não apenas o início de um novo ciclo de exaustão e hierarquia. A juventude busca um futuro diferente, mas se as estruturas não se transformarem, o sucesso vendido nas telas seguirá como um sonho para poucos, enquanto o regime formal permanece como a alternativa real onde a trajetória desses jovens verdadeiramente começa.